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O mistério de uma imagem desfocada terminou com a descoberta de uma nova espécie

Imagem desfocada registrada no Congo levou cientistas à descoberta de uma nova espécie de macaco após quase 20 anos.


Por Leticia Florenco

17/07/2026 às 17h24

O mistério de uma imagem desfocada terminou com a descoberta de uma nova espécie

Uma fotografia desfocada feita em uma floresta remota da República Democrática do Congo, em 2008, transformou-se em uma das descobertas mais importantes da primatologia nas últimas décadas.

Após anos de expedições, análises morfológicas e estudos genéticos, pesquisadores confirmaram que o animal registrado pertence a uma espécie inédita de macaco africano.

Batizado oficialmente de Colobus congoensis, o primata conhecido localmente como Likweli passou a integrar a lista de espécies reconhecidas pela ciência e tornou-se apenas o quinto macaco africano descrito nos últimos 75 anos.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica PLOS One e reforçam a importância da conservação das florestas da Bacia do Congo, considerada uma das regiões com maior biodiversidade do planeta.

Fotografia borrada permaneceu sem explicação por anos

O primeiro encontro com o animal ocorreu durante uma expedição da Fundação de Pesquisa da Vida Selvagem de Lukuru, em uma área que atualmente faz parte do Parque Nacional de Lomami.

Na ocasião, os pesquisadores observaram um macaco diferente nas copas das árvores e conseguiram fazer apenas uma fotografia. A imagem, porém, ficou desfocada, impossibilitando a identificação do animal.

Sem evidências suficientes, o registro acabou sendo arquivado e permaneceu sem receber maior atenção durante vários anos.

A situação mudou mais de uma década depois, quando outra equipe de pesquisadores voltou a encontrar o mesmo primata e obteve fotografias de melhor qualidade.

As novas imagens mostravam um macaco de porte médio, pelagem escura e desgrenhada, além de uma marcante coloração alaranjada ao redor do nariz e da boca, características que não correspondiam a nenhuma espécie conhecida da região.

Expedições percorreram a floresta durante quatro anos

Entre 2018 e 2022, cientistas intensificaram as buscas pelo misterioso macaco.

As equipes percorreram diferentes áreas do Parque Nacional de Lomami e regiões vizinhas, observando as copas das árvores, registrando vocalizações e entrevistando moradores de comunidades locais.

Ao todo, habitantes de 52 aldeias participaram da pesquisa. Em apenas oito delas, o animal era conhecido. Entre o povo Balanga, o primata recebe o nome de Likweli.

Segundo os pesquisadores, a distribuição extremamente limitada da espécie ajuda a explicar por que ela permaneceu desconhecida por tanto tempo, inclusive para parte da população que vive nas proximidades da floresta.

Características chamaram atenção dos cientistas

As observações de campo revelaram um conjunto de características únicas.

O Likweli possui aproximadamente sete quilos, apresenta pelagem preta, rosto marcado por uma faixa alaranjada ao redor da boca e do nariz e vive em pequenos grupos nas copas das árvores.

Outra particularidade observada pelos pesquisadores é sua vocalização, descrita como semelhante ao coaxar de um sapo, comportamento incomum entre os primatas africanos conhecidos.

Análise genética confirmou nova espécie

Para confirmar que o animal realmente não pertencia a nenhuma espécie já catalogada, os pesquisadores realizaram análises detalhadas da anatomia, da estrutura óssea e do DNA.

Os resultados mostraram que o Likweli se separou evolutivamente de seu parente mais próximo entre quatro e cinco milhões de anos atrás, permanecendo isolado desde então.

A combinação das diferenças físicas e genéticas levou os cientistas a reconhecer oficialmente o animal como uma nova espécie, denominada Colobus congoensis.

Descoberta é considerada uma das mais importantes da primatologia recente

Especialistas destacam que a descrição de um novo primata africano é um acontecimento raro.

Nas últimas sete décadas, apenas um número reduzido de espécies de macacos foi oficialmente identificado no continente, tornando o reconhecimento do Likweli um marco para a zoologia e para os estudos sobre a biodiversidade africana.

A descoberta também demonstra que regiões pouco exploradas ainda podem esconder espécies desconhecidas, mesmo entre grupos de animais amplamente estudados.

Espécie já preocupa pesquisadores

Apesar da importância científica da descoberta, os pesquisadores alertam para os riscos enfrentados pelo novo primata.

A caça, a degradação ambiental e a perda de habitat representam ameaças para a sobrevivência da espécie, cuja distribuição ocorre em uma área bastante restrita da floresta congolesa.

Por esse motivo, os autores do estudo recomendam que o Colobus congoensis seja avaliado para inclusão na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).