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Crise no transporte público ameaça quatro mil empregos em JF

Astransp contabiliza prejuízo de R$ 70 milhões na pandemia. Trabalhadores temem novas demissões


Por Gracielle Nocelli e Marcos Araújo - Repórteres

05/03/2021 às 19h28- Atualizada 05/03/2021 às 19h29

A Associação Profissional das Empresas de Transportes de Passageiros de Juiz de Fora (Astransp) emitiu comunicado oficial, nesta sexta-feira (5), informando que os impactos da crise provocada pela pandemia da Covid-19 ao setor resultaram em R$ 70 milhões em perdas e ameaçam a manutenção de quatro mil empregos na cidade. A declaração aumentou a insegurança de motoristas e cobradores que, nos últimos meses, acompanharam a perda de 700 postos de trabalho. A crise, que também atingiu o número de ônibus que circulam pela cidade, representou prejuízos para os usuários do transporte público coletivo da cidade. Com a redução, moradores de alguns bairros amargaram dificuldades de deslocamento. Também nesta sexta, a Prefeitura (PJF) anunciou o retorno da operação de 100% da frota dos ônibus.

Além dos impactos econômicos da Covid-19, a Astransp apontou que a não realização do reajuste tarifário em 2020, os consecutivos aumentos no preço do diesel e o veto presidencial ao projeto de lei (PL) 3364/20, que previa o auxílio emergencial de R$ 4 bilhões para sistemas de transporte em cidades com mais de 200 mil habitantes, contribuíram para o agravamento da situação financeira.

O texto destaca que a realidade em Juiz de Fora segue o panorama nacional. Até o momento, o sistema de transporte contabilizou o prejuízo de R$10 bilhões e registrou 70 mil demissões em todo o país, conforme dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU).

Afirmando que “o Governo federal deixou a “bomba” para os Governos municipais de todo o país”, a associação solicita o debate sobre novas formas de financiamento do transporte público coletivo. “É hora de rever o modelo atual de remuneração dos sistemas, tornando-os sustentáveis.”

No comunicado, a Astransp reconhece a importância dos grupos de trabalho interdisciplinares que se propõem a estudar soluções para o reequilíbrio econômico e financeiro do contrato de concessão entre as empresas e o Município. “São importantes e devem, sim, continuar. Porém já é urgente que os planos saiam do papel e tornem-se realidade”.

Procurado pela Tribuna, o diretor da Astransp Rafael Santana ressaltou a necessidade de um novo modelo de financiamento. “É preciso criar receitas extratarifárias para serem revertidas em qualidade para os passageiros e custear as gratuidades, que hoje são pagas pelo usuário pagante. Também é necessário desonerar o setor para possibilitar o investimento em qualidade e a modicidade tarifária. Precisamos garantir o transporte como um direito social de acordo com a Constituição.”

Trabalhadores temem novas demissões

Antes da Covid-19, a categoria de motoristas e cobradores reunia 3.500 trabalhadores em Juiz de Fora. O número reduziu para 2.800, segundo informações da Astransp. O saldo de 700 demissões ao longo dos últimos meses foi confirmado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Juiz de Fora (Sinttro-JF), que teme a possibilidade de novos desligamentos.

O presidente do Sinttro-JF, Vagner Evangelista, descreve a realidade de dificuldades e a apreensão vivida pela categoria. “Nós estamos lutando para manter os empregos. Os trabalhadores aceitaram as reduções de jornada e salário no ano passado, e o sindicato fez campanha para doações de cestas básicas às famílias que estavam enfrentando mais problemas.”

Segundo Vagner, além da possibilidade de novas demissões, existe a preocupação com as condições oferecidas aos trabalhadores empregados. “Vivemos um momento muito difícil, pois queremos garantir os empregos, mas também nos preocupamos em assegurar uma remuneração que seja suficiente para o sustento do trabalhador. Acompanhamos muitas famílias em situação realmente difícil nesses últimos meses.”

Usuários denunciam escassez de serviços

Ter de acordar mais cedo, às vezes até de madrugada, para conseguir condução para o trabalho, é uma das principais queixas dos usuários do transporte público coletivo de Juiz de Fora no último ano. Chegar atrasado ao trabalho, passar horas esperando no ponto de ônibus e enfrentar o coletivo lotado com medo de ser infectado pelo coronavírus também fazem parte das reclamações.

No Bairro Jardim Natal, na Zona Norte, moradores denunciam que estão sem as linhas 607 e 614 que atendiam a comunidade. “Essa situação é uma pouca vergonha. Muitas pessoas que têm dificuldade de caminhar precisam andar até a Avenida JK ou até o Bairro Francisco Bernardino para conseguir pegar ônibus que atendem a outros bairros. As duas linhas que estavam à nossa disposição desapareceram”, indigna-se a moradora Vera Lúcia Campos, que mora no bairro há 35 anos.

