Ouça agora

Alianças nacionais engessam base


Por RENATO SALLES

28/04/2013 às 07h00

Os acordos costurados em nível nacional por motivos eleitorais ou pela chamada governabilidade são corriqueiros na política brasileira. Não raramente, a prática engessa as movimentações de diretórios estaduais e locais que muitas vezes são obrigados a assimilar os acertos goela abaixo, contrariando os anseios da própria militância e expondo a fragilidade das bases. Exemplos não faltam. O mais evidente nos últimos anos é a parceria entre PT e PMDB, que conduziu a presidente Dilma Roussef (PT) e o vice-presidente Michel Temer (PMDB) ao Palácio do Planalto em 2010. O conchavo acertado em Brasília praticamente sepultou a intenção dos petistas mineiros de lançarem Patrus Ananias ao Governo de Minas Gerais. À época, Patrus caminhou como candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Hélio Costa (PMDB). A composição fracassou nas urnas e viu o governador Antonio Anastasia (PSDB) vencer no primeiro turno, garantindo aos tucanos o terceiro mandato consecutivo no estado. A contrapartida peemedebista não demorou a acontecer. Dois anos depois, o deputado federal Leonardo Quintão abriu mão de sua candidatura, e o partido indicou o também deputado federal Aloísio Vasconcelos como coadjuvante de Patrus na corrida pela Prefeitura de Belo Horizonte. Nova derrota no primeiro turno, dessa vez, para Márcio Lacerda (PSB).

O PT nacional não demorou a acertar a fatura com o PMDB mineiro pelo apoio a Patrus em 2012 e, este ano, substituiu Mendes Ribeiro Filho (PMDB-RS) por Antônio Andrade (PMDB-MG) no Ministério da Agricultura. A quitação da dívida, entretanto, não significa necessariamente um final para o interminável "Bolero de Ravel". Os dois partidos estão praticamente fechados pela reeleição da presidente Dilma, o que, mais uma vez, pode forçar as duas legendas a correr juntas em Minas, em torno do nome do ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT), que já fala como pré-candidato ao Governo. Caso o desfecho se confirme, a vítima da vez será o senador Clésio Andrade, que, no ano passado, trocou o PR pelo PMDB tendo em mente a possibilidade de encabeçar chapa na disputa pelo Executivo de Minas nas eleições do ano que vem.

Cientista político da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Paulo Roberto Figueira lembra que, primordialmente, os partidos são organizações nacionais e podem intervir em diretórios de estados e de municípios. Porém, entende que tais práticas fomentam situações de desconforto. "Há uma dimensão federativa na política brasileira que não pode ser simplesmente ignorada. Ou seja, a dinâmica política tem especificidades estaduais e municipais que precisam ser consideradas. Não há solução simples para o problema, o que exige ainda mais esforço de diálogo entre as distintas instâncias. Por um lado, é preciso que os partidos tenham consistência (ideológica, programática e de alianças) em escala nacional. Por outro, é preciso que haja alguma margem de negociação para dar conta dessas especificidades estaduais ou municipais."

Segundo Figueira, para uma política partidária saudável, é preciso que as legendas busquem um meio-termo nas relações entre si e com suas bases regionais. "Por um lado, dar total liberdade para os partidos fazerem nos estados e nos municípios o que bem entenderem – inclusive comprometendo as alianças nacionais – constitui prática cuja consequência é nefasta e ajuda a compreender por que os partidos têm tão pouca consistência hoje. Por outro lado, o enquadramento absoluto às orientações nacionais, sem um mínimo de espaço para dar conta das dinâmicas específicas em estados e municípios, pode produzir danos terríveis. Um exemplo foi a intervenção feita pelo PT nacional no Rio de Janeiro em 1998, quando se anulou a convenção estadual que tinha definido a candidatura de Vladimir Palmeira, para obrigar o PT fluminense a apoiar Garotinho, então no PDT, em troca da indicação de Brizola como vice na candidatura presidencial Lula."

De acordo com o especialista, o PT do Rio ainda sente os efeitos da intervenção, provocados pela perda de militantes para outras siglas. "A consolidação do PSOL no Rio, em meados dos anos 2000, passa também pelas reminiscências daquele episódio."

