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Nada no balaio


Por Ricardo Miranda

02/06/2012 às 07h00

Mesmo com o avanço do Google, ainda é possível esbarrar com os tipos chamados "enciclopédias vivas". Basta uma provocação para qualquer representante dessa ameaçadíssima espécie puxar pela memória e citar datas, nomes e acontecimentos com uma facilidade de fazer inveja. Quem teve a felicidade de ouvir o Wilson Cid falando da história política de Juiz de Fora ou o Ailton Alves discorrer sobre futebol sabe do que estou falando.

Certa vez, quando ainda frequentava a Faculdade de Comunicação, o professor Márcio Guerra promoveu uma competição sobre conhecimento esportivo. Representante do meu período, terminei de forma melancólica. Fui superado de longe pelo saudoso Antônio Marcos e por Dudu Monsanto, que, por ser uma enciclopédia já naquele tempo, acabou vencendo a contenda. Só não terminei em último por conta da admiração do meu avô pelo Didi.

Como a geração do Tostão ainda estava em gestação, meu avô, cruzeirense nato, tinha em Didi um ídolo às escondidas. Foi com ele que aprendi que Didi era apelido de Waldir Pereira, o "Príncipe Etíope" bicampeão pela Seleção Brasileira. Então, quando o Márcio Guerra perguntou sobre a jogada imortalizada por Didi, não vacilei: "Folha seca". Pronto, havia cravado minha única resposta certa.

O que meu avô não me contou, que também não foi questionado lá faculdade, é que o Didi foi uma espécie de precursor de Adriano e Ronaldinho Gaúcho. Em 1950, já casado e com filhos, conforme pesquisa no Google, Didi conheceu a atriz Guiomar Batista com quem passou a viver. Na Copa da Suíça, ameaçou greve de fome depois que Zezé Moreira o proibiu de ir até o alambrado conversar com a nova esposa. Não morreu de fome, mas também não jogou bola.

Nos dois mundiais seguintes, com liberdade para ir além do alambrado, foi bicampeão com o Brasil. Tornou-se herói com direito a foto em capa de revista com a legenda: "Às vezes, penso que o meu destino é pecar." Nada poderia soar mais apropriado para seus sucessores.