Na orelha da bola
Albertinho vai ao estádio
O jogo era só às quatro da tarde, mas a concentração começou cedo para Albertinho. Nove e pouca ele já estava no Boteco do Osmar. Tomou Boazinha, tomou 51, tomou Seleta e Brahma e Itaipava e Skol e Antarctica e até Caracu, e tomou rabo de galo e caipirinha também, porque não bebia só no seu copo: ia de mesa em mesa papear com a rapaziada e se servia do que estivesse mais à mão. Depois de mandar meio prato de fígado acebolado e um joelho de porco para dentro, deixou o recinto agitando a camisa do time sobre a cabeça e pegou seu carro rumo ao estádio.
Chegou com um pouco de antecedência, falou para o flanelinha que pagaria na saída e tomou mais algumas cervejas – tinha um medo desgraçado de salmonela, então sempre limpava as latas na barra da bermuda. Fazia um calor dos diabos sob a lona das barraquinhas e ele decidiu entrar logo para se refrescar na pia dos W.C.. Depois de inundar metade do banheiro, desceu para seu lugar preferido no estádio, alguma cadeira entre o meio de campo e a bandeirinha de escanteio.
Cantou, xingou, arrotou alto, discutiu, urrou e, quando a sede voltou a apertar, meteu meio litro de guaraná para dentro – porque nos estádios desta grande e civilizada nação não se bebe cerveja. Voltou a xingar, cantar e urrar e, quando percebeu que a cerveja implorava para ser libertada de sua bexiga descomunal, não teve dúvidas: meteu o copo de guaraná vazio por baixo da bermuda e o encheu até a boca, atirando-o em seguida nas fileiras inferiores. Acertado pela bomba de efeito desmoralizante, versão aberta do popularmente conhecido saco de mijo, um cidadão desses grandalhões de torcida organizada resolveu tirar satisfação. Como não sabia contra quem, subiu alguns lances de escada e deu na cara do primeiro desafeto que encontrou.
Aí a turma do deixa disso entrou no meio, a turma do quero-ver-o-circo-pegar-fogo riscou o fósforo, a turma que gosta de trocar sopapo pulou para dentro e o pau quebrou nas arquibancadas do estádio, até a polícia chegar o arreio sem distinção, dando em Chico, em Francisco e em quem mais estivesse no bolo.
(Preso mesmo, ninguém foi.)
Lá de cima, Albertinho, indignado e já doido pra tomar uma, xingava todo mundo e pedia a continuidade do jogo. E o jogo recomeçou e acabou e ele foi comemorar do lado de fora, sob as barracas. Tomou outras tantas, cuidando de limpar as latinhas no bermudão, até que o flanelinha fosse embora e desistisse de cobrá-lo. Chumbado e feliz, pegou seu automóvel e voltou para casa, onde dormiu como um trator ligado em marcha lenta até a manhã do dia seguinte, quando acordaria ansioso pelo próximo domingo.









