Veja como a escalada da Selic impacta o bolso de cada um
Com os juros em 15% ao ano, linhas de financiamento como crédito pessoal, cartão de crédito rotativo e cheque especial se tornam mais onerosas

A taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, atingiu seu maior patamar desde 2006: 15% ao ano. O índice foi definido na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada há uma semana, e representa o sétimo aumento consecutivo promovido pelo Banco Central.
Referência para todas as taxas de juros praticadas no país — como empréstimos, financiamentos e cartões de crédito — a Selic é usada para conter ou estimular a atividade econômica.
Weslem Faria, professor da Faculdade de Economia da UFJF, explica que o principal objetivo do Banco Central é o controle da inflação. Segundo ele, há uma relação inversa entre taxa de juros e inflação, especialmente quando esta é provocada pelo excesso de demanda. “O aumento da taxa de juros encarece o crédito, o que reduz o consumo de bens e serviços, ajudando a conter a inflação. Isso vale especialmente quando a pressão inflacionária decorre do aumento da demanda “, afirma o economista.
Atualmente, esse é o cenário. A inflação oficial, medida pelo IPCA, recuou 0,26% em maio. No acumulado de 12 meses, no entanto, a alta chega a 5,32%, acima do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, que é de 3%.
O Copom justificou a nova elevação dos juros pela resiliência da atividade econômica, que segue aquecida, dificultando o controle da inflação. A avaliação do Banco Central é que os efeitos das altas anteriores ainda não foram totalmente absorvidos, o que exige cautela e manutenção do aperto monetário em ritmo gradual.
O comitê também destacou o cenário internacional adverso, com incertezas em relação à política econômica dos Estados Unidos e o agravamento de tensões no Oriente Médio. Esses fatores aumentam o risco para países emergentes, como o Brasil, e exigem maior prudência na condução da política monetária.
Apesar do novo aumento, o Copom sinalizou que pode interromper o ciclo de alta para observar os efeitos acumulados das medidas já adotadas e avaliar se o patamar atual será suficiente para trazer a inflação de volta à meta.
Impactos no orçamento doméstico
A alta da Selic tem efeitos diretos no dia a dia das famílias, principalmente nos custos de crédito e na capacidade de consumo. Com os juros em 15% ao ano, linhas de financiamento como crédito pessoal, cartão de crédito rotativo e cheque especial se tornam mais onerosas. As instituições financeiras repassam rapidamente esse aumento para os consumidores, encarecendo as parcelas de quem já tem dívidas e dificultando o acesso ao crédito para quem pretende contratar novos financiamentos.
“Bens de maior valor, como automóveis, motocicletas, imóveis e alguns eletrodomésticos, geralmente dependem de financiamento para serem adquiridos. Quando os juros sobem, o custo desses financiamentos aumenta, o que desestimula o consumo. Com menos pessoas comprando esses produtos, há impacto direto sobre o setor produtivo, que tende a registrar queda na demanda e na atividade econômica “, explica Weslem.
Maior taxa em quase duas décadas
A decisão do Copom de elevar a Selic para 15% leva a taxa ao maior nível desde setembro de 2006, quando também esteve nesse patamar. O movimento representa um ciclo de aperto monetário iniciado em 2024, com sete altas seguidas, e ocorre em meio a um contexto de inflação persistente, incertezas econômicas globais e pressão sobre o câmbio.
Esse patamar de juros tem efeitos amplos na economia. Por um lado, busca-se controlar a inflação, mas, por outro, são impostos custos significativos à atividade produtiva e ao investimento. Taxas de juros elevadas desestimulam a tomada de crédito por empresas, inibem novos projetos e dificultam a geração de empregos.
Segundo o economista, o aumento da Selic não tem sido eficaz para conter a atual inflação, cujas causas estão mais ligadas a fatores externos do que ao consumo interno. “Quando analisamos os itens que mais têm pressionado os preços, vemos que são alimentos e matérias-primas afetados por eventos climáticos, conflitos geopolíticos e escassez de insumos energéticos. Nesses casos, a inflação decorre da oferta reduzida, e não do excesso de demanda. Por isso, o aumento dos juros não resolve o problema”, avalia.
Ele também critica a continuidade da política de alta da Selic, que, em sua visão, beneficia principalmente o sistema financeiro. “As instituições financeiras são as principais favorecidas, já que aumentam suas margens com empréstimos mais caros. Ao mesmo tempo, vemos propostas de ampliação do crédito consignado para trabalhadores formais, o que, no cenário atual, representa um estímulo ao consumo com juros elevados. Isso transfere o custo para a população, que já enfrenta perda de poder de compra e aumento do endividamento.”
*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa








