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Amanda Machado dá voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas em “Os pratos que eu lavo ele não vê”

Por Marisa Loures

17/07/2018 às 07h25 - Atualizada 17/07/2018 às 07h27

Selecionada pela Quintal Edições, a juiz-forana lança “Os pratos que eu lavo ele não vê” dentro da coleção Yebá, cujo propósito é destacar o papel da mulher enquanto geradora – Foto Divulgação

A escritora foi selecionada pela Quintal Edições a partir de uma chamada aberta para trabalhos de autoras mulheres. Sua obra passa a integrar a coleção Yebá, cujo propósito é destacar o papel da mulher enquanto geradora. Seus contos dão voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas. O título? “Os pratos que eu lavo ele não vê”. Inquieta e curiosa, a jornalista se sente intimada a perguntar: “É importante se dizer autora mulher dentro do campo literário brasileiro atual?” Amanda Machado não vacila. É firme. Responde com a certeza do lugar que ocupa.

“Muito. Acho fundamental. Porque demarca uma posição, um lugar específico de onde falo. Autora mulher e de origem periférica que também faz literatura. Porque acredito que contribui para a representatividade, quem sabe possa inspirar outras mulheres de periferia a ler autoras mulheres, encorajá-las a escreverem e não se envergonharem de expor, publicar, ter seus trabalhos lidos. Assim como acho importante dizer autora mulher negra, autora mulher lésbica. Dá visibilidade, proporciona a identificação de alguém que não se vê representada quando só tem acesso, ou em um número muito superior, aos livros escritos por homens”, dispara ela, inconformada com as disparidades.

“Eles são mais lidos, vendidos, premiados e, por isso também, mais valorizados. Reconhecer-me como autora mulher, no Brasil, um país com uma cultura machista muito arraigada, ainda, é uma tomada de posição; é uma possibilidade de agradecer a todas que me abriram o caminho e convidar tantas outras que virão”, sentencia a autora, que se colocou entre os escritores publicados com seu livro de estreia “Centopeia de mil pés errados”,  nascido em 2016. Também está entre os cronistas do livro “As cidades e os desejos” (Editora Aliás) e é lida por quem acompanha suas postagens do blog Pareço Louca?!.

Amanda é Juiz-forana e lança “Os pratos que eu lavo ele não vê” na próxima quinta-feira, no Breu. A obra vai estar disponível no site da  Quintal Edições (http://loja.quintaledicoes.com.br). Já “Centopeia de mil pés errados” pode ser adquirido em www.confrariadovento.com. “Se para Giorgio Agamben, contemporâneo é aquele que mantém o olhar fixo no seu tempo a fim de nele encontrar não apenas luzes, porém escuridão, a escrita de Amanda Machado é contemporânea na medida em que nos incita a questionar as luzes-certezas da vida, convidando-nos à escuridão labiríntica da dúvida: ‘vida é improviso’. Sua prosa amorosa é assim tecida para todos os gostos, casos, gêneros, absolvições; soluções ou dissoluções, a depender do olhar de quem a lê”, garante-nos, na orelha da nova publicação, a doutoranda em Estudos de Linguagem Amanda Lopes de Freitas.

“Gostaria que o “Os pratos que eu lavo ele não vê”, em alguma medida, libertasse o leitor, o afetasse e apontasse que podemos ser diferentes. Se algum dos contos proporcionar isso, ainda que a um só leitor, será uma realização imensa.”

Marisa Loures – Na orelha do livro, Amanda Lopes de Freitas diz que nós, leitores, nos convertemos também em personagens dos seus textos “como se nos lessem, discretamente, qualquer canto escondido de alma, nossas fragilidades e pequenas coragens.” O que você espera despertar nos leitores de “Os pratos que eu lavo ele não vê”?

Amanda Machado – Susan Sontag, escritora estadunidense, disse que “aquilo que os escritores fazem deveria nos libertar, nos sacudir. Abrir avenidas de compaixão e interesses novos. Lembrar-nos que podemos, simplesmente podemos, aspirar a ser diferentes, e melhores, do que somos. Lembrar-nos que podemos mudar”. Acho que é uma aspiração belíssima e muito potente, gostaria que o “Os pratos que eu lavo ele não vê”, em alguma medida, libertasse o leitor, o afetasse e apontasse que podemos ser diferentes. Se algum dos contos proporcionar isso, ainda que a um só leitor, será uma realização imensa.

