Ouça agora

Ela tinha apenas 15 anos quando se tornou uma das líderes de uma guerra no Brasil

Maria Rosa liderou combatentes aos 15 anos e tornou-se símbolo da resistência na Guerra do Contestado no Brasil.


Por Leticia Florenco

07/07/2026 às 14h57

Ela tinha apenas 15 anos quando se tornou uma das líderes de uma guerra no Brasil

A história do Brasil registra inúmeros conflitos que moldaram o país, mas poucos são tão marcantes quanto a Guerra do Contestado, travada entre 1912 e 1916 na região disputada pelos estados do Paraná e Santa Catarina.

Em meio a uma guerra marcada por disputas por terra, desigualdade social e resistência camponesa, uma adolescente de aproximadamente 15 anos entrou para a história ao assumir uma posição de liderança em um dos maiores movimentos populares da Primeira República.

Maria Rosa, conhecida posteriormente como a “Joana d’Arc do Sertão”, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas do conflito ao reunir autoridade religiosa, capacidade de mobilização e atuação estratégica dentro dos redutos organizados pelos sertanejos.

Sua trajetória desafia os padrões da época e evidencia o protagonismo feminino em um dos episódios mais importantes da história social brasileira.

Conflito foi muito além da disputa territorial

Embora a Guerra do Contestado tenha recebido esse nome por envolver uma área cuja posse era reivindicada pelos estados do Paraná e Santa Catarina, pesquisadores apontam que o conflito teve causas muito mais profundas.

A construção da estrada de ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul provocou a concessão de extensas áreas de terra para empresas estrangeiras.

Como consequência, milhares de pequenos agricultores e posseiros foram expulsos de suas propriedades. Após a conclusão das obras, muitos trabalhadores também perderam seus empregos, agravando a crise social na região.

Sem terras e sem alternativas econômicas, diversas comunidades passaram a se organizar em torno da liderança religiosa do monge José Maria, que defendia uma sociedade mais justa e reunia seguidores em comunidades conhecidas como redutos.

Após sua morte, em 1912, o movimento permaneceu mobilizado e passou a ser considerado uma ameaça pelo governo da República, que respondeu com sucessivas campanhas militares para eliminar os focos de resistência.

Maria Rosa assumiu liderança ainda na adolescência

Foi nesse contexto que Maria Rosa ganhou destaque. Filha de pequenos agricultores e ligada às lideranças locais do movimento, a jovem passou a afirmar que recebia mensagens espirituais do monge José Maria, morto no início da guerra.

A crença dos sertanejos de que ela era uma intermediária entre o líder religioso e a comunidade fortaleceu rapidamente sua autoridade.

Além da função espiritual, Maria Rosa passou a desempenhar um papel decisivo na organização dos redutos.

Ela coordenava reuniões, mantinha a disciplina dos combatentes, incentivava a resistência e participava das estratégias adotadas para enfrentar as tropas republicanas.

Pesquisadores destacam que sua liderança ultrapassava o aspecto religioso, transformando-a em uma das principais estrategistas do movimento.

Reduto de Caraguatá marcou sua projeção

A atuação de Maria Rosa tornou-se especialmente conhecida no reduto de Caraguatá, em Santa Catarina, considerado um dos principais centros de resistência da Guerra do Contestado.

No local, ela organizava cerimônias religiosas, fortalecia o moral dos sertanejos e auxiliava na definição das ações militares.

Sua liderança era sustentada pela forte crença de que suas orientações representavam a vontade divina, fator que contribuía para manter a união dos combatentes durante os confrontos.

Especialistas afirmam que fé e estratégia caminhavam juntas dentro dos redutos, permitindo que a jovem exercesse simultaneamente funções religiosas, políticas e militares.

Origem do apelido “Joana d’Arc do Sertão”

A comparação entre Maria Rosa e a heroína francesa Joana d’Arc surgiu devido às semelhanças entre suas trajetórias.

Assim como a líder francesa, Maria Rosa assumiu posição de comando ainda muito jovem, afirmava receber orientações espirituais e conduziu combatentes em meio a uma guerra.

Apesar da analogia, historiadores ressaltam que sua história possui características próprias, profundamente ligadas à realidade dos caboclos do Sul do Brasil e ao movimento messiânico que marcou a Guerra do Contestado.

Mulheres tiveram papel decisivo na resistência

Maria Rosa não foi a única mulher a exercer funções de liderança durante o conflito.

Outras figuras, como Chica Pelega, Nega Jacinta e Querubina, também participaram da organização dos redutos, da condução de rituais religiosos e das decisões relacionadas à resistência contra as tropas federais.

Pesquisadores destacam que essas mulheres desempenharam funções políticas, militares e comunitárias, embora sua participação tenha sido pouco reconhecida durante grande parte do século XX.

A escassez de documentos oficiais e a destruição de registros dos redutos contribuíram para que essas trajetórias permanecessem por décadas restritas à tradição oral e à memória das comunidades locais.