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Cidinha da Silva: “Sou uma escritora que tem posição política sobre as coisas e sobre o mundo”

Por Marisa Loures

14/05/2019 às 11h20 - Atualizada 17/05/2019 às 06h15

Autora de obras fundamentais para o pensamento sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil, Cidinha da Silva conversa com alunos da Faculdade de Letras da UFJF e ministra palestra aberta ao público – Foto Divulgação

Cidinha da Silva é mineira. Prosadora, editora e dramaturga. Deixou Belo Horizonte há algum tempo, mas mantêm vivas as marcas de Minas Gerais em seus trabalhos. Aliás, “Um Exu em Nova York” (Pallas, 80 páginas), obra sobre a qual ela conversa com os alunos da Faculdade de Letras da UfJF no próximo “Encontros com a literatura”, programado para 22 de abril, é o seu livro mais mineiro, segundo ela.

“A mineiridade é intrínseca, não faço qualquer esforço para não perdê-la, me sinto muito mineira, e isso está refletido no meu trabalho. Mineiridade, a propósito, é quase um sentimento, a gente sabe o que é, onde se localiza dentro da gente, mas não sabe explicar ou não tem necessidade de fazê-lo. A gente fala dela, vivencia sua presença como a de uma velha conhecida e, de fato, ela é muito velha e muito conhecida. Minas vive em mim, definiu quem sou (para o bem e para o mal) e esse estado de espírito povoa minha literatura, povoa mesmo, cria tipos humanos que são muito mineiros. Eu tenho um espírito minerador, vivo com a bateia nas mãos dispensando cascalho e procurando diamantes, refiro-me a meu processo criativo”, conta a autora que, ainda no dia 22, a partir das 19h, no anfiteatro da Faculdade de Letras da UFJF, ministra a palestra “Africanidades na obra de Cidinha da Silva”. O evento é promovido pelo grupo de pesquisa Afrikas, do Departamento de História da instituição, e é aberto ao público em geral.

Fortemente engajada com a causa negra e com questões ligadas às relações de gênero, Cidinha presidiu o Geledés – Instituto da Mulher Negra – uma organização política brasileira de mulheres negras contra o racismo e sexismo – entre os anos 2000 e 2002. Também fundou o Kuanza –  instituto que promove ações de educação, ações afirmativas e articulação comunitária para a população negra – e foi gestora de cultura na Fundação Cultural Palmares. A estreia na literatura afro-brasileira se deu em 2006, com “Cada tridente em seu lugar”. A obra aborda as ações que visam garantir o acesso e a permanência do negro nas universidades. Desde então, já publicou 15 livros autorais, entre os quais “Os noves pentes d’África (2009), “# Parem de nos matar!”(2016), “Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras” (2003) e “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil” (2014). Estes dois últimos são considerados fundamentais para o pensamento sobre as relações raciais contemporâneas aqui no país.

Em “Um Exu em Nova York”, seu primeiro livro de contos, ela “apresenta uma perspectiva contemporânea e ficcional do cotidiano sobre temas como política, crise ética, racismo religioso, perda generalizada de direitos (principalmente por parte das mulheres), negros e grupos LGBT.” Lançada há sete meses, a publicação teve a primeira tiragem esgotada, e a primeira reimpressão está saindo da gráfica com 2.000 exemplares. “Eu tinha vários contos escritos, guardados, que não tinham uma unidade como livro. Quando escrevi o conto ‘I have shoes for you’, que a princípio se chamava ‘Um Exu em Nova York’, encontrei ali o fio condutor das demais narrativas. Eu queria um livro de contos que tratasse de africanidades e orixalidade por meio de tensões e diálogos entre tradições (africanas, afro-brasileiras, afro-indígenas) e contemporaneidade. Decidi também conjugar o verbo-neologismo exuzilhar, criado por mim em 2010, de diferentes modos no curso do meu rio de contos.”

Marisa Loures – Qual a importância de Nova york para as suas histórias?

Cidinha da Silva – Há dois contos do livro ambientados em Nova York, “I have shoes for you” e “Farrina”. O livro é composto por 19 contos, 17 se passam em diferentes lugares do Brasil, a maioria deles sem definição geográfica precisa. A importância singular de Nova York no livro, cidade também conhecida como “encruzilhada do mundo”, talvez repouse no lugar de capital pop ou pós-moderna simbolizado por ela na diáspora africana.

