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Algo está acontecendo a milhares de quilômetros abaixo dos nossos pés e cientistas descobriram que esse fenômeno dentro da Terra pode fazer os dias ficarem mais longos ou mais curtos

Cientistas descobriram que a gravidade do núcleo interno terrestre provoca essas variações ao produzir um torque que acelera ou freia o manto rochoso.


Por Bernardo Teixeira

03/10/2026 às 21h34

Algo está acontecendo a milhares de quilômetros abaixo dos nossos pés e cientistas descobriram que esse fenômeno dentro da Terra pode fazer os dias ficarem mais longos ou mais curtos
Foto: Zelch Csaba/Pexels

A rotação da Terra não é tão uniforme quanto parece: físicos da Universidade de Alberta descobriram que o núcleo interno do planeta exerce um puxão gravitacional sobre o manto capaz de alterar a duração dos dias em frações de milissegundo.

A pesquisa de Huifeng Zhang e Mathieu Dumberry, divulgada em 23 de setembro na revista Nature, explica por que essas variações ocorrem. Embora imperceptíveis no dia a dia, elas afetam sistemas de telecomunicações, energia e computação que dependem de uma sincronização precisa do tempo.

Um pôr do sol espetacular com a silhueta da cidade recortada e nuvens vibrantes.
Foto: Kris Møklebust/Pexels

As múltiplas formas como a Terra oscila

O planeta gira em ritmos distintos conforme a escala temporal. As marés causam variações diárias na rotação, enquanto os ventos atmosféricos produzem oscilações sazonais. Há também um efeito de longo prazo: o atrito causado pela Lua estica gradualmente a duração do dia ao longo de milhões de anos.

Além desses ciclos conhecidos, cientistas identificaram flutuações de alguns milissegundos que se repetem em intervalos de 10 a 70 anos, o foco desta pesquisa. Essas oscilações longas originam-se da troca de movimento entre o núcleo e o manto rochoso, camada de cerca de 3.000 quilômetros que inclui a crosta.

Quando o núcleo externo líquido acelera durante algumas décadas, o manto reage e desacelera, e o contrário também acontece. Assim, o chamado momento angular total do planeta permanece constante.

Trilhas de estrelas vívidas sobre um lago tranquilo com árvores refletindo na água, capturadas em uma foto em time-lapse.
Foto: Alexey Chudin/Pexels

Como a gravidade do núcleo controla o ritmo terrestre

A questão era como essa energia passava de uma camada a outra. Ao longo de décadas, nenhuma hipótese sobre efeitos eletromagnéticos e o relevo irregular na fronteira entre núcleo e manto conseguiu reproduzir completamente os padrões observados.

A resposta está na geometria do núcleo interno: uma esfera sólida de 1.221 quilômetros de raio cuja superfície possui leves irregularidades. Regiões do manto com maior concentração de massa tendem a corresponder ao alinhamento dessas saliências.

Quando o núcleo interno gira para fora desse alinhamento, a gravidade produz um torque, uma força de giro, que acelera ou freia o manto.

Dados confirmam a hipótese do puxão gravitacional

Zhang e Dumberry analisaram dois conjuntos de dados independentes para validar sua teoria. Um estudo de 2023 sobre ondas sísmicas revelou que o núcleo interno oscila a cada 70 anos, invertendo sentido por volta de 2010.

O segundo utilizou modelos do fluxo do núcleo líquido derivados de variações no campo magnético terrestre. Ao estudar o período entre 1964 e 2019, os pesquisadores encontraram uma correspondência forte entre o torque gravitacional calculado e as variações reais observadas na duração do dia. O modelo reproduzia tanto a intensidade quanto o momento das mudanças.

Em contraste, as previsões baseadas em efeitos eletromagnéticos e atrito na fronteira entre núcleo e manto seguiam direção praticamente oposta à das mudanças registradas. Na interpretação dos autores, essas forças funcionam como freio, resistem ao puxão gravitacional e limitam as variações na duração do dia.

Imagem impressionante do planeta Terra vista do espaço, mostrando continentes e oceanos.
Foto: Zelch Csaba/Pexels

Por que esses milissegundos importam para o mundo

O Bureau Internacional de Pesos e Medidas mantém a sincronização global por meio do Tempo Universal Coordenado e alinha o relógio mundial à rotação terrestre. No passado, pequenos ajustes foram necessários para compensar os descompassos entre a física do planeta e nossos instrumentos de medição.

Um estudo anterior de Duncan Agnew, da Universidade da Califórnia em San Diego, alertou para mudanças inesperadas na rotação terrestre com projeções até 2029. A nova pesquisa reforça que compreender o comportamento do núcleo interno é essencial para prever ajustes no relógio global e manter sistemas críticos sincronizados.