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Nosso pior pesadelo

Por Marcos Araújo

09/09/2021 às 07h05 - Atualizada 08/09/2021 às 19h04

Estou no meio de uma larga avenida, e o estranho é que não há mais ninguém ao redor. Existe um silêncio que amedronta, como se algo de ruim estivesse na iminência de acontecer. O ar está quente e difícil de respirar. Eu começo a suar. Grito, mas não consigo ouvir minha voz. Entro em pânico. De repente, percebo que uma nuvem se aproxima. Mas não é uma nuvem comum. Parece que é uma nuvem de insetos, que não consigo distinguir. Quando se aproxima mais, dá para ver que são pessoas. Elas são milhares, milhares sem máscara. Elas possuem uma expressão de raiva e bradam palavras de ordem, que também não consigo decifrar. Elas me cercam prontas para o ataque. Sinto-me como se estivesse dentro de um filme de zumbis, que se amontoam em bando sobre uma única presa. Tento gritar mais uma vez e, novamente, não consigo.

O relato acima se parece até com roteiro de filme coreano que mistura ação, suspense e distopia, né? Mas, não. É apenas um sonho, ou melhor, um pesadelo que tive na madrugada da última quarta-feira. Fui pesquisar sobre sonhos e acabei encontrando um estudo da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, que trata sobre os sonhos que os indivíduos passaram a ter desde que a pandemia começou a fazer parte do cotidiano coletivo.

Segundo a psicóloga Deirdre Barrett, autora da pesquisa, os sonhos destes tempos estranhos ou fazem referência direta à Covid-19 ou mostram que a angústia de se descobrir pelado em público, que é o temor mais recorrente que aparece nos sonhos, é replicada no medo de se ver sem máscara no meio de uma multidão. Quando não é assim, diz a pesquisa, os sonhos pendem para o fantástico, fazendo o vírus invisível tomar a forma de insetos e vermes. Talvez seja isso o que aconteceu durante o meu sono.

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No caso atual do Brasil, onde, além do coronavírus e suas variantes, somos obrigados a ver a destruição da Amazônia, crimes de “rachadinhas”, o número de mortos se aproximando dos 600 mil, o desemprego afetando a vida de mais de 14 milhões de pessoas, a alta da inflação e mais gente entrando na faixa da extrema pobreza, fica difícil não ter pesadelo quase todas as noites. No sonho de muitos brasileiros, o vírus invisível toma a forma de pessoas, algumas notórias no mundo da política, outras que estão bem perto da gente nos grupos de WhatsApp, no elevador, na janela da frente, na caminhonete passando na rua com bandeira do Brasil pendurada, consumindo gasolina a quase R$ 7 o litro.

De acordo com a ciência, o conteúdo dos sonhos ajuda as pessoas a ficarem bem, uma vez que, reviver, durante o sono, acontecimentos traumáticos contribui de maneira a controlar a memória desses impactos psicológicos, promovendo uma espécie de aprendizado. Ainda como apontam os especialistas, os pesadelos também têm sua função, pois servem de treinamento de respostas para determinadas situações.

Depois de ler isso, fiquei pensando em como seria essa ajuda na prática. Porque, sinceramente, gostaria de aprender a lidar com as minhas emoções todas as vezes que vou abastecer meu carro, que passo no caixa do supermercado, que ligo para o entregador de gás ou quando recebo a conta de luz. Haja pesadelo para aprender a enfrentar essa realidade!

Marcos Araújo

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