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Apenas metade do esgoto é tratado em JF, a 7 anos do Marco Legal do Saneamento

Cesama projeta alcançar 75% até o final de 2028 e acredita que meta de 90% do tratamento de esgoto até 2033 é “factível”


Por Sandra Zanella

16/07/2026 às 07h00

tratamento esgoto Leonardo Costa
PJF garante investimentos na despoluição do Rio Paraibuna e no aumento de tratamento de esgoto (Foto: Leonardo Costa)

Apenas metade do esgoto em Juiz de Fora recebe tratamento antes de ser lançado em rios e córregos. O índice informado pela Companhia de Saneamento Municipal (Cesama) é o mesmo de um ano atrás, divulgado pela própria empresa pública. Enquanto os cursos d’água seguem sendo poluídos, a cidade aparece em 59ª lugar entre os cem municípios mais populosos do Brasil no Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil, ficando na frente apenas de Contagem (60º) e Ribeirão das Neves (62º) entre os oito municípios mineiros citados, com base em dados de 2024 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa). Uberaba (17º), Uberlândia (20º) Montes Claros (21º), Betim (49º) e Belo Horizonte (52º) saíram na frente. A sete anos do prazo final estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento – quando o Brasil deverá alcançar 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto – a situação do município neste quesito preocupa.

Em outro levantamento, o Ranking da Universalização do Saneamento da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) 2026, também baseado em dados de 2024 do Sinisa, Juiz de Fora está entre as cidades de grande porte classificadas na terceira categoria, a de “empenho para universalização” e obteve 424,60 como pontuação total (máximo era 500), exatamente porque o índice de esgoto tratado referido à água consumida atingiu apenas 24,90% naquele ano. O mesmo ranqueamento mostra que apenas 3,67% dos municípios avaliados estão próximos da “universalização do saneamento”, e o tratamento de esgoto segue como principal gargalo, como é o caso de Juiz de Fora. Ou seja, apenas 94 das 2.558 cidades alcançaram a categoria máxima.

“A Cesama esclarece que o índice utilizado pelo Ranking da Abes – esgoto tratado referido à água consumida – nunca será 90%, já que não estão comparando com o esgoto total gerado, que seria 80% da água consumida. O máximo que se atinge neste índice é 80%. Se o índice utilizado fosse o esgoto tratado em relação ao esgoto gerado, ao invés de 24,9%, tínhamos, em 2024, um índice de pouco mais de 31%”, explica a companhia, que já havia alertado para essa diferença no ano passado e explicado os métodos de cálculo, já que nem toda água consumida volta para a rede, como aquela utilizada para regar jardins, por exemplo.

Mesmo com apenas metade dos dejetos tratados atualmente, a Cesama acredita que Juiz de Fora possui metas factíveis para atingir os 90% de esgoto tratado, referido ao gerado, até 2033. “De 2024 para cá, evoluímos para um índice de tratamento na casa dos 50%. A meta de médio prazo é de 75% do esgoto tratado até o final de 2028”, diz a atual gestão sobre a previsão até o fim deste mandato.

Ainda segundo a companhia, atualmente, as ações de trabalho estão concentradas em encaminhar o esgoto dos bairros, de forma separada da água pluvial, até a macroinfraestrutura de interceptores já construída. “São exemplos a integração dos sistemas Barreira do Triunfo – Barbosa Lage e as obras dos coletores São Pedro e do Tapera, cujos contratos estão em vigor.” De acordo com a Cesama, outras ações pontuais serão implementadas até o final deste ano para tratamento do esgoto em distritos e comunidades isoladas. “O coletor Grama, importante obra que encaminhará o esgoto da região Nordeste da cidade para Barbosa Lage, tem previsão de início em 2027.”

Na última semana, a prefeita Margarida Salomão (PT) anunciou que a Prefeitura deixará de dar prosseguimento aos projetos de requalificação das margens do Rio Paraibuna e de construção da quinta adutora da Cesama, inicialmente previstos para serem viabilizados por meio de financiamento junto ao BNDES. O motivo é a nova operação de financiamento que precisará ser feita junto à Caixa Econômica Federal, no valor de R$ 86,4 milhões, para as obras de contenção na Estrada Engenheiro Gentil Forn, interditada desde as chuvas de fevereiro por conta do risco de erosões e deslizamentos. Os investimentos em tratamento de esgoto não deverão ser afetados.

Internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado

O Ranking do Saneamento da Abes avalia cinco dimensões essenciais do saneamento básico, nas quais Juiz de Fora obteve as seguintes notas: atendimento da população com rede de abastecimento de água (100%), atendimento com rede coletora de esgoto (100%), esgoto tratado referido à água consumida (24,9%), cobertura com coleta de resíduos sólidos domiciliares (99,7%) e disposição final adequada de resíduos sólidos urbanos (100%).

Entre os municípios de grande porte também classificados na terceira categoria, “empenho para universalização”, que concentra 64,92% das cidades acima de 100 mil habitantes avaliadas, a média de tratamento de esgoto é de 38,73%, bem acima do resultado de Juiz de Fora. A edição 2026 também analisa a relação entre os níveis de saneamento e as internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, como diarreias, hepatite A, cólera e febre tifóide, com base em registros do Datasus. Entre os municípios de grande porte, a taxa média passa de 31,94 internações por 100 mil habitantes, nas cidades melhor avaliadas, para 65,60 naquelas em “primeiros passos para a universalização”, a quarta e última categoria. Juiz de Fora chegou a registrar 35,35 internações por 100 mil habitantes, um pouco acima da média das cidades de seu nível. “Investir em saneamento é reduzir internações, proteger crianças, aliviar o sistema de saúde e gerar retorno social para o país”, observa Marcel Sanches, presidente nacional da Abes.

Segundo a associação, o Ranking 2026 evidencia que o avanço do saneamento não pode ser medido por uma única dimensão, mas pelo conjunto integrado de serviços essenciais. “Quando um desses componentes falha, todo o sistema urbano se torna mais vulnerável”, destaca. “Embora o abastecimento de água tenha avançado em muitos municípios, o estudo mostra que ainda existem gargalos relevantes no esgotamento sanitário, no tratamento de esgoto e na gestão de resíduos sólidos urbanos. Esses déficits impactam diretamente rios, mananciais, aquíferos, áreas urbanas, periferias, comunidades vulneráveis e sistemas de saúde”, conclui o estudo.

Entre as capitais, Curitiba (PR) apresenta o melhor desempenho, com 497,53 pontos, sendo a única capital classificada na primeira categoria, “rumo à universalização”. Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Brasília (DF), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), e Aracaju (SE) aparecem na segunda: “compromisso com a universalização”.

“O levantamento chega em um momento em que o Brasil enfrenta eventos climáticos cada vez mais extremos. Secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes, deslizamentos e crises hídricas têm pressionado os sistemas urbanos e evidenciado a vulnerabilidade de municípios que ainda convivem com infraestrutura precária”, aponta a Abes. “Cidades com baixa cobertura de saneamento tendem a sofrer mais em contextos de eventos extremos. A falta de coleta e tratamento de esgoto compromete corpos d’água; a disposição inadequada de resíduos agrava alagamentos, contaminações e riscos sanitários; a fragilidade do planejamento reduz a capacidade de resposta do poder público.” Para a Abes, portanto, “um município que não coleta seus resíduos, não trata seu esgoto, não protege seus mananciais e não planeja sua expansão urbana está mais exposto aos impactos das mudanças climáticas”.