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‘Nenhum rio é de uma cor só’


Por RAPHAELA RAMOS

30/05/2012 às 07h00

Uma vizinha, muito branca e de longas tranças vermelhas, enxergava borboletas nos ombros das pessoas. Ainda criança, Marcos Marinho se lambuzava com aquela poesia. Envolto por quintais e hortas, o menino do interior entendeu que nenhum rio era de uma cor só. Na maturidade, aproveitou-se desses muitos matizes para produzir arte e definir seus valores. Certa vez, o costume da tal vizinha, Dona Inês, foi parar em uma canção. "A letra sempre esteve pronta. Eu apenas a fisguei", adverte. O juiz-forano, que passou a infância e a adolescência no Bairro Grama, participou como convidado, na última semana, do projeto "Diálogos abertos". Promovida pelo Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) desde 2007, a iniciativa arquiva em DVD depoimentos de personalidades variadas e depois os leva para livros.

O passado de Marinho ressurgiu com detalhes ao longo da entrevista, justificando suas escolhas. "As coisas da infância alimentam a gente, muito antes de qualquer decisão." Da vivência nos circos de bairro, o ator carrega o gosto pela música brega e a vocação para palhaço. Da passagem pelo Seminário Santo Antônio e pelo Mosteiro de São Bento, no Rio, veio a descoberta dos rituais. O primeiro apelido de escola, adquirido graças a um poema, já dava pistas dos voos futuros: "passarinho".

Até hoje soa nos pensamentos do multiartista o timbre das procissões, das festas na roça. "Coroei Nossa Senhora, fui São Francisco. O branco, o azul e o marrom são cores que sempre me pegam", observa Marinho, que chegou a conhecer o boiadeiro Manuelzão em uma excursão pelas cidades nas quais Guimarães Rosa se baseou para escrever "Grande Sertão: Veredas".

Um leão por dia

A chegada do encantamento pelo teatro tem data marcada. Diante do grupo Sensorial, de Henrique Simões, Marcos Marinho teve um choque. O mesmo aconteceu, em seguida, ao ver o Divulgação, de José Luiz Ribeiro, e o ator Robson Terra, quase nu, em um desfile de carnaval. Epifanias que o juiz-forano soube aproveitar muito bem, desde sua estreia em 1983. "Sou um cara de sorte. Fui vizinho do artista plástico Renato Stehling e tive contato com um padre francês, um furacão, que fazia radionovela na igreja."

O tal pároco não mostrou qualquer espanto ao ouvir que o ajudante queria ir para o seminário. "Aprendi muito lá dentro. A vida acontece ali, inclusive as disputas humanas", comenta o diretor, salientando uma das lições: não se pode cozinhar demais os projetos a ponto de as pessoas perderem a fome. Muitos desses ensinamentos se deslocam para o território teatral. Ao dirigir Ricardo Martins e José Eduardo Arcuri em "Pela noite", de Caio Fernando Abreu, Marinho começava os ensaios fazendo os atores esfregarem o chão. "Isso tudo é importante na formação do ser humano."

Para o entrevistado, em qualquer lugar do Brasil, mata-se um leão por dia para viver de arte. Com ele nunca foi diferente. Apesar de hoje estar mais atento às questões práticas da rotina, ainda se chama de bobo, pois não tem medo de continuar. Simplesmente segue fazendo. "Talvez essa seja uma cobrança para alguns companheiros. Nunca parei por falta de dinheiro. Se não há convicções, é fácil desanimar", apregoa, apontando a maleabilidade do teatro, arte que aceita o tecido mais caro, mas também o pano vagabundo da loja de esquina. Outro chamamento diz respeito aos estudos. Segundo Marinho, ainda falta por aqui o interesse por pesquisas e por um fazer que crie "problemas". Mesmo assim, garante ele, montagens criativas vêm surgindo pelos palcos locais.

De 1989 a 2001, Marinho dirigiu o extinto grupo Embaixo do Céu, do Sesi-MG, uma proposta que formou muitos artistas. Quando montou o Mezcla, tempos depois, ele também pensava em oferecer aos pares um espaço onde se pudesse colocar a mão na massa. Sobre a afeição à cultura latino-americana, o juiz-forano conta que ela começou na época do curso de filosofia. Com a viagem à Cuba, a proximidade aumentou. "Conheci a diretora do departamento de teatro da Casa de las Américas. Desde então, passei a ser orientado nos assuntos de dramaturgia latina e a abastecer bastante o projeto Teatro Lido, que já é conhecido em 15 países." Nesse ponto, os motivos também retornam à infância. O ator ficava fascinado ao ver os artistas de falso sotaque castelhano nos antigos circos.

Grande sucesso, o espetáculo "Meu dia perfeito", com direção de Ricardo Martins, visitou países como Chile e Equador. Em cena, Senhor M usa apenas o gramelot, uma linguagem ininteligível que exibe sonoridades parecidas com as de cada idioma. Para cunhar o personagem, Marinho lançou mão das técnicas de clown. Aliás, há pouco tempo ele descobriu seu palhaço, Zé Boléo, em um trabalho ao lado do diretor e pesquisador carioca Marcio Libar. Não foi fácil perder as cascas até chegar à figura, num processo de dor e aceitação. Zé Boléo integra a trupe da Caravana de Palhaços.

São os riscos o que Marinho mais busca na arte. E na vida. "Já perdi dois dentes por fugir de policiais à cavalo durante a ditadura." Algumas certezas o ator faz questão de passar adiante: "o que sobra do teatro é o encontro" e "em nenhuma situação, preciso ofender o outro". Mas como resistir ao mundo e não se perder? O artista não sabe. Para ele, é natural ter olhos de poeta. "A poesia não está em mim, está na vida. Sou apenas sortudo por enxergá-la", insiste.