Usina de cultura
Uma fábrica que teceu a indústria e se tornou a motriz da Manchester Mineira. Por muitos anos, a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas, que começou a funcionar em maio de 1888, sendo a primeira a utilizar um motor elétrico Westhinghouse no país, carregou os pilares da industrialização da cidade. Os anos se passaram, e as turbinas pararam de girar. O abandono do prédio legado às intempéries do tempo deu lugar hoje a um centro de cultura, cuja história em sua linha do tempo pode ser relembrada em fotografias expostas na mostra "Mascarenhas 25 anos", em cartaz na Galeria Narcisse Szymanowsky do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), até 14 de outubro, com curadoria de Guy Schmidt.
Transformar as velhas paredes daquele prédio imponente no Centro da cidade não foi, porém, tarefa fácil ou rápida. A ideia gerou um dos movimentos mais lembrados e significativos para a classe artística local. "Mascarenhas, meu amor!" foi uma campanha de artistas, jornalistas e intelectuais de Juiz de Fora e do país, ocorrida no início da década de 1980, até que, em 30 de julho de 1983, artistas locais, acompanhados de nomes como Rubem Fonseca, João Guimarães Vieira, Affonso Romano de Sant’Anna, Dnar Rocha, Marina Colassanti, os irmãos Bracher (Carlos, Nívea, Décio) e também Fani Bracher, além de Rachel Jardim, se reuniram ao redor do Cine-Theatro Central para reivindicar a transformação da velha fábrica de tecidos Bernardo Mascarenhas em "moradia cultural" para a cidade.
O momento político, segundo o pesquisador Jorge Sanglard, um dos fundadores do movimento, foi propício para todos os acontecimentos que se sucederam. Segundo ele, a transição municipal, entre os ex-prefeitos Mello Reis e Tarcísio Delgado, fez com que a classe artística se mobilizasse para apresentar suas demandas ao Governo seguinte. "Fizemos uma série de debates, por área, na rádio PRB3, para o programa ‘Flagrantes, opinião e debates’, do José Carlos de Lery, sobre como deveria ser a política de cultura do município, que resultou em matérias para a Tribuna aos domingos. Ainda segundo Jorge, um abaixo-assinado rodou a cidade e foi entregue ao então governador Tancredo Neves. Outro fundador do movimento, o artista e professor Henrique Simões destaca o ambiente político nacional, com o país ainda vivendo a ditadura militar, como ponto relevante. "Era uma época em que havia muita união. As pessoas tinham a ideia clara de que, unidas, tinham mais força. Além disso, a população abraçou a campanha pela sua própria ligação com a fábrica. Quase todo mundo tinha um parente que trabalhou lá. Acho também que o povo sabia da necessidade de um espaço cultural."
Depois de movimentar a classe artística, foi a vez, segundo Henrique Simões, de "botar o bloco na rua". Em 30 de julho de 1983, munido de cartazes, o povo saiu no bloco "Mascarenhas, meu amor!", que desceu a Rua São João e foi para a porta da antiga fábrica. Também à frente do movimento, o diretor teatral Gueminho Bernardes lembra o simbolismo daquela caminhada pelo Centro da cidade. "Quando a passeata aconteceu, a batalha já estava nos momentos finais. Foi a consagração, a cereja do bolo. Lembro-me de todos os figurões, políticos, e acho importante porque deram força e projeção. Mas quem ganhou a luta mesmo foram os peões. O que fica para sempre é a foto." Uma imagem que integra a exposição registra o final da passeata. "Quando vi que iam tirar uma foto estiquei a cabeça, pois sabia que aquilo ia ser guardado para sempre na história da cidade", conta Gueminho.
Para Henrique Simões, a lembrança maior daquele dia está na afetividade do povo ao abraçar a causa. "É o que você leva consigo. Foi colocado uma causa ampla, e os afetos se transformaram em questões perenes." Autor de uma maquete do CCBM presente na mostra, o artista plástico e professor Ramón Brandão guarda firme na memória todos os acontecimentos daquele dia. "Minha participação com os amigos foi como militante. Não entramos nas tomadas de decisão. Estávamos lá para ‘carregar o piano’, distribuir os panfletos e fazer parte do todo. Sabíamos o que queríamos." Ele diz ainda que, com 18 anos e começando a trilhar seu caminho na arte, via deslumbrado a oportunidade de abraçar a mesma causa de nomes que admirava, como os Bracher. "Com o movimento participamos da cultura não somente como espectadores, mas como agentes modificadores."
O movimento resultou, quatro anos mais tarde, na abertura do Centro Cultural, em 31 de maio de 1987. Vinte e cinco anos depois, o atual diretor do espaço Guy Schmidt acredita que o centro segue cumprindo com os princípios do "Mascarenhas, meu amor!", já que permanece como um local democrático em que muitas pessoas têm ali seu primeiro contato com a arte. "O CCBM é uma válvula de escape para muitos artistas. A procura é diária de pessoas querendo fazer nele seus eventos." Acima de tudo, Guy pontua o caráter público do local, ocupado por meio de editais e cujos projetos são aprovados por um colegiado. Guy destaca também a importância de os eventos e cursos do CCBM serem gratuitos.
De acordo com o diretor, a mostra "Mascarenhas 25 anos" continua aberta para receber novas fotos e informações que possam contribuir para o resgate da memória do CCBM e de todas as expressões artísticas abrigadas por ele. O material pode ser enviado para o e-mail [email protected] ou entregue pessoalmente no setor administrativo do CCBM.
MASCARENHAS 25 ANOS
Visitação de terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 16h. Até 14 de outubro
Galeria Narcisse Szymanowsky
do CCBM
(Av. Getúlio
Vargas 200)









