Os pés pelas mãos
O Zé Cebola era um daqueles botafoguenses bonachões. Suas piadas eram como dribles de Garrincha. Se existem coisas que só acontecem com o Glorioso de General Severiano, com ele acontecia de tudo um pouco. É porque o Zé vivia rodeado de amigos. Muitos. Flamenguistas, vascaínos, tricolores, corintianos. Todos se sentiam à vontade em sua casa, por mais que o símbolo da estrela solitária estivesse espalhado em cada canto. Ali, era um templo da amizade, do respeito e da diversão, como as arquibancadas e o futebol de forma geral deveriam ser.
Mas isso só era possível porque o Zé tinha um coração do tamanho do Maracanã nos anos 50. Fazia amizades onde quer que estivesse. Sempre com um sorriso. Um abraço. Um carinho. Uma tirada. Uma para dois. O carisma em pessoa. Era também muito mais que isso. Filho. Irmão. Amigo. Marido. Tio. Parceiro. Pai. Cebolinha desempenhava todos esses papéis com maestria, naturalidade e competência cativantes.
Acima de tudo, Zé era um professor. Mestre! Ele me ensinou a viver mais feliz. Entender que, mesmo pela metade, o copo estará sempre cheio. Compreender com profundidade a frase de Vinícius de Moraes, que diz que a vida é a arte do encontro. Vários dos momentos em minha vida onde encontrei a felicidade plena, como aquele gol redentor e inesperado aos 47 do segundo tempo, foram vividos ao seu lado.
Na última quarta-feira, o coração do Zé que carregava tanta gente cansou. Foi animar as mesas do lado de lá. Mesmo na despedida, ele me deixou mais um ensinamento. A consciência que existem dores maiores que qualquer derrota ou eliminação no futebol. Obrigado, amigo! Ao contrário de seu Botafogo, o brilho de sua estrela nunca será solitário.