– Jorge Luis Borges procura uma palavra. Garcia Márquez fixa sua atenção em alguma imagem antes de iniciar um conto. Como surge o conto na sua mente? 

– Sou muito ligada às imagens, gosto muito das Artes visuais: Cinema, Fotografia e Artes Plásticas. Elas abastecem os meus contos, alimentam as cenas e me inspiram profundamente. Mas foi a palavra que possibilitou a minha visita a outros mundos. Primeiro através da oralidade, antes de ser alfabetizada, porque sempre gostei de ouvir histórias de ficção ou verossimilhantes, diálogos entre desconhecidos; o que me chama a atenção, muitas vezes, é o estilo de contar uma história, mais até do que o próprio enredo. Gosto da multiplicidade das vozes e dos estilos particulares de narrativas. Então é a palavra que cria o meu mundo, nesse sentido, estou mais para Borges, que é inclusive um dos personagens do livro.

– Em seus contos, você dá voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas. A Amanda Freitas falou sobre uma linha tênue que separa o real e o ficcional na sua prosa. Com qual das mulheres retratadas em seus escritos você mais se identifica? E por quê?

Com todas, absolutamente. São diversas, mas com alguma angústia similar, um olhar para vida compartilhado. Porque elas estão atravessadas pelas dúvidas, pressões, anseios e desejos que, em alguma medida, também são meus. Elas amam, se divertem, sofrem, se recuperam ou não, mas, sobretudo, sentem-se convocadas a experimentar a vida. E acho que isso é muito próximo da minha existência, aceitar aos chamamentos e lidar com as consequências de cada um, sem saber o que virá.

“O termo literatura feminina é um incômodo na medida em que delimita, foi utilizada para acentuar uma exceção à outra literatura, porque a oficial, era (e ainda é) a masculina. Literatura feminina, a meu ver, é uma subcategoria. Homens e mulheres que escrevem e que são absorvidos pelo trabalho com as palavras fazem literatura e isto deveria ser tudo.”

– Por falar em dar voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas, há quem se incomode com o termo literatura feminina. Você classificaria sua nova obra assim?

Não. Classificaria como literatura cuja autora é mulher. O termo literatura feminina é um incômodo na medida em que delimita, foi utilizada para acentuar uma exceção à outra literatura, porque a oficial, era (e ainda é) a masculina. Literatura feminina, a meu ver, é uma subcategoria. Homens e mulheres que escrevem e que são absorvidos pelo trabalho com as palavras fazem literatura e isto deveria ser tudo. É claro que o gênero no qual fui socializada e com o qual me identifico me limitou, não me permitiu uma série de experiências, me deu algumas outras e tantas outras eu tive que conquistar, o que possivelmente impacta nos meus olhares, escolhas e, finalmente, escrita. Assim como a minha classe social, origem regional e raça também influenciam. Mas, historicamente, dizer literatura feminina é pejorativo.

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– Seu livro foi selecionado pela Quintal Edições a partir de uma chamada aberta para trabalhos de autoras mulheres dos Estados de Minas Gerais, Rio e São Paulo, para integrar a coleção Yebá, que tem como propósito destacar o papel da mulher enquanto geradora. Por falar nas mulheres, quais são as autoras que você lê e por que eles devem ser lidas?

