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Ficção científica lançada em 2014 “prevê” pandemia em 2020

Por Marisa Loures

21/04/2020 às 11h17 - Atualizada 21/04/2020 às 11h48

Melissa Tobias não se lembrava de trecho de “A realidade de Madhu” em que descreve uma pandemia que atacaria a Terra em 2020 – Foto Divulgação

Aviso: a despeito das coincidências, o assunto aqui hoje é ficção científica. Nada de susto com o que você vai ler agora, pois não se trata de realidade. Página 183. Trecho de “A realidade de Madhu” (Novo Século, 280 páginas), de Melissa Tobias. Lançamento: 2014. “Em 2020, quando a Terceira Realidade terminou de envolver todo o planeta Terra, uma pandemia global matou mais de três bilhões de terráqueos. Foi um momento muito caótico que durou dois anos. Foi uma pandemia viral psicossomática que penetrava somente em corpos incompatíveis com a vibração de amor ao próximo. Não havia para onde fugir”.

É isso mesmo o que você leu, caro leitor e cara leitura. Há seis anos, Melissa enviou para as prateleiras um livro de ficção científica que parecia prever o que estamos vivendo no mundo hoje. E o curioso é que ela nem se recordava do que havia escrito até começar a receber mensagens em suas redes sociais, alertando para o trecho transcrito acima. Não me lembrava mesmo daquele parágrafo específico, pois faz sete anos que escrevi ‘A Realidade de Madhu’. Fiquei muito surpresa, tentando me lembrar o que me motivou a escrever aquilo”, confessa a autora, fazendo questão de enfatizar que não é médium nem vidente.

“Ao certo, não sei. Mas não quero criar uma imagem pessoal falsa com propósito de vender livro”, ressalta ela, que está vendo a procura pela obra aumentar bastante, e que, à época da primeira edição, não conseguindo uma editora, tirou do próprio bolso os R$ 15 mil gastos com a tiragem de 2000 exemplares.

“A verdade é que não tenho nenhum dom singular, não sou melhor nem mais especial que ninguém. Quando escrevo uma ficção, entro num estado de meditação ativa. Durante uma meditação, nossa mente fica um pouco de lado para que a alma venha a se manifestar. E nossa alma é sábia, integrada ao Todo. Durante a escrita criativa, às vezes, a alma fala mais alto. Porém, não se deve fazer leitura literal de um livro de ficção. Segundo Picasso: ‘A arte é uma mentira que diz a verdade’, porém essa verdade está oculta por metáforas, na subjetividade”.

No romance de Melissa, “Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. A bordo da colossal nave alienígena, fará amizade com uma bizarra híbrida, conhecerá um andróide que vai abalar seu coração e aprenderá lições que mudarão sua vida para sempre. Madhu é uma Semente Estelar e terá que semear a Terra para gerar uma Nova Realidade que substituirá a ilusória realidade criada por Lúcifer. Porém, a missão não será fácil, já que Marduk, personificação de Lúcifer na Via Láctea, com a ajuda de seus fiéis sentinelas reptilianos, fará de tudo para não deixar a Nova Realidade florescer. Madhu terá que tomar uma difícil decisão. E aprenderá a usar seu poder sombrio em benefício da Luz.”

Nascida em Palmital, interior de São Paulo, Melissa tem formação em Naturologia e especialização em Ayurveda (medicina tradicional indiana). Ela também é autora de “Cibernética”, “Uma ilha no fim do mundo” e O amor é cego”. Neste bate-papo, ela fala sobre a influência de uma profecia de Chico Xavier na criação de “A realidade de Madhu”, conta que seria um sonho poder conhecer seus personagens pessoalmente, confidencia o que gostaria de ver saltando dos livros e filmes de ficção científica para a vida real e aponta como será o futuro, segundo a mente criativa de uma autora de ficção científica.

Marisa Loures – O que fez de você uma escritora e o que a levou para a ficção científica?

