Onde (e como) nascem os heróis olímpicos
Depois de chegar ao mais alto nível para representar o Brasil em competições internacionais como as Olimpíadas, os atletas de elite passam a contar com a estrutura das mais diversas confederações. No país, não há um modelo único a ser adotado para o aprimoramento dos principais nomes do esporte nacional, mas a criação de centros de excelência para cada modalidade foi a tendências seguida pelos dirigentes na preparação para os Jogos de Londres este ano. E essa deve ser a tônica para o ciclo olímpico que vai até de 2016.
Paralelamente ao oferecimento de locais com toda a estrutura de equipamentos para as mais diversas modalidades e equipes multidisciplinares de medicina esportiva, preparação física e nutrição, o intercâmbio com outros países vem ganhando importância. As confederações nacionais cada vez mais estão preocupadas em colocar seus atletas diante dos mais qualificados atletas internacionais, fazendo com que eles aumentem seu nível competitivo.
Foi assim que as modalidades que mais obtiveram sucesso em Londres, superando o recorde histórico de medalhas brasileiras nas Olimpíadas – eram 15 pódios em Pequim 2008 e em Atlanta 1996, contra os 17 deste ano -, se prepararam para a disputa dos Jogos. Uma estratégia que deve ser mantida para o Rio de Janeiro.
Boxe
Os boxeadores brasileiros fizeram este ano sua melhor Olimpíada da história. Além de voltar a conquistar medalhas no masculino depois de 44 anos – o último pódio da modalidade havia sido o bronze de Servilio de Oliveira, no México, 1968 -, ganhou um terceiro lugar no boxe feminino, logo na estreia da modalidade nos Jogos.
Segundo o presidente da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), Mauro Silva, a estratégia de preparação para Londres 2012, que foi toda feita em um ginásio do Clube-Escola Joerg Bruger, cedido pela Prefeitura de Santo Amaro, em São Paulo, em uma grade reunião da elite do pugilismo olímpico nacional, foi fruto de experiências frustradas anteriores. "Já havíamos tentado a preparação individual de cada representante em seu local de treinos. Também se tentou fazer parte dessa preparação nas academias dos boxeadores e parte em um local de treinos coletivo. Passamos também por uma fase de tentar um local isolado. Mas, só conseguimos sucesso agora, com esse tipo de preparação, na qual os atletas moram próximos ao local de treinos – iam à pé para lá -, têm toda a estrutura de equipamentos e equipes multidisciplinares à disposição… tudo em um só lugar", conta o dirigente.
O modelo deu frutos rápidos e deve ser mantido para 2016. "Começamos esse trabalho em 2009 e, em um ano e meio, já estávamos colhendo frutos e vencendo competições internacionais – aliás, outros aspecto importante para a conquista dessas medalhas, ao lado dos treinos realizados no exterior, já que só lutando com adversários mais qualificados o pugilista eleva seu nível. Com equipamentos de qualidade, equipe técnica competente e atletas dedicados, temos tudo para evoluir", considera Silva.

Judô
Sem utilizar um só, mas vários centros de treinamento pelo país e viajando para o exterior para períodos longos de treinos e competições, os judocas nacionais brilharam em Londres. Foi o melhor resultado no judô olímpico brasileiro em todos os tempos, com quatro medalhas. A de ouro de Sarah Menezes foi a primeira da história do feminino no país, e também da modalidade desde 1992, quando Rogério Sampaio subiu pela última vez ao alto do pódio levando a bandeira brasileira no "judogui".
Segundo as informações da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), a Seleção da modalidade se reuniu durante esse ciclo olímpico em clubes com tradição nos tatames, como o Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, e o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, mas teve como bases principais em território nacional dois projetos sociais: o Projeto Futuro, que tem sede no Parque do Ibirapuera, na capital paulista, e o Instituto Reação, do ex-judoca Flávio Canto, no Rio de Janeiro.
Além das reuniões em solo brasileiro, os judocas que estiveram em Londres viajaram para enfrentar e treinar junto com seus futuros oponentes. Os atletas nacionais fizeram, durante esse ciclo olímpico, treinos de até um mês de duração no berço da arte marcial, o Japão, participando de torneios contra os maiores lutadores de diversas categorias, além de viagens para treinamentos e competições na Europa.
Mas o sucesso da modalidade em Londres não significou estagnação no quesito estrutura por parte da CBJ. Para 2016, a preparação dos judocas brasileiros terá uma casa fixa. A entidade está construindo, em Lauro de Freitas, município da região metropolitana de Salvador, na Bahia, seu próprio centro de treinamento, que tem previsão de inauguração para o próximo ano.