Sim, a Quintal Edições, com a coleção Yebá, pretende viabilizar os trabalhos de novas mulheres escritoras e dar visibilidade à autoria feminina. É um trabalho muito democrático. Desde que o meu livro foi selecionado até este momento, véspera do seu lançamento, foi um processo com muito diálogo e valorização de cada sugestão minha; tem sido transformadora a experiência. Sobre as autoras que fazem parte do meu repertório de leitura e grande impacto na minha vida cito a Hilda Hilst, autora brasileira de poesia, prosa e teatro, porque experimentou, foi corajosa e se entregou completa e despudoradamente (no sentido mais bonito) ao fazer literário e, por isso também, sofreu as consequências da sua escolha, inclusive as dificuldades materiais mais básicas. Sua obra é passional e muito sedutora. A Carolina Maria de Jesus, escritora mineira, cujos versos falam da sua vivência não só apartada dos cânones e estudos literários, já que ela estudou somente os primeiros anos do ensino fundamental, mas colocam luzes reais, a partir da sua própria vivência de mulher negra, mãe solteira, moradora de favela, sobre as desigualdades sociais gritantes do país. Clarice Lispector, escritora brasileira, porque é a primeira autora com que tive contato com o maior número de obras, já no início da minha adolescência, e me apresentou ao meu próprio mundo, foi ela quem ampliou as minhas perspectivas sobre a experiência de estar no mundo e a possibilidade de amar o desconhecido (amor clariceano de espanto, surpresa e ternura) a partir do cotidiano. Outra autora que recomendo é a Virginia Woolf, escritora inglesa, que viveu da literatura como escritora, ensaísta e editora em uma época ainda mais limitadora às mulheres. Produziu ensaios feministas importantíssimos que revelavam as dificuldades das mulheres, mesmo se não tivessem nenhum impedimento de outros (pai, marido ou irmãos) de produzirem para além dos seus lares. É dela, por exemplo, a defesa de que a mulher era desafiada constantemente, se não quisesse se limitar às paredes de sua casa, a “matar o anjo do lar”, figura dócil, cativa e obediente, presa aos ofícios domésticos. As personagens dos seus romances são muito ricas e complexas, mas aprisionadas à máscara de superficialidade e às convenções exigidas pelo papel feminino da época. E, finalmente, recomendo Cora Coralina, porque é uma autora cuja poesia é atravessada pelo seu trabalho de mulher que nasceu no interior do Brasil, alguém que lutou muito pela própria sobrevivência e que, ainda assim, honrou verdadeiramente a menina sonhadora que a acompanhou sempre; sua poesia é muito forte e também doce.

“Acho que o olhar não pode estar acostumado. Eu me reconheço no ordinário do mundo, gosto e por isso tento ver o quanto posso dele. Tudo é passível de inquietação, dúvida e descoberta. Buscar perspectivas diversas é algo para além de um exercício de escrita, é de vida mesmo.”

– Segundo seu blog, no seu primeiro livro, “Centopéia de mil pés errados”, as crônicas perpassam o universo cotidiano, aparentemente simples, atravessado pela subjetividade do olhar da narradora que se transmuta em narradora-personagem, observadora ou narradora-onisciente. Como é trabalhar com as coisas do cotidiano, desse tempo ordinário, do que se repete regularmente, mas, ao mesmo tempo, tem algo de surpreendente quando mudamos nosso ângulo de visão? Você exercita esse olhar sob novos ângulos para encontrar suas histórias e seus personagens?

Sim, há sempre surpresas, o tempo todo. Mas acho que o olhar não pode estar acostumado. Eu me reconheço no ordinário do mundo, gosto e por isso tento ver o quanto posso dele. Tudo é passível de inquietação, dúvida e descoberta. Buscar perspectivas diversas é algo para além de um exercício de escrita, é de vida mesmo. Pensar que nada é só uma coisa finita, mas há camadas, histórias, sentimentos que não conhecemos. Acho que a minha experiência como leitora de livros me levou a querer ler o mundo. Querer saber o que se passa para além de mim; diariamente. Assim, os personagens e as histórias são abundantes, posso ser inclusive um deles, vários deles ou somente olhá-los.

Sala de Leitura

Quinta-feira, às 9h40, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010)

Autora: Amanda Machado

Editora: Quintal

Lançamento: 19 de julho, às 19h, no Breu (Rua Pedro Botti 11 – Alto dos Passos).

Trecho do conto “Os pratos que eu lavo ele não vê”

Amanda Machado

“Ele olha e é terno. É mesmo confortável ser olhada com
gentileza e desejo.
Mas, então, a voz interna interroga:
– Até onde alcança esse olhar? Porque ela lava pratos e
ele desconhece, nada com peixes e ele nunca viu, joga búzios
e lê cartas às vezes, mas ele ignora. Quantas partes desapercebidas
dela terão escapado aos olhos desse homem? E quantas
ela gostaria que ele enxergasse?
Às vezes queria que ele não visse nada, não escolhesse
este ou aquele ângulo. Talvez, se fosse guiado só pela voz dela,
os instantes negados chegariam. Mas, por mais que ela ofereça
os pratos, os peixes, os búzios e as cartas, ele não vê, não
pode, não consegue, não quer. E ela se sente mais ou menos
consolada pelos olhos gentis e cheios de desejo, espera um
futuro em que ele veja as suas outras partes. Não virá, não
terá. Não em tempo. Se vier, já será tarde e a encontrará em
sono profundo.”

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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