‘Então eu escuto’

"'Eu não sei dizer nada por dizer / Então eu escuto.' Essas palavras me fazem lembrar que não há necessidade de preencher o silêncio com discurso vazio." Na coluna deste domingo, o jornalista Marcos Araújo dá continuidade as suas reflexões sobre a importância do silêncio em um mundo caótico

Por Marcos Araújo

SECOSEMOLHADOScapadoalbum Divulgacao 1
Os versos “Eu não sei dizer nada por dizer / Então eu escuto” fazem parte da música “Fala” do primeiro álbum da banda Secos&Molhados, lançado em 1973 (Foto: Divulgação)

Hoje, vivemos em meio à comunicação constante e onipresente. É quase impossível ficar desligado e passar um tempo alheio ao que acontece no mundo. Somos, a todo instante, bombardeados por mensagens. Há ruídos por toda parte, e muitas vezes esquecemos a importância do silêncio e da escuta. Sei que estou sendo repetitivo, mas esse tema faz parte das preocupações que me consomem. A ausência de barulho, para mim, às vezes é necessária, e também não gosto de conversa oca, que não leva a nada. Temos dois ouvidos e uma boca, e a sabedoria popular nos ensina que assim fomos concebidos com a obrigação de ouvir mais do que falar.

Explico: nesta semana, ao ouvir a música “Fala”, do primeiro álbum dos Secos & Molhados, na voz de Ney Matogrosso, pus-me a pensar nos significados dessa letra, que, apesar de curta, é belíssima. É óbvio que já tinha ouvido a canção anteriormente e refletido sobre ela, inclusive no contexto da repressão e da censura, marcado pela ditadura militar brasileira no período em que o disco foi lançado. Mas, desta vez, ao ouvi-la, algo bateu diferente.

“Eu não sei dizer nada por dizer / Então eu escuto.” Essas palavras me fazem lembrar que não há necessidade de preencher o silêncio com discurso vazio. Escutar ativamente é uma habilidade desdenhada que muitos de nós poderiam aprimorar. A escuta atenta não só nos permite compreender melhor o outro, mas também nos oferece a chance de refletir e aprender.

A canção “Fala” me alerta para o fato de que o silêncio tem seu próprio poder e beleza. O silêncio, dependendo da dor, cura. “Eu só vou falar na hora de falar / Então eu escuto.” Existe um momento certo para cada coisa, incluindo o momento de falar e o momento de ouvir. Respeitar isso é uma forma de equilíbrio que pode enriquecer nossas relações e fazer de nós melhores pessoas, menos ruidosas e com mais compaixão e aptidão para o diálogo.

Se vivemos em um tempo de dominação da velocidade e da necessidade de respostas instantâneas, talvez a lição mais importante que podemos tirar seja a de que, às vezes, o mais essencial é justamente saber escutar. Assim, dar espaço ao outro para falar e dar a nós mesmos o tempo para absorver e refletir fazem parte do jogo. Porque, no fim das contas, a escuta atenta é uma das formas mais puras de respeito e compreensão que podemos oferecer.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade pelo seu conteúdo é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Leia também