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“As portas nem maçaneta têm”

Por Marcos Araújo

06/08/2020 às 06h51 - Atualizada 05/08/2020 às 21h16

Em conversa dias atrás com uma professora que trabalha em escola pública, ela me contou que o retorno às aulas é um tema que tem resultado em muita apreensão para toda a comunidade escolar. Em um desabafo, ela me disse que tem medo da volta das aulas presenciais, porque considera, e constata, por experiência em anos de docência na escola pública, que essas instituições foram abandonadas pelos governos e também, de certa forma, pela sociedade, que, erroneamente, foi instruída a pensar que o ensino público acabou no Brasil.

Com muita tristeza, eu ouvi da boca dessa professora que, pelo menos, haveria um consolo para quando as atividades retornassem: “De uma coisa eu tenho certeza, não será pelo toque que vou correr o risco de me infectar, pois, na escola em que trabalho, as portas nem maçaneta têm. A precariedade é tão grande que, às vezes, precisamos empurrar a porta com os pés, a fim de abri-la”.

Essa é a realidade dessas instituições que terão que lidar com medidas rigorosas de higiene para evitar a transmissão da Covid-19, quando as atividades começarem, depois de quase cinco meses suspensas.

A gente já leu que há pesquisas que indicam que a taxa de transmissão do coronavírus entre crianças é mais baixa do que em adultos. A gente também sabe que, quanto mais tempo afastados da escola, mais prejudicados os alunos serão, porque as perdas de aprendizagem poderão ser maiores e até irrecuperáveis para estudantes mais socialmente vulneráveis. Assim, melhor seria a volta às aulas o quanto antes.

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Mas a gente também já leu que outros estudos apontam que a transmissão do vírus pode ocorrer da mesma forma em adultos e crianças, e que o governo irá lançar mão de métodos para que não haja desfalque no ensino ao longo dos próximos anos e, por isso, não valeria a pena expor alunos, familiares e profissionais da educação ao risco. Assim, melhor seria que as aulas continuassem suspensas.

O certo é que estamos no meio do furacão, e que o Brasil já tem mais de 96 mil mortos pela Covid-19 no momento em que escrevo este texto. É o segundo país no mundo onde mais pessoas perderam sua vida em razão da pandemia. E não adianta qualificar o trabalho de jornalistas como “imprensa de necrotério”, como uma parte da sociedade tem feito, para menosprezar o trabalho profissional de jornalistas que, diariamente, cobrem os boletins epidemiológicos, divulgando números da Covid-19 e ações ou malfeitos do governo no combate ao avanço da doença. É papel da imprensa apresentar dados, cobrar, contrapor, alertar, informar e colaborar com o debate.

O que quero colocar aqui, diante de certezas e incertezas, é que estamos frente a uma situação complexa e que não pode ser conduzida e resolvida no contexto de ânimos acirrados, atravessada por divergências ideológicas. São vidas que estão em jogo, apesar de não estarmos em um campeonato.

Não existe divergência de que será necessário adotar sérios critérios sanitários para minimizar o perigo de contaminação. A pergunta que merece destaque, agora, é se nossas escolas terão condições de receber sua comunidade, principalmente, porque a tendência de queda nos números de casos de coronavírus ainda não está estabilizada. É preciso ainda questionar se governo e sociedade estão prontos para olhar e acolher a escola pública de outra forma, porque, enquanto enxergarmos a falta de maçanetas nas portas com naturalidade, o ensino público brasileiro não será capaz de abrir as portas para o futuro de ninguém!

Marcos Araújo

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