Mais de 15 milhões de ostras serão jogadas no mar para reconstruir um ecossistema que praticamente desapareceu há mais de um século

De acordo com informações do The Guardian, mais de 15 milhões de ostras serão jogadas no mar no que deve ser um dos maiores projetos de repovoamento do sistema marinho no Reino Unido. A ideia é justamente reconstruir um ecossistema que praticamente desapareceu em um período superior a um século.
A iniciativa será realizada nas proximidades de Orkney, arquipélago localizado ao norte da Escócia, no Mar do Norte. O projeto pretende estabelecer um novo banco de ostras com mais de 100 hectares, criando novamente um tipo de habitat que já ocupou grandes extensões do litoral britânico.
A expectativa dos especialistas é que a recuperação das ostras produza efeitos que vão muito além da própria espécie. Isso acontece porque esses animais funcionam como verdadeiros engenheiros do ecossistema marinho: quando se acumulam no fundo do oceano, suas conchas e estruturas formam recifes capazes de servir de abrigo e área de alimentação para diversos outros organismos.
Por que as ostras desapareceram?
As ostras nativas já tiveram uma presença muito maior nas águas britânicas. Durante séculos, elas foram utilizadas como uma importante fonte de alimento e chegaram a formar extensos recifes no fundo do mar.
A exploração aumentou de maneira significativa durante a Revolução Industrial. A procura pelo molusco cresceu tanto que, entre 1840 e 1850, estima-se que somente os moradores de Londres tenham consumido cerca de 700 milhões de ostras.
A retirada em grande escala provocou uma redução progressiva dos bancos naturais. O problema ainda foi agravado pela poluição, pela perda de habitat, pelas mudanças climáticas e pela retirada deliberada das estruturas de ostras para facilitar a navegação.
Com a diminuição desses recifes, não foi apenas a população de ostras que sofreu. O desaparecimento da estrutura física criada pelos animais também eliminou áreas utilizadas por outras espécies, contribuindo para uma degradação mais ampla do ambiente marinho. A Rewilding Britain estima que a população da ostra-plana-europeia tenha caído 95% nos últimos 250 anos.
O que acontece quando as ostras voltam?
A importância das ostras está relacionada ao modo como elas modificam o ambiente ao redor. Conforme vários indivíduos se acumulam, suas conchas podem formar estruturas tridimensionais no fundo do mar.
Esses recifes criam espaços onde peixes jovens conseguem se esconder de predadores e oferecem superfícies para outros organismos se estabelecerem. Anêmonas, mexilhões, algas, crustáceos e diferentes invertebrados podem passar a utilizar essas estruturas.
Além disso, as ostras ajudam a melhorar a qualidade da água. Um único animal adulto pode filtrar mais de 140 litros de água por dia, retirando partículas suspensas e nutrientes em excesso. Esse processo altera as condições da água e pode favorecer outros habitats, como pradarias de ervas marinhas.
Dessa forma, a recuperação da população pode desencadear uma reação em cadeia. Quanto maior o banco de ostras, maior tende a ser a quantidade de estruturas disponíveis para outras espécies, o que pode aumentar a biodiversidade da região.
É justamente esse efeito que os pesquisadores esperam obter em Orkney. O objetivo não é apenas colocar milhões de animais no oceano, mas criar condições para que eles se reproduzam e estabeleçam uma população capaz de continuar crescendo por conta própria.
Como as 15 milhões de ostras serão preparadas?
A estratégia utilizada no projeto envolve uma etapa de criação das ostras ainda em terra. Os animais jovens são cultivados sobre estruturas chamadas de “placas”, enriquecidas com carbonato de cálcio.
Depois que os moluscos atingem uma condição adequada, essas placas são levadas para o ambiente marinho. Elas são instaladas em linhas que permanecem posicionadas na água, uma técnica que ajuda a proteger os animais durante a fase inicial de desenvolvimento.
A intenção é permitir que as ostras cresçam até alcançar tamanho suficiente para enfrentar melhor os predadores e, posteriormente, formar o banco no fundo do mar.
O processo também resolve um dos principais obstáculos encontrados atualmente na recuperação da espécie. Como existem poucas ostras adultas em muitas regiões, a reprodução natural nem sempre consegue recuperar a população sem algum tipo de intervenção humana.
A pesquisadora Philine Zu Ermgassen, da Universidade de Edimburgo, explicou ao The Guardian que as técnicas de cultivo em criadouros estão evoluindo justamente para produzir uma quantidade suficiente de ostras provenientes de populações geneticamente adequadas aos locais de restauração.







