Selic elevada cria oportunidades para quem consegue investir
Com 15% ao ano, investimentos de renda fixa, como títulos do Tesouro Direto, CDBs, LCIs e LCAs, passaram a oferecer retornos que superam a inflação com ampla margem e baixo risco

A taxa Selic atingiu 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas. A decisão foi tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) há quase um mês, marcando o sétimo aumento consecutivo dos juros básicos. O objetivo, segundo o Banco Central (BC), é conter uma inflação persistente em meio a incertezas globais e pressões sobre o câmbio.
Como referência para todas as taxas de juros no país — incluindo empréstimos, financiamentos e cartão de crédito — a Selic elevada encarece o crédito e desestimula o consumo, mas cria oportunidades para quem consegue investir.
De acordo com o economista e professor da Faculdade de Economia da UFJF, Weslem Faria, com a Selic alta, investimentos de renda fixa, como títulos do Tesouro Direto, CDBs, LCIs e LCAs, passaram a oferecer retornos que superam a inflação com ampla margem e baixo risco.
Renda fixa consolida vantagem
Weslem reforça que, por serem de renda fixa, esses títulos permitem ao investidor maior previsibilidade e segurança.“Esses papéis são interessantes quando a Selic está alta porque proporcionam rentabilidade sólida sem quase nenhum risco. São muito vantajosos para quem busca estabilidade.”
A renda fixa é uma modalidade em que o investidor “empresta” dinheiro a governo, bancos ou empresas e recebe o valor de volta com juros. “Esses títulos têm retorno superior à poupança e aceitam investimentos a partir de R$ 50, o que facilita o acesso de pequenos investidores.”
O economista alerta que o principal erro dos investidores é deixar o dinheiro parado na poupança, cuja rentabilidade é inferior à de outros produtos financeiros. “A inflação corrói o poder de compra, e a poupança não protege contra isso. É essencial buscar alternativas mais rentáveis.” Weslem orienta cautela para quem não tem familiaridade com o mercado: “Para quem não é especialista, o ideal é focar em renda fixa ou papéis de menor risco. Investimentos em renda variável, como ações, são mais voláteis e podem perder valor rapidamente com mudanças políticas ou econômicas”.
Presidente do BC defende estratégia
A decisão de elevar a taxa para 15%, segundo o Copom, se deu em um contexto de inflação resistente, incertezas externas e pressão cambial. O Banco Central avaliou que os efeitos das altas anteriores ainda não foram totalmente absorvidos, exigindo manutenção do aperto monetário de forma gradual.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, admitiu que a medida é impopular, mas defendeu a estratégia: “Ao colocar a taxa de juros em 15%, dificilmente eu e os meus colegas do Copom vamos ganhar o torneio de Miss Simpatia no ano de 2025. Mas eu durmo muito tranquilo, sabendo que o que estou fazendo é cumprir a meta e perseguir a meta, e tenho absoluta convicção que este é o papel do Banco Central”, disse em evento da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo e Associados do Instituto Unidos Brasil, em Brasília, na terça-feira (8).
Atualmente, o centro da meta é de 3%, com piso de 1,5% e teto de 4,5%. Os dados mais recentes sobre inflação, divulgados na quinta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam inflação de 5,35% em 12 meses a contar de junho, considerando o IPCA.
Impactos já são observados
Com a Selic em 15%, o custo do dinheiro aumenta, tornando financiamentos e dívidas no cartão mais pesados. Isso desestimula o consumo, especialmente de bens duráveis como carros e eletrodomésticos, e impacta o setor produtivo e o emprego.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) projeta crescimento do crédito em 2025, mas também aumento da inadimplência, que pode chegar a 5%. Apesar disso, há sinais de leve melhora no cenário inflacionário de curto prazo. Pesquisa da Febraban, realizada com 21 bancos entre 25 e 30 de junho, mostrou queda na proporção de instituições que esperam inflação acima de 5,5% no fim de 2025.
Segundo Weslem, o cenário favorece quem tem recursos para investir, mas penaliza endividados: “Os beneficiados são aqueles com dinheiro disponível para aplicar, que conseguem retorno elevado com pouco risco. Já os prejudicados são os que precisam de crédito, especialmente os endividados no rotativo do cartão ou com financiamentos corrigidos pela Selic.”
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que o endividamento das famílias subiu pelo quinto mês consecutivo, passando de 78,2% em maio para 78,4% em junho. Apesar da alta, a inadimplência permaneceu estável, com 29,5% das famílias com contas em atraso.
O cartão de crédito continua sendo a principal modalidade de dívida, usado por 83,3% dos endividados, seguido por carnês, que subiram de 16% para 17% em um ano.
Projeções indicam juros elevados até 2026
O professor da UFJF avalia que a tendência é de manutenção da Selic no atual patamar. “A inflação ainda preocupa, e o Banco Central pode manter os juros elevados ao longo de 2025. Uma queda mais consistente só deve ocorrer em 2026.”
A próxima reunião do Copom está marcada para 29 e 30 de julho e deve indicar se o ciclo de alta chegou ao fim ou se haverá novos ajustes.
*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa








