Em busca de público
Lado a lado tem todos os ingredientes para ser uma novela de sucesso: história bem escrita, conflitos instigantes, trilha sonora recheada de clássicos da MPB e ótimas performances de atores consagrados, como Milton Gonçalves, Patrícia Pillar e Camila Pitanga. No entanto, o folhetim de João Ximenes Braga e Claudia Lage tem se revelado um fracasso de audiência. O próprio planejamento da novela pode ser responsabilizado por seu mau desempenho. Para começar, o enredo é extremamente adulto e não dá espaço para um núcleo cômico – quase essencial para uma novela das seis. A história aborda o preconceito vivido pelos negros após a abolição da escravatura, mas não investe em cenas mais leves em contrapartida à seriedade desse tema.
Outra estratégia arriscada foi exibir a cena em que Isabel, umas das protagonistas da novela, vivida por Camila Pitanga, dá a luz a seu filho em uma sexta-feira. Dia em que a audiência das novelas já costuma ser menor, o que diminuiu as chances de repercussão de um dos principais acontecimentos da trama. Por essas e outras, Lado a lado tem registrado média de 14 pontos em dias de semana, situação que a Globo não enfrenta desde o fiasco de Negócio da China, de 2008.
Entretanto, a direção da novela já vem tentando amenizar a falta de público com algumas mudanças técnicas. Uma delas é a fotografia comandada por Walter Carvalho. No começo, a novela era gravada com uma iluminação mais amarelada, para dar o aspecto de antigo à produção. Agora a ordem é por mais cores nas cenas. A edição da trama também passou por modificações. E os capítulos ficaram com um ritmo um pouco mais acelerado. A entrada de Alessandra Negrini como Catarina também é umas das apostas da emissora na conquista da audiência. A personagem trará conflito para a história, abalando o casamento dos protagonistas Edgar e Laura, interpretados por Thiago Fragoso e Marjorie Estiano.
Mesmo com o problema de audiência e os pequenos erros cometidos, Lado a lado tem se mostrado uma produção digna de ser assistida. Todos os núcleos encontraram o tom certo para trabalhar suas histórias. Enquanto Isabel e Zé Maria, de Camila Pitanga e Lázaro Ramos, continuam separados por causa da gravidez da moça, o outro casal protagonista, Edgar e Laura, emociona pela cumplicidade e paixão surgidas após seu casamento. Um dos aspectos positivos da trama é priorizar o lado humano de seus personagens. Um exemplo disso é a reviravolta no discurso racista de Constância, vivida por Patrícia Pillar, após segurar seu neto mestiço nos braços. A vilã, que planejava matar a criança bastarda para evitar sujar o nome de sua família, acaba entregando-se aos instintos maternais de avó e protegendo o bebê.
A trilha sonora da novela também é bem trabalhada e finamente selecionada. Com canções que, mesmo contemporâneas, dialogam com a temática pós-abolicionista da trama. Qualquer imagem ganha em emoção ao ser sonorizada com um samba do quilate de O mundo é um moinho, de Cartola, na interpretação definitiva de Beth Carvalho. As sequências embaladas por canções mais urbanas de Los Hermanos e Marcelo D2 também soam simpáticas e ainda diferenciam a trama dos usuais folhetins de época, algo parecido com o que a cineasta Sofia Coppola fez em Maria Antonieta, de 2007, onde misturou imagens de época com músicas de bandas alternativas como The Strokes e The Cure.
Nas próximas semanas Lado a lado vai sofrer uma passagem de tempo de seis anos. Isabel estará voltando de Paris, com um visual mais sofisticado. Edgar e Laura vão estar separados. E o neto de Constância já será um menino crescido. A expectativa da emissora é que esse pulo na tempo possa resultar em uma segunda chance para a trama.
Lado a lado – segunda a sábado, às 18h20, na Globo.









