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Pesquisador discute o cinema popular brasileiro


Por Renata Delage

27/06/2012 às 07h00

  Remier Lion não vê problemas em assumir uma personalidade "do contra". "Para ser sincero, bastante do contra", corrige. "Há 20 anos, dedicar à pesquisa do cinema popular brasileiro era se condenar a ser jogado na ‘lata do lixo da história’ com ele", avalia, apropriando-se da expressão criada pelo "Pasquim". Rotulado como "subcultura" – no sentido mais pejorativo da palavra -, o cinema nacional popular, pensado e produzido para atender às expectativas do grande público, foi imediatamente condenado pela crítica e excluído pelos pesquisadores da época. "Isso prejudicou muitas iniciativas importantes e destruiu a carreira de diversos artistas", observa o pesquisador, convidado da segunda edição do "Cinema em foco", do projeto "Cinemamm", que acontece nesta quarta, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes.

  O evento é uma parceria do museu com o grupo de pesquisa "CPCine – História, estética e narrativas em cinema e audiovisual" e com os professores do Curso de Cinema e Audiovisual do Instituto de Artes e Design da UFJF. Durante a palestra, serão exibidos trechos de filmes que compõem um panorama do cinema popular produzido no Brasil até a década de 1980, produção sem qualquer investimento ou incentivo direto do Estado.

  Sem formação universitária e motivado pela curiosidade, Lion se enveredou na contramão dos estudos acadêmicos realizados no início dos anos 1990. O trabalho em instituições voltadas à memória e à preservação de filmes – como a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nos arquivos de documentação dos Estúdios Cinematográficos Cinédia e na programação de filmes na Cinemateca Brasileira – instigaram ainda mais o pesquisador a inclinar-se ao "underground". Seu convívio com cineastas como Ivan Cardoso, Julio Bressane e Rogério Sganzerla, sendo colaborador eventual desses diretores em algumas produções, foi fundamental para sua pesquisa.

  O que de fato condenou os filmes populares ao esquecimento, segundo Lion, não se vincula à precariedade moral, estética ou temática, mas ao elitismo. "São questões ligadas à sociedade de classes, que impera no Brasil até hoje. Existe o padrão da ‘arte’ feita para elite e da ‘arte popular’, feita para o que resta", ironiza. Na visão do especialista, a energia criativa e a capacidade de comunicação de algumas produções, ditas "marginalizadas", são superiores às de muitos clássicos da história oficial do cinema brasileiro.

Popular independência

  "A perspectiva da produção popular, voltada à bilheteria lucrativa e feita pelo artista que buscava seus próprios recursos, foi quebrada pelo Cinema Novo e seus projetos autorais, artísticos, que não tinham compromisso em satisfazer o gosto do público", explica. "Mas, ironicamente, foi sobretudo esta galera que se infiltrou na máquina estatal e, em 20 anos, destruiu as possibilidades do cinema independente", dispara Lion, sem poupar críticas ao soberano modelo cinematográfico que só progride a partir das leis de incentivo à cultura. "O cinema subsidiado pelo Estado foi sufocando a produção independente, e, hoje, é quase a única maneira de se fazer cinema no Brasil." 

Durante a última década, Lion se dedicou a organizar mostras, sem qualquer tipo de patrocínio, que colaboraram para a ressignificação de um cinema duramente criticado pelos círculos de investigação universitários. "Tivemos que ‘cortar um dobrado’ para fazer acontecer", resume, apontando como únicos colaboradores do projeto amigos sensíveis à causa e colecionadores que cederam filmes de seus acervos. "Tudo que se rotula de ‘censura estética’, na verdade, se baseia nos interesses econômicos", sintetiza.

 O sucesso de crítica e público dessas mostras impulsionou novos projetos de exibição, como o cineclube "Malditos filmes brasileiros!", realizado em 2004, na Casa França Brasil, no Rio de Janeiro, além de uma série de mostras realizadas em parceria com a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, como "Proibido para menores – Os maiores clássicos da Boca do Lixo", em 2005, e a maratona "Malditos filmes brasileiros!", destaque da programação da primeira edição da Virada Cultural de São Paulo, no mesmo ano. As iniciativas colocavam em foco a diversidade de temas, abordagens e estilos cinematográficos populares, ultrapassando a simplória divisão entre os gêneros "chanchadas" e "pornochanchadas".

CINEMA EM FOCO

Palestra sobre o cinema popular brasileiro produzido até os anos 1980, com Remier Lion, às 19h

Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)