Outubro Rosa: Câncer de mama entre pessoas com menos de 40 anos cresce em Juiz de Fora
Casos em faixas etárias mais novas reforçam a relevância do acompanhamento e de exames conforme indicação médica
“As palavras sobre o câncer são delicadas”, diz Susana Weber, de 29 anos, ao contar sobre sua experiência com o diagnóstico e tratamento contra o câncer de mama. “Ele (o filho) sem querer acertou a lateral da mama e a dor e o inchaço só pioraram com o passar dos dias”, conta a tradutora Daiane Ferreira, que descobriu a doença aos 38 anos. Os relatos de Susana e Daiane se somam a um cenário de aumento de casos em pessoas mais jovens na cidade.
Os anos em que Susana e Daiane iniciaram seus cuidados foram aqueles em que houve o maior número de tratamentos de câncer de mama entre pessoas de 19 a 39 anos em Juiz de Fora, segundo dados da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) dos últimos cinco anos. Em 2021, o município registrou que 706 pessoas destas faixas etárias estavam em tratamento, no ano anterior, foram 626 pessoas. Somente em 2025, já foram registradas 351 pessoas com idade abaixo dos 40 anos fazendo o tratamento deste câncer na cidade. Em todos esses anos, houve um crescimento de tratamentos em pessoas de 23 a 33 anos.
Esta é a segunda reportagem da série especial Outubro Rosa da Tribuna, publicada aos domingos de outubro, que discute diferentes aspectos do câncer de mama.
Descoberta precoce e tratamento

Para Susana Weber, os discursos sobre a doença são, muitas vezes, problemáticos. Ninguém quer assumir a posição de guerreira todos os dias, e não existem perdedores e derrotas nesta chamada “batalha”, analisa. Sobre o que viveu, ela diz ter compreendido a dimensão do que passava somente ao final do tratamento. “Acho que é um mecanismo de defesa para lidar com a situação. Senti todo o processo quando acabou.”
Ainda na adolescência, aos 14 anos, Susana sentiu um “carocinho”, como descreve, ao apalpar um dos seios. Na consulta com a ginecologista, ela descobriu que aquilo era, na verdade, um nódulo, que depois foi retirado para análise. Diante do diagnóstico precoce, a médica recomendou que a paciente realizasse um acompanhamento periódico como precaução: exames de ultrassom eram repetidos a cada semestre, e o acompanhamento com uma médica mastologista foi iniciado.
Anos depois, um de seus exames identificaria uma mudança. Em dezembro de 2019, aos 23 anos, Susana foi diagnosticada com câncer de mama. “Não sei explicar, mas esse foi o único exame em que não fiquei nervosa. Como tinha esse controle, o nódulo foi descoberto ainda pequeno, com apenas 6 milímetros. Quando li o exame, tomei um susto. Mas as médicas sempre conversavam muito comigo. Me senti muito amparada.” Antes, ela não tinha sentido nada diferente, nenhum sintoma que pudesse fazê-la desconfiar. Também não havia casos da doença na sua família.
Susana lembra que, no momento em que recebeu o diagnóstico, o choque foi grande, mas logo conseguiu racionalizar a sua condição. “Não fiquei com medo de morrer, nem nada. Só pensava em como resolver, de forma prática.” Durante a consulta, ela recebeu de imediato o encaminhamento para exames e para a cirurgia de mastectomia e de prótese. O tratamento foi iniciado em 2020, antes da confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil e das restrições de atendimento impostas pela pandemia.
Após a realização da cirurgia, mesmo diagnosticada com um câncer considerado menos agressivo, ela precisou realizar quimioterapia. “Depois de cada sessão, eu ficava muito grogue, porque tomava vários medicamentos para me preparar. Então, não conseguia conversar com ninguém. Quando chegava em casa, ficava dormindo, sentia enjoo e não tinha apetite. Meu cabelo caiu e tive feridas na boca, uma mucosite. Como um dos medicamentos tinha lactose, a minha intolerância piorou”. Ela ainda teve sintomas de menopausa, como a intensa sensação de calor e a instabilidade de humor. Em seguida, foi recomendado a hormonioterapia, um remédio tomado continuamente para evitar qualquer progressão. Durante todo o tratamento, também contou com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, com nutricionista, psicóloga e fisioterapeuta.
“Mesmo não estando perto, as pessoas se fizeram presentes. Mas quando vai passando, cada um vai seguindo a sua vida. Só que você ainda não segue totalmente. Nesse momento, eu fiquei muito perdida”. Susana, mais uma vez, buscou ajuda psicológica para lidar com essa fase, com a ansiedade causada tanto pelo tratamento, quanto pela pandemia. Também buscou cuidar do seu corpo, que trazia efeitos de momentos difíceis. Como queria aprender a nadar, começou a fazer aulas de natação em 2021.
“Parece que descarregava tudo na água, eu ficava ótima”. Agora, em 2025, depois de muitas braçadas, mergulhos e treinos, ela participou, pela primeira vez, de uma competição de nado no mar na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. “Ali, no mar, você vê muita superação, conhece a história das pessoas. A grande maioria participa para estar ali, vencendo, seja o que for”.
Além da natação, Susana também começou a fazer musculação e a correr, tendo já participado da Corrida da Fundação Ricardo Moysés Jr. Neste mês, dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, ela corre pela primeira vez na Corrida Solidária Outubro Rosa da Ascomcer. Esse trajeto, ela irá percorrer não só por si mesma, mas também em homenagem a uma amiga, que se tratava da mesma doença e a havia convidado para correr juntas anos antes.