 

Eleição pode aproximar opositores

A Câmara viveu dias de tensão em abril. Alguns discursos expuseram as fragilidades dos diretórios e de lideranças municipais na formação do cenário que irá definir as composições para a disputa do Governo de Minas e da Presidência, além das vagas na Assembleia e no Congresso. Em um desses casos, a declaração de guerra do vereador Wanderson Castelar (PT) ao Governo do prefeito Bruno Siqueira (PMDB) e à Mesa Diretora do Legislativo, presidida por Julio Gasparette (PMDB), expôs as rusgas entre os braços locais dos dois partidos. Os desencontros se intensificaram desde o pleito do ano passado, quando a deputada federal Margarida Salomão (PT) acabou derrotada em segundo turno. A beligerância de Castelar levou Gasparette a fazer um desabafo durante um discurso no plenário do Palácio Barbosa Lima. "Estava propício a respeitar meu partido em nível nacional. Mas cogito defender que o PMDB tenha um candidato próprio. Não há como caminhar de forma conjunta dessa maneira", disparou.

O rompante do peemedebista, porém, corre o risco de ficar só na ameaça, já que o PMDB nacional está praticamente fechado pela reeleição da presidente Dilma Roussef (PT), o que potencializa as chances de as duas siglas caminharem lado a lado na disputa pelo Palácio Tiradentes, em torno do nome do ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT). Apesar dos posicionamentos discordantes de lideranças juiz-foranas, os dois partidos não consideram o fato de estarem em lados opostos na política municipal como elemento relevante para o processo eleitoral de 2014. Para o vice-presidente do PMDB local, Paulo Gutierrez, a aliança nacional é algo praticamente definido, enquanto outras possíveis parcerias permanecem no campo das articulações. "As movimentações visando a disputa pelo governo do estado ainda compõem um cenário de indefinição."

 

Entendimento

Gutierrez não acredita que os recentes desentendimentos públicos entre integrantes dos partidos possam dificultar uma possível aproximação. "Isso é uma postura pessoal, resquício da posição adotada por cada um dentro das duas candidaturas que disputaram a Prefeitura. Não há qualquer coisa que interfira em um possível entendimento. Temos o Flávio Cheker (ex-vereador pelo PT) integrando a Secretaria de Assistência Social. Porém, não estamos pensando nisso agora. O momento é de muito trabalho para a consolidação do Governo Bruno."

O presidente do diretório do PT de Juiz de Fora, Rogério Freitas, defende que não existem desavenças entre as duas siglas. "Dentro de uma democracia madura, existem papéis que devem ser cumpridos. Os dois partidos protagonizaram a disputa pela Prefeitura. Pelo resultado da eleição, a população nos colocou numa condição de oposição pragmática. Estamos exercendo um papel fiscalizador." O petista rechaça qualquer tipo de antagonismo entre as legendas no município e reforça o entendimento de que a parceria deve ser mantida em nível nacional. "No cenário estadual, uma aproximação também é possível, já que existe uma boa relação."

 

Vereador reclama de fusão partidária

Outro que se sente amarrado por uma decisão que vem de cima para baixo – neste caso, já consumada – é o vereador Isauro Calais (PMN). Durante a semana, o parlamentar reclamou da decisão das lideranças nacionais de seu partido e do PPS, que firmaram um acordo de fusão para a criação de uma nova legenda, o partido Mobilização Democrática (MD).

Isauro afirmou que o acordo não respeitou seus filiados, já que não houve uma consulta às bases. "É assim que um partido quer ser grande? Sem respeitar seus militantes?", questionou no plenário da Câmara. A mudança também atinge o vereador Cido Reis (PPS).

Mais votado nas últimas eleições com 5.127 votos, Isauro já havia iniciado um trabalho de triagem pensando na composição de uma relação com possíveis candidatos do PMN para a eleição do ano que vem, trabalho que pode ter sido em vão. "Estou triste. Não sei que rumo irei tomar ou o que aquelas pessoas que me seguem irão fazer. A única certeza é de que não pretendo tomar uma decisão precipitada."

Após o anúncio da fusão no último dia 17, as lideranças do novo partido já deram início ao registro do MD no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Tão logo a inscrição seja consumada, os políticos filiados ao PMN e ao PPS terão 30 dias para definir se seguem no Mobilização Democrática ou se buscam uma nova casa, sem riscos de perda de mandato.