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Para brotar futuro


Por RAPHAELA RAMOS Repórter

18/09/2012 às 07h00

Esses sete meses foram como a vida de uma mulher. Houve briga, choro, riso, lição. E, ao final, tudo deu certo. A poética comparação, imaginada pela adolescente Vitória Aparecida Pereira da Silva, de 13 anos, sintetiza o intenso processo vivido por um grupo de 12 estudantes que integram o projeto Sobre raízes – memória e identidade cultural no Dom Bosco a partir de um auto-olhar, apoiado pela Lei Murilo Mendes. A metáfora de Vitória talvez se explique pelo maior número de meninas envolvidas: dez. Temos apenas dois garotos. Perdemos os outros para o futebol, brinca a coordenadora Aline Nery, mestre em Ciências Sociais pela UFJF e professora-tutora do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed). Aline integra a equipe técnica ao lado de Flávia de Paiva Paula, graduada em artes pela UFJF.

Aliás, foi mesmo por conta da bola que a dupla masculina não participou do bate-papo com a Tribuna na última semana (12/09). Em uma sala repleta de fotos, recados e recordações, a trupe narrou os melhores momentos da jornada. Ao todo, foram realizados 64 encontros no Grupo Espírita Semente, sempre às quartas – 32 com cada turma, uma da manhã e outra da tarde. A festa de encerramento aconteceu no último sábado (15/09).

Em março de 2013, serão lançados mil exemplares de uma caixa contendo 20 postais, folder e DVD com making of da proposta. Nos postais, estarão impressas imagens e trechos de entrevistas com pessoas que, de alguma maneira, elucidam aspectos representativos do Dom Bosco na visão dos adolescentes. Grande parte desse material deve retornar ao bairro a fim de ser compartilhado. Afinal, estamos falando de uma memória social desta comunidade, construída coletivamente pelos jovens a partir de um conjunto de narrativas obtidas por meio da história oral. Os kits serão destinados também à Funalfa e às escolas municipais.

Difícil foi escolher a mais marcante ida a campo. No começo, a gente não sabia bem o que era isso, conta Erika Aparecida Caetano, 14 anos. Até que, com o gravador, a câmera e um roteiro nas mãos, o grupo realizou sua primeira entrevista com a esposa e o dono da pastelaria localizada ao lado do Grupo Espírita Semente. Esse é um ponto simbólico do bairro para nós, justifica Cíntia Cristina dos Santos Souza, 13 anos. A conversa com os proprietários acabou virando festa. Os jovens aprenderam a preparar pastel, experimentaram as delícias do lugar e ainda assistiram a um improvisado show de mágicas.

Segundo Aline Nery, todo o trabalho foi desenvolvido pelos adolescentes. O objetivo principal é que eles possam pensar sobre si mesmos a partir da elaboração coletiva dessa memória, do contato com esse outro, e que o exercício de se auto-olhar contribua para um convívio social mais saudável e o aumento da autoestima. Para chegar a essa dinâmica, com o cronograma apertado roçando os calcanhares, foram necessárias diversas estratégias. Cada participante ganhou um diário pessoal, como o dos antropólogos, para fazer as próprias anotações, trocando ideias com familiares mais velhos e observando os elementos que chamavam a atenção.

Dessa pesquisa sobre o passado, surgiram temas comuns: histórias de assombração, práticas de benzeduras, lembranças de minas onde todos buscavam água, falta de luz e sossego logo no início da noite. Os idosos são uma planta crescida. Conhecem mais as raízes, analisa Cíntia Cristina, lamentando a violência do mundo de hoje. Na opinião de Flávia de Paiva, os integrantes foram descobrindo as riquezas do bairro ao longo do trabalho, a partir da convivência, dos depoimentos de cada um e do envolvimento com a proposta.

Conflito saudável

Outra ferramenta utilizada foi a linha do tempo individual, com marcos desde o nascimento. Trata-se de uma metodologia usada para se pensar a memória. Depois, elaboramos uma linha do tempo coletiva, compartilhando acontecimentos. O homem não se enxerga sozinho, precisa do outro como espelho, ressalta Aline Nery. Quase todos os jovens estudaram na Escola Municipal Álvaro Braga, ou grupinho, e foram atendidos no posto de saúde, o postinho. A infância foi um período marcante para nós, explica Vitória Aparecida.

De acordo com a coordenadora, porém, muitos temas surgidos nas pesquisas com os familiares acabaram sendo substituídos na hora de compor os postais por aspectos mais próximos do universo adolescente. Era preciso que os assuntos ecoassem na vida atual do grupo. Tivemos o desafio de entender a memória não como coisa antiga.

E haja negociação. Cada integrante encontrou uma lista particular de 20 itens a serem levados à caixa. Para não haver briga, foram feitas votações. Segundo Aline, o conflito é saudável por diminuir a distância em relação ao outro. Muitas vezes, a negação de um ponto simbólico vinha do desconhecimento. Existe muito preconceito com o território que não é seu. O Dom Bosco não é homogêneo. Flávia de Paiva complementa que as tribos de diferentes espaços acabaram interagindo entre si e concedendo sentidos diferentes ao ignorado.

Por conta disso, foi necessário ir para a rua e se colocar no lugar do entrevistado: alguém que sempre esteve logo ali. No lixão do Morro dos Cabritos, por exemplo, os adolescentes não conseguiram permanecer por mais de alguns minutos devido ao mau cheiro. O Seu João limpa o lixão pois o caminhão da Prefeitura não chega lá. Faz isso porque quer, não recebe nada. Vimos as dificuldades dele, já que as pessoas não se importam, comenta Yasmin Luiz de Souza, 12 anos.

Multiplicação

Para refletir sobre memória, os jovens aprenderam a fotografar e a filmar em oficinas ministradas pelo jornalista Rodrigo Lobão Gotti, além de terem contato com poesia, cinema, música, alongamento e brincadeiras. A identidade visual foi criada pelo designer Wagner Cosme Marcos Andrade, a partir de conversas e desenhos de logomarcas feitos pelo grupo. Procuramos utilizar estratégias lúdicas como suporte a todas as etapas, salienta Aline Nery.

De acordo com ela, a intenção é que o Sobre raízes se multiplique em outros produtos culturais, pois um vasto acervo de fotos, imagens e depoimentos ficará guardado na gaveta. Um dos sonhos é a realização de uma exposição com essas histórias de vida, adianta a coordenadora. O projeto contou com o apoio do Grupo Espírita Semente, instituição onde são desenvolvidos trabalhos socioeducativos voltados para 75 crianças do Dom Bosco.