– No prefácio da publicação, Wanderson Flor do Nascimento nos diz que o Exu é um andarilho, um mensageiro. “Senhor das contradições e dos caminhos, Exu anda com as palavras, anda nas palavras, anda pelas palavras, anda as palavras. Por viver (n)as palavras, como vive (n)as encruzilhadas, (n)os caminhos, Exu as tem como ferramentas para fazer mundos, encontros, memórias”. Baseada nas palavras dele e depois de ler seus escritos, acredito que essa entidade ligada aos ritos das religiões afro-brasileiras é um ser que está presente o tempo todo nos seus contos, como se ele fosse o responsável por ligar todas as histórias…

Sim, você leu corretamente, é o exercício de exuzilhar que apresentei acima. Exu e seus saberes, seus modos movimentar o mundo, são o dínamo deste Exu em Nova York.

– Na orelha do livro, a professora e escritora Natália Borges diz que sente “um profundo respeito” por aquilo que desconhece e assim admira.  Posso fazer uso das palavras dela, porque, ao percorrer as páginas da publicação, me vi diante do desconhecido e gostei muito do que descobri. Acredito que, desde o lançamento de “Um exu em Nova York”, ouros leitores estejam passando pela mesma experiência que eu. Como tem sido a receptividade da obra?

A receptividade é muito boa, em sete meses esgotamos a primeira tiragem de 1.500 exemplares e a primeira reimpressão está saindo da gráfica com 2.000 exemplares. O livro está sendo muito lido e comentado, isso é ótimo. Tem uma coisa interessante e até engraçada que é o fato de muita gente achar que se trata de um “livro de religião” e por isso se sente tentada a demonstrar seus conhecimentos no campo e isso faz com que surjam afirmações hilárias, às vezes. Certa feita, uma moça insistia em falar sobre supostas folhas que todos os terreiros colocariam no chão das casas de religiões de matrizes africanas, de Umbanda, mais especificamente. Ela não se lembrava do nome, mas tinha certeza de que eu sabia. Eu não sabia, nem sei de nada e ela queria me forçar a saber, baseada numa lembrança vaga e esmaecida de algo vivido na própria infância. Me divirto bastante.

– Já li uma entrevista em que você diz que sua “alfabetização digital é quase nula.” Nos dias de hoje, a internet é quase que uma das principais pontes entre o escritor e o leitor. Como divulga sua obra? Como coloca sua literatura na rua?

Uso a internet basicamente para divulgação de livros e eventos literários, além da expressão de posições políticas. Agora tenho também uma loja virtual, cujo endereço é https://www.kuanzaproducoes.com.br/um-exu-em-nova-york que possibilita a chegada dos meus livros às pessoas interessadas em todos os quadrantes do Brasil. Coloco minha literatura na rua de maneira presencial, a maior parte do tempo, nos festivais literários dos quais participo, oficinas, cursos, palestras, seminários, clubes de leitura e também nos eventos literários que organizo.

“Eu sou uma mulher negra num país racista, algo definidor de quem sou, posto isso, tenho liberdade criativa irrestrita e me apresento como escritora, não tenho a necessidade de usar as categorias mulher e negra para definir  pertencimento em minha minibiografia.”

– Você presidiu o Geledés – Instituto da Mulher Negra, que é uma organização política brasileira de mulheres negras contra o racismo e o sexismo, entre os anos 2000 e 2002. Diante da forte discriminação ainda presente na nossa sociedade, é importante se dizer autora negra e mulher dentro do campo literário brasileiro atual?

Eu sou uma mulher negra num país racista, algo definidor de quem sou, posto isso, tenho liberdade criativa irrestrita e me apresento como escritora, não tenho a necessidade de usar as categorias mulher e negra para definir  pertencimento em minha minibiografia, entende? Eu sei e todo mundo sabe que sou uma mulher negra, a vida não me deu chance de não saber, tampouco de ser alguém diferente, esse pertencimento sempre me foi imposto. Afirmar e reafirmar isso, para mim, é redundância desnecessária.

