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Doentes de fome

Por Marcos Araújo

03/06/2021 às 07h05 - Atualizada 02/06/2021 às 16h57

Parei no semáforo da Avenida Brasil com a Ponte do Ladeira. Uma mulher, que aparentava não ter mais de 50 anos e vestida de forma muito simples, aproximou-se do meu carro. Nas mãos, ela carregava uma caixinha de drops. “Custa só um real”, ela disse. Juntei todas as moedinhas que encontrei na minha frente e comprei. Ela me deu um sorriso e agradeceu. Mas antes de ir embora, ela leu alguma coisa no meu olhar e disse: “Estou desempregada, moço. E essa foi a forma que arrumei para espantar a fome.”

Estava em casa e meu pai chegou da rua impressionado: “Como tem gente vendendo de tudo nos sinais da cidade. Acabei de cruzar com um rapaz, de cerca de 20 anos, boa aparência e forte, que estava no sinal vendendo empadinhas”, disse meu pai, concluindo em seguida: “A situação está feia, e as pessoas estão tendo que se arranjar como podem. É o medo da fome.”

Basta uma saída pelas ruas de Juiz de Fora para constatar o que muitos institutos de pesquisa vêm apontando: o empobrecimento da população brasileira. A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, publicada em abril deste ano e realizada pelo grupo Alimentos para a Justiça, revela uma condição esmagadora. Até o final de 2020, 59,9% da população brasileira enfrentava algum grau de insegurança alimentar, ou seja, em algum momento do ano passado, cerca de 125 milhões de brasileiros não tiveram o que comer.

Matar a fome de quem tem fome também é uma questão de política pública. Nenhum brasileiro poderia ter seu prato vazio, porque o país tem condições de saciar a fome de sua população. Por que isso não está acontecendo? O que está errado? Tempo existe para se pensar nas respostas, mas falta o desejo político de assumir soluções definitivas. E essa situação se repete e se torna mais dramática com a circulação do coronavírus.

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Reportagem recente publicada pelo jornal “El País Brasil” mostra que médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde de Brasília, a terceira cidade com o maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, têm percebido um aumento no número de pessoas que dão entrada em centros de saúde pública com sintomas que acreditam ser de alguma doença, mas, na verdade, estão famintas.

É triste constatar, mas tem gente que está doente de fome. E o problema é acentuado, porque, sem jeito de botar comida na mesa, tornou-se comum aparecerem pacientes com crise de ansiedade e de pânico. Pensa como seria ter crianças em casa e não ter como comprar comida? É uma situação de deixar qualquer um doente, avaliam os profissionais de saúde.

É algo terrível de pensar que ainda existe fome em pleno século XXI. É uma indecência para a nação deixar brasileiros e brasileiras padecendo de fome. Devido à pandemia da Covid-19, a situação foi agravada, porque milhares de pessoas perderam o emprego, engrossando as filas, que já eram grandes, à espera de uma vaga. O novo auxílio emergencial é insuficiente. O valor repassado precisaria ser maior para dar conta das carências dessas pessoas à beira do desespero, porque a fome é desesperadora, é indigna e tira a dignidade das pessoas.

Para terminar, vou usar a frase dita por uma organizadora de programas de doação de alimentos, em Brasília, entrevistada na reportagem do El País: “o único remédio pra fome é a comida”. E sabemos que comida e riqueza não faltam ao Brasil. Aqui faltam muitas coisas e vergonha é uma delas!

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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