Melissa Tobias – Eu sempre fui uma aluna regular na escola, pois tinha muita dificuldade em prestar atenção nas aulas. Minha mente divagava em histórias que surgiam na minha cabeça e eu me desconectava com tudo ao meu redor. Por esse fato, de não ter sido uma aluna exemplar, nunca passou pela minha cabeça ser escritora. Simplesmente não me achava capaz. Todavia, sempre gostei muito de ler livros de ficção. Foi por acaso que me descobri como escritora. Tive um sonho que me trouxe um sentimento muito bom e para não esquecer o sonho comecei a registrá-lo. No que comecei a escrever, mergulhei no universo da protagonista e não conseguia, nem queria mais sair de lá. Demorei para me dar conta de que aquilo poderia vir a ser uma obra literária. Sou fascinada por futurologia, por isso meus autores preferidos são Isaac Asimov, Philip K. Dick e Mary Shelley. Gosto de imaginar o futuro e as infinitas possibilidades que nos aguardam.

– Uma profecia do Chico Xavier foi inspiração para “A Realidade de Madhu”. O que ela diz?

Sempre fui muito curiosa, e, por isso, sempre gostei muito de ler. Comecei meus estudos sobre holismo e espiritismo quando tinha 13 anos de idade. Então, ao longo de anos, até a criação de “A realidade de Madhu”, já havia lido muito sobre Kabbalah, geometria sagrada, vedas, budismo, entre outros. Muitos desses saberes se convergem no que se refere a uma transição planetária, o fechamento de um ciclo e início de um novo ciclo planetário. Mas é impossível prever uma data exata, pois a vida é orgânica e nem sempre perfeita e matemática, uma vez que toda ela é baseada na série de Fibonacci. Somente Chico Xavier nos deu uma data precisa do fim de um ciclo planetário. Segundo ele, a data 2019 seria um marco para a humanidade, uma espécie de “data limite” e o início de grandes mudanças.

“Previsões podem acontecer, subjetivamente, como todo artista que cria sua obra a partir do coração e não da mente. Não tenho medo disso. Mas tenho receio de que as pessoas passem a procurar meus livros na busca de previsões. Se quer previsões, sugiro buscar livros psicografados ou canalizados por médiuns experientes e humildes.”

– E na realidade do seu livro Madhu é abduzida por uma nave intergaláctica. Faz amizade com uma híbrida, conhece um andróide e por aí vai. Gostaria de conhecer suas criaturas pessoalmente? Ou a possibilidade de mais alguma de suas “previsões ficcionais” realmente acontecerem a assusta?

Tive uma relação muito íntima com meus personagens, e, quando sinto muita saudade, releio meu livro. A Madhu é meu alter ego, e os demais personagens são meus melhores amigos. Seria um sonho conhecê-los pessoalmente. Previsões podem acontecer, subjetivamente, como todo artista que cria sua obra a partir do coração e não da mente. Não tenho medo disso. Mas tenho receio de que as pessoas passem a procurar meus livros na busca de previsões. Se quer previsões, sugiro buscar livros psicografados ou canalizados por médiuns experientes e humildes.

– Uma pessoa muito fã de filmes de ficção científica, como você, me disse esses dias ficar maravilhado quando vê algumas invenções tecnológicas, antes só imaginadas em filmes desse gênero, hoje, fazerem parte da vida real. Ela disse que aguarda, ansiosa, o dia em que vai ser comum carros voadores cruzando o céu do nosso país. O que gostaria que saltasse da ficção científica para a vida real?

Sou fascinada pela ideia de transferência de consciência humana para um corpo ciborgue, onde uma inteligência artificial conectada à internet se integraria à consciência humana. Por isso sou tão fã de Frankenstein da Mary Shelley. Ela foi a primeira a ter essa ideia em dar senciência a um corpo sem vida.

– A ficção científica parece estar vivendo um bom momento no Brasil – pelo menos, é o que me leva a crer o número cada vez maior de títulos lançados anualmente, ainda que ela precise conquistar as grandes instâncias legitimadoras, como prêmios literários e a academia. Arrisca um palpite para esse bom momento do gênero?

