Nelson, cada um tem o seu
O grito fundo e rouco de Roberto, ouvido enquanto Nelson Rodrigues descia as escadas, ecoou sem fim dali em diante, pontuando as tragédias costuradas à máquina de datilografar. Falta de ar, úlcera e tiro protagonizam o teatro, o romance e os contos rodriguianos como um reflexo da vida. "Tudo o que transformou a existência de Nelson foi para sua escrita", menciona Maria Lúcia Campanha da Rocha Ribeiro, especialista na produção do autor, que, aos 17 anos, assistiu ao assassinato do irmão.
No próximo dia 23, o "anjo pornográfico" completaria cem anos. Por todo o país, relançamentos, espetáculos e mostras festejam o homem e a obra. Integrando as comemorações, a Tribuna lançou um desafio a atores locais: viver um personagem típico de Nelson em um ensaio fotográfico. Na matéria que continua na página 5, Fabrício Sereno, Gustavo Burla, Marcos Marinho e o Grupo de Pesquisa em Interpretação e Experimentação Cênica, coordenado por Renata Rodrigues e Gabriela Machado, remontaram, com olhar pessoal, o universo do "maldito". A proposta também faz referência ao Dia Mundial da Fotografia, comemorado neste domingo.
Segundo Maria Lúcia Ribeiro, o cotidiano trivial do escritor, com mulher e filhos, foi deixado de fora das criações. Suas opiniões sobre política e sociedade, entretanto, são evidenciadas sem receios a partir de uma postura polêmica e bem-humorada. "Nelson possuía um tom de ironia bem brasileiro, ainda pouco compreendido. Era um moralista debochado", diz a especialista. E completa: "ele mostrava o esgoto das emoções humanas, o espírito de contínuo próprio do homem comum, de quem se derrota antes de lutar."
A faca e o queijo na mão
Apesar da relação entre obra e dramas reais, Nelson não deve ser levado tão a sério. Assim salienta Maria Lúcia Ribeiro, discordando da ideia, de acordo com ela, pornográfica, atada e escandalosa construída pela TV. Na opinião do professor da Uerj Victor Hugo Adler Pereira, porém, as leituras atuais têm buscado valorizar o jogo simbólico e a surpreendente manipulação das situações e dos personagens. Conforme observa o acadêmico, se vivesse hoje, o dramaturgo talvez surgisse como uma figura mais radical e irreverente, provocando a reflexão sobre as mudanças desvinculadas de atitudes analíticas. Maria Lúcia concorda: "na atualidade, ele estaria com a faca e o queijo na mão".
Para Sonia Rodrigues, filha do escritor e organizadora do livro "Nelson Rodrigues por ele mesmo", é impossível imaginar o jornalista nas redações modernas. "Ele nem conseguiria emprego", brinca, apontando o temperamento crítico do pai. Um dos principais desafios enfrentados durante sua pesquisa foi "limpar", nas entrevistas dadas por Nelson, o ar acusatório escolhido pelos repórteres. "Muitas vezes, eram moças indignadas com a frase ‘mulher gosta de apanhar’ ou rapazes de esquerda, insatisfeitos com uma postura tida como reacionária."
Segundo o professor Victor Hugo, o "flor de obsessão" era marqueteiro de si mesmo e erguia com habilidade e oportunamente uma persona pública. "De início, promoveu sua imagem de ‘musa carrancuda’ do modernismo teatral brasileiro, vinculando sua peça ‘Vestido de noiva’ (1943) às pretensões de se ver surgir, enfim, um dramaturgo que trouxesse ao país as tendências vanguardistas há muitas décadas presentes nos palcos europeus."