Diagnóstico aos 38 e rede de apoio
Com uma história diferente, a tradutora Daiane Ferreira descobriu o câncer de mama aos 38 anos quando brincava com seu filho. “Ele sem querer acertou a lateral da mama e a dor e o inchaço só pioraram com o passar dos dias”, conta. Então, após realizar uma ultrassonografia, foi diagnosticada. Como sua mãe e sua avó tiveram tumores antes dos 50 anos, ela fez um teste genético, que indicou mutação em um gene. “Na época, minha única preocupação era fazer o tratamento e me curar, porque queria continuar ao lado do meu filho e criá-lo, pois sou mãe solo. Não nego que senti muito medo, minha mãe tinha falecido há menos de dois anos por causa de um tumor.”
Daiane passou por sessões de quimioterapia e de imunoterapia, todas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Depois, em 2021, ela fez uma cirurgia para extrair o tumor. “Deu errado, e perdi a mama. Estou desde então à espera de reconstrução, porque minha mastologista não me acompanha mais. Fiquei um bom tempo à deriva.” Ela segue o tratamento com a equipe do Instituto Oncológico, com seus exames sem alterações, o que considera um alívio por ser um procedimento longo.
“Outra coisa que ajudou muito foi a terapia com psicólogo e a rede de apoio. Uma amiga muito querida descobriu o câncer pouco depois e tínhamos espaço livre para falar desde os medos até fazer piadas de péssimo gosto. Essas duas coisas foram tão importantes para mim, quanto tomar os remédios quimioterápicos ou fazer a cirurgia”, conclui Daiane.
Conhecer e cuidar do próprio corpo podem prevenir, diz especialista
A prevenção envolve um conjunto de atitudes e o acompanhamento regular da saúde. “Muito desse aumento do câncer de mama se deve ao nosso estilo de vida”, diz a mastologista Camilla Laporte Seixas, 43 anos. O sedentarismo e a alimentação inadequada são fatores que influenciam o processo – mas não os únicos. Para a especialista, diagnosticar casos em mulheres abaixo de 40 anos é um desafio. Os exames de rastreamento, como a mamografia, o ultrassom e a ressonância – essenciais para o diagnóstico precoce – são, geralmente, iniciados para mulheres a partir desta faixa etária sem histórico familiar de câncer de mama, ovário ou pâncreas.
Por isso, o conhecimento da mulher de seu próprio corpo, a realização do autoexame e a percepção quanto a pequenas alterações nas mamas são estratégias importantes para possibilitar diagnósticos e tratamentos antecipados.
Atuante na área de mastologia há 8 anos e coordenadora da Saúde da Mulher da Ascomcer, Camilla afirma que a doença tende a ser mais agressiva em mulheres mais jovens. “Alguns subtipos mais agressivos do câncer de mama, como HER2 e triplo negativo, por exemplo, acontecem com mais frequência nesse perfil de idade e por isso a doença costuma ser mais rápida. Quanto mais rápido o tratamento, mais eficaz.”
A médica explica que o tratamento para o câncer de mama é multidisciplinar e envolve vários aspectos. Além de cirurgia, há tratamento com quimioterapia, que previne que a doença se espalhe pelo corpo; com radioterapia, que previne que a doença volte nas mamas; com endocrinoterapia, que previne que a doença retorne; com terapias-alvo, que agem especificamente em determinadas células. “É uma das doenças em que tivemos os maiores avanços de tratamento nos últimos anos. Não tem uma receita básica, é individualizado com base tanto nas características de cada paciente, como nas características de cada tumor. Novas drogas estão sendo lançadas, com resultados animadores.”
No Outubro Rosa, mês dedicado a lembrar tanto mulheres, quanto homens, das várias formas de prevenir a doença, a mastologista ressalta que a principal é a prática de exercícios físicos, com pelo menos 150 minutos de atividades moderadas por semana. “Ter um estilo de vida saudável, com restrição de consumo de bebidas alcoólicas, evitar sobrepeso e ter uma boa alimentação são práticas essenciais”.
‘Coragem feita a muitas mãos’
A médica oncologista Milena Ribeiral Matos, 41 anos, analisa que o fato de o câncer de mama ser diagnosticado de forma recorrente em pessoas mais jovens influenciou a determinação do Ministério da Saúde para que a mamografia seja iniciada aos 40 anos. “Também temos mais diagnósticos, porque estamos mais atentos à possibilidade de acontecer em populações mais jovens. Essa incidência, cada vez mais precoce na população feminina, é um conjunto de fatores hereditários, genéticos, ambientais e comportamentais.”
Em pessoas mais jovens, o diagnóstico também pode ser um desafio, explica Milena, uma vez que as mamas nessa população geralmente são mais densas. Nesses casos, a mamografia pode ser inconclusiva. “Temos que incentivar a percepção do próprio corpo a fazer o toque, a intercambiar os métodos de rastreio, como o ultrassom de mama. Tivemos um avanço ao diminuir a faixa etária da população elegível para rastreio de câncer de mama. Acredito que, com novos dados, com novas pesquisas, caso seja evidenciada uma progressão de incidência na população com menos de 40 anos, vamos ter uma reavaliação.”
Além da atenção e dos cuidados prévios, a médica também incentiva as pacientes a falarem sobre sua experiência. Milena foi a médica que acompanhou o tratamento de Susana. Ela reflete que as pacientes têm um poder de transformação, tanto na vida do médico quanto em sua própria vida. “Eu via coragem nela, o que também me dava coragem para tratá-la. Então eu incentivo porque sei que ela tem essa capacidade de estimular e de despertar também a coragem em outras mulheres”.
Tópicos: câncer de mama / outubro rosa / prevenção câncer de mama / saúde / saúde da mulher









