Há algumas semanas estive em uma daquelas festinhas escolares que celebram e marcam o fim do ano letivo. Aqui na Inglaterra, o ano começa em setembro e termina em julho. As férias de verão, agosto afora.
Houve algo diferente na festa de 2022. Era o último ano que um filho meu cursava a escola primária. Minha filha e meu filho passaram, no total, quase dez anos numa escola pública onde eu fiz amigos e até uma inimiga, uma espanhola da Galícia, de quem eu, na verdade, gosto bastante (que ela não me ouça!). Um lugar onde eles também fizeram amigos e, vá lá, talvez uma ou duas amizades que não deram muito certo.
O percurso da escola primária aqui é tão curioso quanto estranho pra mim. Em Guarani, sem qualquer preparo ou pompa, lá estávamos dentro de uma sala de aula. Mas é engraçado que me lembro tão bem da minha foto de primeiro dia de aula. Eu tinha seis anos, estava na casa da minha amiga esperando para que caminhássemos juntas – e caminhamos até o segundo grau. Eu vestia uma saia laranja, cor da terra da beira do Pomba, exatamente, e uma blusa de lamê, tão brilhante quanto as meias da novela “Dancing Days” que eu usava com sandálias Melissa. Os cabelos presos por fitas azuis. Na boca, faltava o dente da frente, mas o sorriso estava inteiro, sem quebrar. Quando olho as imagens dos meus filhos nos seus primeiros dias de aula, me revejo. Identifico neles aquele olhar curioso, mas ainda a ser preenchido. Uma expectativa, uma disponibilidade e um entusiasmo ainda que ansiosos. Mas é nítida a lacuna. A experiência ainda do porvir, as amizades, as brigas, os reencontros, as frustrações, os esquecimentos, os machucados, as provas, as notas, os professores, um livro, um dia, os amigos inesquecíveis. E, lentamente, como conta-gotas, a cada dia, um pouco desse vazio vai sendo colorido no papel branco. As linhas ganham contornos que, por vezes, só farão sentido quando dermos três passos pra trás pra vermos de longe o desenho criado. Mas lá está a vida feita nesse período do primário. Os pais também são esses sujeitos apressados em aprender, em pertencer, metem os pés pelas mãos, aprendem e desaprendem um monte de coisas tentando acertar. Quantas vezes meus filhos seguraram firme a minha mão a caminho do portão da escola, certos da minha solidez, quando era eu, perdida, levada por eles. Como quando, no meio da noite, ouvimos um barulho e o filho procura, através dos nossos olhos firmes, conforto e segurança, e nós o convencemos de que tudo está bem e é só um gato revirando o lixo, quando, de fato, estamos nós a tremer de medo por dentro do peito e por baixo da pele. Crianças que somos.
Quando cheguei à escola para a última apresentação, possivelmente a última vez que atravesso o portão de grade azul, onde um sol pintado no painel me assegura de que toda luz tem espaço para brilhar, me engasgo. Revejo na minha cabeça aquele menino de olhos curiosos, claros, mas ainda a serem preenchidos, no primeiro dia de aula. Olho ele lá, agora, no palco do salão, se apresentando com os colegas. Cabelos compridos, fala clara em voz firme, uma identidade em construção, uns olhos que já não são mais vazios. Quando termina a peça, vou abraçá-lo. Nos seus olhos há espaço para muito mais, que isso foi só o começo. São os meus que estão inteiramente ocupados, emocionados. Ele, num abraço, me diz que tudo está bem. Que aquilo era só uma peça malfeita pra cumprir o calendário. Crianças que somos.
Estarei de férias até setembro. Até lá e obrigada pela leitura.
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