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Alegria germânica


Por RENATA DELAGE

05/09/2012 às 07h00

No dia 23 de junho de 1861, uma grande festa foi preparada para receber a família real e sua comitiva, vinda de Petrópolis, para a inauguração oficial da Estrada União e Indústria. Assim, ao som do hino nacional, executado pela banda de música da Colônia, chegou a comitiva imperial à chácara de Mariano Procópio, que estava reservada ao uso dos imperadores e príncipes, relata a obra Mariano Procópio Ferreira Lage: sua vida, sua obra, sua descendência, de Wilson Lima Bastos, publicada em 1961. Por trás dos preparativos da festividade – considerada por alguns a mais antiga manifestação de certa comunidade na cidade – estavam aqueles que ajudaram a construir a primeira estrada de rodagem pavimentada do Brasil. A comunidade germânica, que fincou raízes em Juiz de Fora a partir de 1858, comemora neste ano a 18º edição da Festa Alemã do Bairro Borboleta, realizada pela Associação Cultural e Recreativa Brasil-Alemanha.

Entre quarta e sábado, a festa que já é tradição – não apenas entre os descendentes alemães, mas em toda a comunidade juiz-forana -, homenageia os 140 anos da fundação da Sociedade Alemã de Beneficência. Ativa por mais de 80 anos, a sociedade funcionava como uma previdência privada, oferecendo alguma seguridade aos trabalhadores alemães. Prestava auxílio médico e farmacêutico, ou até mesmo financeiro, em caso de funeral, aos seus associados, reforçando os laços de solidariedade e reciprocidade entre os imigrantes.

A festividade promete manter sua receita original, com boa comida, música e danças típicas. A abertura, na quarta, às 19h30, conta com apresentação do coral infantil da Paineira Escola Waldorf, composto por 44 vozes do ensino fundamental. Além das apresentações dos juiz-foranos do grupo de danças folclóricas germânicas Schmetterling e da banda Schmetterling Kapelle, a festa recebe na sexta, às 19h, pela primeira vez, o grupo de danças folclóricas alemãs Gold und Silber, de São Paulo. O grupo Blumenberg Volkstanz, de Petrópolis, também integra a programação de danças típicas, no sábado, às 19h, e no domingo, às 16h.

Os trajes típicos, usados pelos grupos de dança, são uma atração à parte. Embora sejam confeccionadas por costureiras e artesãos da cidade, as vestimentas trazem todos os detalhes adquiridos em pesquisas em livros e fontes eletrônicas alemãs, assim como da na consultoria da Associação Gramado/Casa da Juventude, de Gramado, Rio Grande do Sul. Os trajes têm como inspiração as regiões de onde vieram parte de nossos antepassados, mais especificamente das regiões de Baden-Württemberg e Bayern, que ficam localizados ao Sul da Alemanha, explica Hanny Franck, membro da coordenadoria de dança do grupo Schmetterling.

A tradicional competição do chope a metro, composta por várias baterias, também é destaque durante os dias da comemoração. Na disputa, sai vencedor quem tomar a bebida, servida em uma grande tulipa de um metro de comprimento, em menos tempo e sem derramar o líquido.

De casa nova

Novidades do evento, segundo o presidente da associação, Viumar dos Reis Duque, serão as oficinas gratuitas de culinária alemã e alimentação saudável para as crianças, ministrada em parceria com o Curso de Tecnólogo em Gastronomia, do CES. Outra parceria que firmamos, foi com a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, através da qual os alunos beneficiados pelo programa ‘Poupança jovem’ estarão envolvidos em nossas atividades culturais, explica o presidente.

Desde janeiro, a entidade presidida por Duque, é sediada na Escola Municipal Elpídeo Corrêa Farias, do Bairro Borboleta. É no espaço que acontecem os ensaios do grupo de danças Schmetterling, bem como da banda Schmetterling Kapelle. Não tínhamos uma sede própria. Poder utilizar o espaço da escola aproximou ainda mais a associação do bairro e possibilita ampliar a participação em nossos grupos e encontros, avalia Duque.

Reconhecimento público

Neste ano, a Festa Alemã foi declarada de utilidade pública, segundo lei sancionada pela Prefeitura. A medida é o primeiro passo para que o evento obtenha o registro de bem cultural de Juiz de Fora. Esse será o segundo ato de reconhecimento público que a cidade presta aos imigrantes alemães, já que o pão típico já obteve o registro há dois anos, diz o presidente do Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly, Roberto Dilly. O presidente lembra que, embora a festa acontece há 18 anos consecutivos, com promoção da Associação Cultural e Recreativa Brasil-Alemanha, a primeira edição foi realizada em 1969 pelo instituto, antes mesmo da famosa October Fest, criada nos anos 1980.

Temos um débito com a inteligência alemã, berço da matemática, da música, da astronomia, entre outras ciências. A primeira grande massa imigratória de Juiz de Fora foi o povo germânico, o que mudou o perfil da cidade de agrícola para industrial, como a vemos até hoje, argumenta Dilly. A festa tem um peso cultural muito forte e proporciona a oportunidade de demonstrar várias facetas da rica cultura germânica. Existe um mito de que o povo alemão é um povo frio, mas isso não condiz com a realidade. A festa traz verdadeira alegria e o sentimento humano alemães.