Cientistas viajam de helicóptero militar até montanha isolada de 1.700 metros para procurar animais que podem não existir em nenhum outro lugar

No extremo norte do Amazonas, uma região de difícil acesso passou a receber uma expedição científica que pode ajudar a revelar espécies ainda desconhecidas pela ciência. O destino é a Serra do Aracá, próxima à fronteira com a Venezuela, onde montanhas chegam a 1.700 metros de altitude e formam ambientes muito diferentes daqueles encontrados nas áreas mais baixas da floresta. As informações são do portal Diário do Litoral.
A incursão começou em 24 de agosto e reúne 16 pesquisadores brasileiros de diferentes áreas. O trabalho de campo tem duração prevista de três semanas e representa a terceira e última etapa de um projeto dedicado ao estudo da biodiversidade das regiões montanhosas da Amazônia brasileira.
Por que os pesquisadores escolheram essa montanha?
A Serra do Aracá chama atenção principalmente pela combinação entre altitude, isolamento geográfico e características ambientais. Seus pontos mais elevados ficam entre 1.300 e 1.700 metros e incluem formações conhecidas como tepuis, grandes platôs rochosos que apresentam condições ambientais distintas das áreas de floresta que os cercam.
Esse isolamento pode ter consequências importantes para a evolução das espécies. Quando populações ficam separadas geograficamente durante longos períodos, deixam de trocar genes com outros grupos da mesma espécie. Com o passar das gerações, essa separação pode contribuir para o surgimento de características próprias e, em alguns casos, de novas espécies.
É justamente esse processo que os cientistas querem investigar na Serra do Aracá. A expectativa não está apenas em encontrar animais ou plantas desconhecidos, mas também em entender como as populações que vivem nesses ambientes chegaram até ali e se modificaram ao longo do tempo.
Uma área que funciona como uma “ilha” no meio da Amazônia
Apesar de estar cercada pela maior floresta tropical do planeta, a parte elevada da Serra do Aracá apresenta uma dinâmica ecológica própria.
Os tepuis podem ser comparados, do ponto de vista evolutivo, a ilhas. O motivo é que os vales e a floresta ao redor dificultam a circulação de espécies entre diferentes áreas de altitude. Assim, populações que vivem no topo podem permanecer separadas durante períodos muito longos.
A origem desse isolamento está relacionada à própria formação geológica da região. Processos de erosão provocados pela água e pelo vento contribuíram para separar antigos blocos de terreno e formar os grandes desníveis encontrados atualmente.
Com isso, algumas espécies conseguiram permanecer restritas a determinados maciços. São os chamados animais e plantas endêmicos, que possuem distribuição geográfica limitada e podem não ser encontrados em nenhuma outra parte do mundo.
O que acontece depois da expedição?
O trabalho científico não termina quando os pesquisadores deixam a montanha. As amostras coletadas precisam ser analisadas em laboratório, enquanto registros de animais, plantas e características ambientais são organizados e comparados com informações já existentes.
No caso de uma possível espécie nova, também é necessário confirmar cientificamente que aquele organismo realmente apresenta características que o diferenciam de espécies já conhecidas.
Esse processo pode levar tempo porque envolve análises morfológicas, genéticas e comparações com coleções científicas. Portanto, encontrar um animal que pareça diferente durante a expedição não significa imediatamente que uma nova espécie tenha sido descoberta.
A etapa de campo, porém, é fundamental para produzir os dados que permitem essas conclusões posteriormente.