– E Cidinha da Silva é uma escritora negra politicamente bem posicionada. Como analisa a relação entre arte e política, Literatura e política?

Sou negra, isso precede qualquer coisa. Sou uma escritora que tem posição política sobre as coisas e sobre o mundo. Toda arte é política, toda a literatura também, mesmo aquelas que advogam pela neutralidade da estética.

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– Você é considerada um dos grandes nomes do ativismo negro do Brasil. Quais outros representantes da literatura negra são referências para a sua escrita e que você indicaria para os leitores?

Não me considero um “grande nome do ativismo negro”, aspiro conquistar alguma importância no campo literário amplo. Quanto às referências, prefiro falar em autorias negras, me deixa mais confortável e amplia meu campo de sugestões, haja vista também que vários autores e autoras negros importantes para mim não se filiam à literatura negra e tem também as escritoras africanas. Citarei apenas alguns nomes e os justificarei, mas tenho muitos outros. Edimilson de Almeida Pereira. Um alumbramento, o primeiro escritor negro que conheci e tirou meus pés do chão com sua poesia. Leda Maria Martins. A escritora mais refinada que conheci. Eu tinha um sonho-meta quando jovem: se um dia conseguisse escrever dois ou três parágrafos de refinamento aproximado ao de Leda Maria Martins, poderia morrer feliz. Elisa Lucinda é a primeira poeta negra que me arrebatou, eu a conheci declamando, antes de ter livro gráfico publicado e depois acompanhei com muita alegria sua carreira vitoriosa e profícua. Ana Maria Gonçalves é nossa maior escritora viva, num país que tem vivas também, as escritoras Nélida Pinõn e Lígia Fagundes Telles. Tatiana Nascimento. Balzaquiana poeta brasiliense, é a poesia que mais me toca na atualidade.  Paulina Chiziane é a grande narradora, aquela que conta uma história como ninguém. Léonora Miano. Esta escritora de Camarões é uma descoberta recente que tem mexido muito comigo. Primeiro li “Contornos do dia que vem vindo” e agora estou lendo “A estação das sombras”. Ambos são livros desestabilizadores. Lesley Nneka Arimah. Escritora de origem nigeriana. “O que acontece quando um homem cai do céu” é seu livro de contos publicado no Brasil. É uma escritora que me ensina a escrever, alguém cuja técnica eu persigo e estudo.

“Um Exu em Nova York”

Autora: Cidinha da Silva

Editora: Pallas, 80 páginas.

Encontros com a Literatura

Conversa com alunos da faculdade de Letras da UFJF. 22 de abril, às 16h, no anfiteatro da Faculdade de Letras da UFJF.

Palestra “Africanidades na obra de Cidinha da Silva”

22 de abril, às 19h, no anfiteatro da Faculdade de Letras da UFJF. Evento aberto ao público.

 

Trecho de “I have shoes for you”, conto de “Um Exu em Nova York”

Ela surgiu de surpresa, como eles costumam vir ao meu mundo. Estacou a meio metro, de cabeça baixa, fechada em roupas pretas de modo que primeiro só vi aquela cabeleira lisa. Depois, considerei que pudesse ser peruca. Os ombros arqueados, os braços finos e as mãos que, quando estendidas, notei serem pequenas e enluvadas, escondidas no casaco, um pouco mais old fashion que o meu. 

A mulher levantou a cabeça devagar. Cruzei com seus olhos em brasa. Fitei os dentes, eram bem separados entre si. A arcada superior, principalmente, pelo menos meio centímetro entre um dente e outro, reparei quando ela perguntou com voz muito doce se eu tinha algum trocado. Sorri para ela. Entreguei as moedas.

Quando olhou para meus pés, depois de agradecer, disse: eu tenho sapatos para você. Eu não tinha certeza de ter ouvido a frase e perguntei: O quê? Eu tenho sapatos para você. Ela repetiu com a voz doce que eu já contei que ela tinha. Mensagem entendida, agradeci e assegurei que estava bem com meus sapatos, não precisava de outros, não. Ela riu com aqueles olhos vermelhos. Seguiu seu caminho e eu percebi um andar torto, sapatos grossos e pés que pareciam carregar o dobro de seus setenta quilos.”

 

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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