Na orelha da bola: não era para comemorar?
Eu já saio de casa desgostoso. Pelo Sportv, Andrés Sanchez, o homem-forte da CBF e do Corinthians, manda avisar que as estrelas da Seleção Brasileira não vão jogar com a camisa comemorativa desenvolvida pela Nike para o jogo de ontem, contra a Suécia, que marcava a despedida do Estádio Rasunda, onde o Brasil celebrou seu primeiro título mundial, em 1958. É que, segundo o repórter da emissora, os astros alegaram que a camisa era pesada demais. Eles se referiam ao material, não à história do uniforme pentacampeão. Bando de frescos, murmuro eu, rabugento mesmo, enquanto desligo a TV, empurro o gato (com o pé, mas gentilmente) para o lado e desço a escada.
Como rádio nenhuma transmite o jogo, chego ao prédio do dentista sem saber a quantas anda o certame. Pergunto logo pra quem entende: o ascensorista.
E aí, amigo, quanto é que está a pelada?
1 a 0, responde ele, meio desanimado.
Quem fez?
O Damião. Salvador da pátria. Salvador do Mano.
Resolvo não importunar mais o moço, e aguardo silencioso até desembarcar no sétimo andar. No consultório, nada de futebol. O dentista vem com uma conversa sobre Jason Mraz e Gramado e pinot noir e tempranillo e Trapiche e acha que me engana com seu papo-aranha enquanto deixa metade da minha cara dormente para cavucar um dentão lá no fundo da boca. Terminada a sessão de tortura, tomo novamente o elevador. Aí já passava das cinco e o jogo havia acabado. Hora de colher informações com o ascensorista.
E aí, quanto é que terminou o jogo?
Ele responde, desolado, como se tivéssemos sido goleados por 5 a 0 pela Argentina:
3 a 0.
E o dentista, que descera comigo (acho que ele me deixa por último para exercer seu sadismo com mais tranquilidade), entra no assunto.
Pra Suécia?
Não, pro Brasil, responde o moço de seu cantinho à frente dos botões, cabeça baixa, quase entre as pernas. Um homem derrotado, sim senhor.
Antes de deixar o elevador, ainda pude ouvir o derradeiro suspiro que precedeu o bordão térreo:
Vamos ter que aturar até 2016…