A comerciante Luciene Alves, que se locomove com ajuda de muletas, é uma das que encontram dificuldades quando precisa ir à fisioterapia. “É necessário andar uma distância muito grande para conseguir uma condução. Eu tenho que fazer esse percurso de muleta para pegar ônibus ou então pagar por um Uber, o que aumenta os custos do meu tratamento”, afirmou, dizendo que os residentes já haviam comunicado o problema para antiga Settra. Moradora do mesmo bairro, Rejaine Matos diz que tem medo de ser assaltada quando vai para o trabalho. “Eu saio de casa às 5h30 para poder pegar o ônibus na Avenida JK e, nesse horário, a rua está escura e bem deserta, o que me deixa com muito medo de ser roubada.”

O morador Tiago Rocha também teme pela segurança de sua esposa. “Minha mulher trabalha no Centro e precisa pegar a condução muito cedo para não se atrasar. No horário em que ela volta, também é complicado, porque ela precisa descer na JK e andar até nossa casa, no período da noite. As ruas, neste tempo de pandemia, estão ficando muito desertas, e ela tem muito medo. Eu preciso ir até o ponto todos os dias para buscá-la, para que possa se sentir mais segura. Quando a linha 607 funcionava, ela desembarcava do ônibus na porta de casa”, reclama. “Além disso, o bairro tem muitos moradores idosos e é muito complicado para eles ter que fazer esse deslocamento.”

Em setembro do ano passado, reportagem da Tribuna de Minas mostrou as mesmas dificuldades dos usuários, na época. Naquela ocasião, a reportagem ouviu a moradora do Linhares, na Zona Leste, Débora Rodrigues, que reclamou da lotação dos coletivos. “Quando o comércio ainda estava fechado e mesmo com a redução dos horários, os ônibus estavam cheios. Mas, agora, com a abertura do comércio, todos os ônibus e, em qualquer horário, estão lotados. No horário que vou para o trabalho, às 7h, passam três ônibus de linhas diferentes e todos lotados. Quando entro, fico próxima ao motorista e depois não entra mais ninguém, porque não cabe mais”, protestou ela na época. A reportagem voltou a falar com Débora, nesta sexta-feira (5). Segundo ela, a situação só piorou. “Trabalho como auxiliar administrativo e atravesso a cidade para chegar ao meu emprego, no Bairro São Mateus. Agora que as lojas do shopping estão funcionando, os ônibus estão mais cheios ainda. É impossível não ter medo de ficar infectada pelo coronavírus”, disse.

Infectologista alerta para necessidade de aumento da frota

Sobre os riscos gerados pela aglomeração nos ônibus, o médico infectologista Rodrigo Daniel, responsável pelo Setor de Vigilância em Saúde do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pondera e orienta que as pessoas devem deixar juntar as demandas, com objetivo de sair de casa apenas uma vez, evitando ter que ir ao Centro mais vezes. “Juiz de Fora vinha trabalhando com 70% de sua frota de ônibus e, neste cenário atual, é o momento de aumentar o número de coletivos circulando. O número de pessoas na rua é grande, porque há aquelas que precisam sair, fazer seus deslocamentos. Então é preciso que toda a frota esteja maior. Se já está em seu limite, o Poder Público tem que cobrar. E quando todos os ônibus estiverem funcionando, é a população que precisa se conscientizar, evitar sair de casa sem necessidade, para não ter que pegar ônibus. Às vezes, é possível observar famílias inteiras indo às compras e não há necessidade disso”, adverte.

O médico infectologista enfatiza que, no momento, a principal medida contra a Covid-19 é o distanciamento social com o uso regular da máscara.

PJF exige operação de 100% da frota

Em entrevista coletiva realizada, nesta sexta-feira (5), para o anúncio de novas medidas para o enfrentamento à Covid-19, a prefeita Margarida Salomão (PT) informou que será exigido à Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU) que disponibilize para a população a operação de toda a frota de ônibus. A iniciativa consta em decreto publicado pelo Município.

Por meio de nota, depois do anúncio da PJF, a Astransp afirmou receber “com espanto a notícia do retorno de 100% da frota do município”. Reforçou ainda que o sistema está com mais de R$ 70 milhões de prejuízo desde o início da pandemia, devido à grave redução da demanda de passageiros e que tal desequilíbrio já é reconhecido pelo Poder municipal.

Nesse contexto, segundo a Astransp, essa determinação agrava ainda mais o desequilíbrio suportado pelas empresas, aproximando-as do colapso geral do sistema. E que, na prática, já existe um superdimensionamento da frota para o enfrentamento da pandemia, onde a oferta está 70%, e a demanda estaria em 48%. “Essa determinação também não surtirá o efeito desejado, visto que a maioria absoluta das linhas do sistema é composta por apenas um ônibus”, ressaltou.

Sobre o comunicado emitido pela Astransp a respeito dos impactos da crise provocada pela pandemia da Covid-19, a Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU) informou que “a PJF criou um grupo de estudo para remodelar todo o sistema de transporte coletivo urbano da cidade, incluindo avaliar a situação econômica dos consórcios das empresas de ônibus e buscar soluções para oferecer uma melhor eficiência aos usuários”.

A Secretaria informou ainda que “as empresas do transporte coletivo urbano da cidade foram notificadas, nesta sexta-feira, sobre a determinação da prefeita Margarida Salomão do retorno imediato da capacidade máxima da frota de ônibus às ruas”. Ainda de acordo com a pasta, “caso a decisão não seja cumprida, serão tomadas as sanções cabíveis no contrato de concessão”.