Pentatlo
Uma importante parceria também contribuiu para o ciclo olímpico do Brasil a partir de Londres 2012. O Exército Brasileiro iniciou um programa para o ingresso de atletas em suas fileiras, visando representar bem o país em Jogos Mundiais Militares e, por tabela, contribuir para o desenvolvimento do esporte nacional.
Já nessa Olimpíada veio o primeiro fruto dessa parceria. O Brasil conquistou em Londres a sua primeira medalha olímpica no pentatlo moderno, com o bronze de Yane Marques. "Ela é sargento do Exército, está lotada em Recife, Pernambuco, mas fez sua preparação tendo como base a Escola de Educação Física do Exército (EsEFex), no Rio de Janeiro, onde teve toda a estrutura disponível para atingir o nível de desempenho que a levou à medalha. Isso, aliado às competições internacionais das quais participou, nas quais enfrentou as melhores do mundo em sua modalidade, contribuíram diretamente para a conquista. Isso será mantido nesse próximo ciclo olímpico", explicou o técnico de esgrima da pentatleta, o tenente e mestre d’armas Thales Metre.
Segundo o treinador, a parceria entre Exército e COB está sendo proveitosa. "Assim como a Yane, outros atletas que representam o Brasil têm se beneficiado com a estrutura, principalmente da EsEFex, para sua preparação, através do programa de sargentos-atletas. Então, é um projeto que deu certo. O Exército faz sua parte para o desenvolvimento do esporte brasileiro", avalia Metre.

Vôlei
As medalhas do vôlei brasileiro – ouro no feminino e prata no masculino – têm participação direta da estrutura de treinamento da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Exemplo nacional, o Centro de Desenvolvimento de Voleibol, mais conhecido como Aryzão, na cidade de Saquarema, no Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2003 e, desde então, é a sede de treinos da modalidade no Brasil.
O complexo concentra em um só local todas as instalações e equipamentos necessários para o treinamento de equipes esportivas, tendo em vista a formação, o desenvolvimento e a reciclagem de recursos humanos. São 108 mil m² de área, com capacidade de hospedagem para 211 pessoas ao mesmo tempo e no qual, além das quatro quadras de vôlei de praia e quadro indoor que podem ser transformadas em oito de treinamento, há piscinas, 800 m² entre salas de musculação e fisioterapia, auditórios, campos de futebol, salas de estudo, de reuniões, médica e de pesquisa, restaurante e diversos aparatos de lazer.
Em Saquarema foram realizados períodos de treinos intensivos dos representantes olímpicos nacionais do vôlei em Londres 2012 e vai ser da mesma maneira até 2016. "O Aryzão foi para esse ciclo olímpico e tem sido desde sua criação a casa do vôlei nacional. E o que você tem em sua casa? Conforto, comodidade, tranquilidade. É isso que procuramos dar aos atletas lá. Agora, além dos recursos humanos – podemos contar com as duas comissões técnicas mais vitoriosas do mundo orientando todo o processo -, com os quais estamos encaminhando a renovação de contrato, estamos investindo em tecnologia de ponta para podermos nos manter vencendo. O centro de treinamento vai ser de novo a casa do vôlei para 2016 e, se depender de nós, para sempre", definiu o diretor de seleções da CBV, Antônio Rizzola.

Natação
A quantidade de medalhas foi a mesma, mas um ouro conquistado em Pequim 2008 virou prata em Londres 2012, e a natação brasileira deixou um gostinho amargo na boca do torcedor. Mas na avaliação de quem participou do processo de preparação dos atletas, houve evolução. "Se você pegar somente o resultado, realmente poderia ter sido melhor. E é nisso que enxergo que evoluímos. Avaliando o número de possibilidades que tivemos de ganhar medalha, vimos que estamos no caminho certo. Chegamos com favoritos ao ouro, como Felipe França e César Cielo, outros com grande possibilidades de medalha, como Bruno Fratus e o Thiago Pereira – que confirmou o esperado -, e estivemos em muitas finais", analisa o técnico da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), Fernando Vanzella.
Para a última Olimpíada, a preparação de nossos nadadores foi feita de forma individualizada. "Como a natação é um esporte individual, no qual têm que ser respeitados o biótipo, a técnica, o estágio de desenvolvimento e o psicológico de cada atleta, a CBDA opta por deixá-los o mais à vontade possível. O coordenador técnico Ricardo de Moura acompanha e tem reuniões com os técnicos dos atletas para traçar uma estratégia, mas é raro juntarmos todo mundo em um só local para preparação. Para Londres, não aconteceu", conta Vanzella.
A estratégia da CBDA é proporcionar condições para que os nadadores treinem onde e da forma que se sentem melhor. "Quem, além de se preparar em seus clubes (Flamengo, Pinheiros, Minas, Corinthians, entre outros), quis treinar na altitude, foi; quem quis sair do país e competir, foi. Por exemplo, uma parte da delegação quis ir disputar uma competição na Itália para se aclimatar para Londres e pôde fazê-lo", explica Vanzella.
Vanzella acredita que as estruturas administradas pela CBDA deverão ser mais utilizadas no próximo ciclo olímpico. "A preparação deve seguir basicamente o mesmo sistema, mas estruturas como o Parque Aquático Maria Lenk (no Rio de Janeiro) devem ganhar importância maior nesse período de treinos, pois está na cidade-sede das Olimpíadas. O complexo ganhou estruturas para musculação e vem sendo melhorado para que possa virar uma espécie de casa da natação brasileira."










