Mulher de 64 anos perdeu o marido após 26 anos de casamento e ficou sem saber como seguir a vida, mas decidiu enfrentar as montanhas para se reencontrar e acabou chegando ao topo do Everest aos 63 anos
Aos 63 anos, Eva Steinwald se tornou a norte-americana mais velha a chegar ao topo do Monte Everest.

Eva Steinwald se tornou, aos 63 anos, a norte-americana mais velha a chegar ao topo do Monte Everest. Aos 64, ela contou como reconstruiu a própria identidade depois de perder o marido, Pat, com quem foi casada por 26 anos.
A viuvez, em 2018, a deixou diante de uma pergunta que nunca imaginou precisar responder: quem ela era sem ele. Foi nas montanhas que a moradora de Idaho, nascida na Alemanha, encontrou um caminho de volta a si mesma. Hoje ela carrega um título raro: tornou-se a norte-americana mais velha a chegar ao topo do Monte Everest, aos 63 anos.
Dona de uma escola de karatê e corretora de imóveis, Steinwald já conquistou cinco das sete montanhas mais altas de cada continente. Ela chamou a meta de “7 Summits x 70” e pretende completar o desafio até os 70 anos.

A dor que virou ponto de partida
Steinwald afirmou que a morte de Pat, em 2018, mostrou a ela como a vida é curta e deve ser tratada como um presente. A pergunta sobre quem seria sem o marido permaneceu em sua cabeça e impulsionou uma busca por recomeço.
Segundo ela, o desejo não era apenas superar a perda, mas sentir a vida de novo, provar e sentir que estava viva. As montanhas entraram nessa jornada como um espaço de descoberta. Passo a passo, ela encontrou força e possibilidades que não imaginava ter.
Um casamento marcado por gestos simples
O encontro com Pat aconteceu em um encontro às cegas organizado por amigos em comum. Não houve faísca imediata, mas um detalhe chamou a atenção dela: antes de convidá-la para sair, ele pediu permissão ao amigo que os apresentou.
Esse gesto, que ela considerou antiquado, teve grande peso: pequenas atitudes fazem diferença. O casal se casou em 20 de maio de 1993, em uma cerimônia pequena, com a presença apenas dos pais de Steinwald. Eles não tiveram filhos e mantiveram, ao longo da união, espaços de independência individual ao lado da vida construída juntos.
Ela descreve Pat como alguém que sempre a incentivou e acreditou nela, mas que também era sincero quando algum plano parecia fora da realidade. Olhando para trás, reconhece o quanto ele a ajudou a crescer trabalhando nos bastidores, sem aparecer.
Da dor ao desafio das grandes montanhas
Ao processar o luto, a instrutora de karatê passou a exigir mais do próprio corpo, o que deu novo rumo à sua rotina. Com o tempo, esse caminho a levou a enfrentar algumas das montanhas mais altas do planeta.
A primeira tentativa no Denali, em junho de 2023, terminou sem o cume: o mau tempo obrigou a equipe a recuar. Ela conta que, naquele momento, foi difícil entender como alguém pode se sentir preparado e ainda assim não alcançar o topo, lição que resumiu numa frase: a montanha sempre decide.
Um ano depois, ela voltou ao Denali e completou a subida, alcançando mais de 20 mil pés de altitude. Antes disso, em janeiro de 2024, havia encarado o Aconcágua, na Argentina, escalada que quase não terminou após uma queda durante o trajeto.

O mantra que nasceu de uma queda
A experiência no Aconcágua deu origem a uma frase que ela repete dentro e fora das trilhas: “Não consigo. Preciso. Consegui.” Para Steinwald, o primeiro estágio é a crença limitante que pode travar qualquer pessoa, enquanto o segundo representa a decisão de se comprometer e colocar o trabalho em prática. O terceiro resume o resultado: a vida moldada por essa escolha.
Foi com essa lógica que ela chegou ao maior desafio da carreira, em maio de 2025, quando encarou o Monte Everest. Steinwald passou um ano se preparando com um treinador de altitude e um preparador físico da StretchLab. Mas disse que nenhum treino a prepararia por completo para a tensão mental de passar seis semanas em um ambiente tão extremo.
Segundo ela, passava horas sozinha dentro da barraca e, mesmo quando escalava em grupo, frequentemente ficava sozinha com os próprios pensamentos. Durante a subida para o cume, repetia para si mesma uma frase simples que a mantinha focada: “Um respiro. Um passo. Apenas não pare.”
Ao chegar ao topo do Everest, aos 63 anos, ela se tornou a mulher americana mais velha a alcançar aquele cume e bateu um recorde de 18 anos. Seu próprio recorde, porém, foi superado pouco depois, e para ela, o sentimento foi surreal, uma experiência de liberdade.

O que Steinwald queria dizer com “a montanha sempre decide”?
Eva aprendeu essa lição na primeira tentativa no Denali, em 2023, quando se sentiu preparada, mas o mau tempo obrigou sua equipe a desistir do cume. A frase resume uma verdade incômoda: preparação mental e física não garantem o resultado.
Fatores externos, clima, condições do terreno e circunstâncias imprevistas, têm a última palavra, por mais que alguém tenha treinado ou acreditado que conseguiria. Para ela, essa aceitação foi libertadora, e tirou a cobrança por um resultado perfeito e colocou o foco no compromisso com a tentativa e com o aprendizado no caminho.
O papel silencioso de Pat na reconstrução de Eva
Pat não apenas foi importante durante o casamento, e ele também continua presente na forma como Eva compreende a si mesma. Ela descreve o marido como alguém que “ajudou a crescer trabalhando nos bastidores, sem aparecer”. A capacidade que hoje usa para enfrentar montanhas foi desenvolvida, em parte, durante os 26 anos de casamento.
A reconstrução da identidade após a morte não apagou a vida anterior. Eva levou consigo as ferramentas que Pat ajudou a construir e passou a aplicá-las em outro contexto. Assim, a pergunta deixou de ser apenas “quem sou sem Pat?” e passou a incluir “quem posso ser com tudo aquilo que aprendi com Pat?”.









