Realismo do novo século
A tendência subjetiva e intimista da literatura contemporânea, que se envereda pelas reflexões em busca de um ponto de contato entre autor e obra, sofre uma reviravolta na escrita de Ana Paula Maia. A carioca de 35 anos é a convidada deste sábado do projeto Ave Palavra, promovido pela livraria A Terceira Margem. Aprovado pelo edital de Programação Cultural de Livrarias, do Ministério da Cultura, e financiado pelo Fundo Nacional de Cultura, o projeto já trouxe à cidade os escritores Luiz Ruffato e Tatiana Salem Levy e promove, até dezembro, encontros com escritores representativos da literatura contemporânea brasileira. "Em sua escrita, dura e cruel, Ana Paula nos leva a refletir sobre as mazelas sociais não por meio de suas próprias reflexões, mas através das ações de seus personagens", aponta o escritor local, professor e doutor em literatura Darlan Lula, que fará participação especial no evento. "Isso faz com que sua escrita seja limpa de parcialidade e demonstra um grande domínio literário."
"Há cenas que a literatura não tolera, mas é preciso entender muito de ficção, realidade e representação da realidade para poder escrevê-las", escreveu "O Globo", sobre a escritora. "Escrevo sobre aquilo que me causa repúdio, sobre coisas que eu não suportaria. A minha literatura nasce por temores. Eu escrevo por medo", afirmou Ana Paula, em entrevista recente. Ao publicar, em 2006, o primeiro folhetim pulp da internet brasileira, em 12 capítulos, a autora ganhou fama nacional e estampou alguns dos jornais mais influentes do país. "Ela traçou um caminho contrário ao habitual. Primeiro chegou aos leitores para, só em seguida, se vincular às editoras", pontua Darlan.
Entre suas publicações, estão "O habitante das falhas subterrâneas" (7 letras, 2003) e a trilogia "A saga dos brutos", iniciada com as novelas "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos" e "O trabalho sujo dos outros" (volume único), "A guerra dos bastardos" (Língua Geral, 2007) e concluída com o romance "Carvão animal" (Record, 2011) – obra que será autografada no evento. "No fim, tudo o que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem você é. O melhor conselho é que o indivíduo preserve os dentes mais que a própria dignidade, pois a dignidade não dirá quem você é, ou melhor, era", escreve Ana Paula no primeiro capítulo dessa última obra. A autora também possui contos publicados em diversas antologias, entre elas "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (Record, 2004) e "Sex’n’Bossa" (Mondadori, Itália, 2005).
Para Darlan, o trabalho de Ana Paula Maia vai além do rótulo pulp. "Ela se apropria do realismo e do naturalismo do século XIX e dá a eles uma nova roupagem, do século XXI, que resolve alguns problemas estéticos", avalia. Um deles seria a crítica de que os personagens atuariam, muitas vezes, como fantoches, dominados pelos narradores. "Na obra de Ana Paula, os personagens são amorais, cruéis, mas apresentam uma humanidade, graças à força narrativa poderosa e audaciosa da autora", acrescenta. Em "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos", a autora apresenta o realismo de personagens que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros.
Outra característica reformulada é a narração que se desenrola na voz de alguém favorecido, que vê "de cima" a situação de quem está "embaixo". "Neste caso, quem narra e quem sofre a ação estão lado a lado", completa. O escritor compara a força narrativa do personagem Edgar Wilson, recorrente nas obras da carioca, com o visceral Mandrake, de Rubem Fonseca. "Guardando as devidas proporções, são personagens poderosos, que podem ser explorados de formas interessantes", destaca o autor de "Pontos, fendas e arestas" (Funalfa Edições, 2002), "Viera tarde" (Nankin e Funalfa Edições, 2005) e "Desvios" (7 letras e Funalfa Edições, 2008), que atualmente trabalha em seu primeiro livro de contos.
A escrita mais sóbria, que, ao mesmo tempo, consegue abarcar leitores leigos ou especializados, é a forma perseguida por Darlan no amadurecimento de sua trajetória. "A literatura não precisa da academia, de uma linguagem rebuscada e longe do leitor, para sobreviver. Teorias demais podem atrapalhar. Acredito na tradição literária, que preza pela qualidade e busca a dinamicidade da escrita contemporânea."
AVE, PALAVRA
Encontro com Ana Paula Maia e Darlan Lula
Sábado, às 15h
A Terceira Margem
(Galeria Pio X loja 127). 3216-7320