Tudo começou com os nerds, pessoas muito inteligentes, que nutriam grande fascínio por conhecimento ou tecnologia. Mas eram raros; um nicho muito pequeno. Com a popularização da internet nos anos 1990, a tecnologia ganhou status de poder. Com isso, a cultura média passou a aceitar mais abertamente esse traço cultural. Figuras como Bill Gates e Steve Jobs, considerados nerds esquisitos anteriormente, se tornaram a personificação do sucesso. Ser nerd agora é invejável! Esta cultura começou a ser fortemente incentivada pelas indústrias em geral. Afinal, vivemos no capitalismo que busca o lucro. “Star Wars” e “Star Trek” voltaram com tudo, bem como filmes de super-heróis voltados para o público adulto. Hoje é raro encontrar alguém que não tenha assistido “Senhor dos anéis”. Tolkien saiu do nicho exclusivo dos nerds e ganhou a fama. Atualmente, as crianças possuem uma capacidade impressionante de lidar com a tecnologia. Uma facilidade ímpar para compreender a informática. Com certeza, o gênero ficção científica tende a crescer muito mais.

– A possibilidade de vivermos um mundo diferente, de mudarmos para melhor, depois que essa pandemia passar, é tema de várias conversas atualmente. O que o futuro nos espera, segundo a mente criativa de uma autora de ficção científica?

Teremos avanços tecnológicos inimagináveis. Atualmente, a sociedade está doente, saturada. A mudança é inevitável, se não vier pelo amor, virá pela dor. E essa mudança trará evolução, em todos os sentidos.

Sala de Leitura – Segunda-feira, às 9h40, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,3)

 

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“A realidade de Madhu”

Autora: Melissa Tobias

Editora: Novo Século (280 páginas)

Disponível na Amazon.

Blog da autora: https://escritoramelissato.wixsite.com/tobias

 

 

 

Trecho de “A realidade de Madhu”

Por Melissa Tobias

“Tempo cronológico no planeta Terra:

setembro, ano de 2019.

Ela sabia que tinha de fugir de lá antes que o médico voltasse. Ele era perigoso e poderia tentar lhe matar.

Assim que viu a oportunidade de fugir, saltou da cama hospitalar. Estava descalça, sentiu o frio gélido na sola de seus pés ao tocarem no piso branco de ladrilho. Usava somente camisola, mas não tinha tempo a perder procurando uma roupa. Tinha de fugir daquele hospital, rápido!

Abriu lentamente uma fresta da porta para dar uma espiada. O corredor estava vazio. Podia sair.

Ao sair, observou o número na porta de seu quarto, era o 33. Começou a correr na direção do quarto 32. Correu por vários corredores procurando uma saída, mas não encontrava. Estava perdida.

Cansada de correr, parou para respirar e pensar qual lado deveria seguir. Olhou para os dois lados do corredor e então viu a porta à frente. Estava diante do quarto 33, o seu quarto!

Assim que abriu os olhos, Madhu ficou confusa, o sonho fora muito real. Olhou ao redor e só então percebeu que não se lembrava de onde estava.
Não entendia como havia chegado naquele peculiar espaço. Estava pávida com a situação. Usava sua calça jeans surrada preferida, uma camiseta baby look verde com estampa do Mestre Yoda de Star Wars e o velho tênis all star vermelho.

Encontrava-se sozinha naquela distinta e impecável alcova. Tudo naquele espaço era impecavelmente branco. Até mesmo o leito no qual acordara. Apesar de aparentemente ser feito de pedra, era confortável, tinha temperatura agradável, parecia macio, o que era ilógico, como tudo naquele lugar.

A farta iluminação vinha das paredes. Sem nenhum foco principal, toda a parede reluzia. Não havia nada que parecesse habitual.

Sentou-se lentamente, pois sentia seu corpo pesado e uma leve tontura. Olhou ao redor novamente à procura de uma porta. Não havia nenhuma. Havia apenas um aparato anômalo ao lado do leito que estava centralizado na alcova. Observou adesivos dourados de formato triangular fixados em sua testa e na parte medial de seu antebraço. Teve o impulso de retirá-los, não sabia o que era aquilo.”

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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