Humor que permanece vivo
Por 25 anos, nenhuma edição da Tribuna foi publicada sem uma charge de José Bello da Silva, o Bello. Sua morte, aos 55 anos, há exatamente um ano, em 9 de junho, interrompeu a realização de um trabalho inédito que o artista preparava para marcar suas bodas de prata no jornal. Seria a primeira vez que Bello iria mostrar ao público outra faceta artística, com quadros feitos em óleo sobre tela.
Agora, o plano que Bello não conseguiu concluir será levado ao público. Em setembro, uma exposição será montada com as obras que ele deixou, por iniciativa da Tribuna e da Funalfa, em parceria com a família de Bello, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). "É um grande prazer poder levar esse sonho adiante. Além disso, a exposição é uma forma de demonstrar que o Bello ainda está vivo, pois, assim como acontece com todos os grandes artistas, sua obra sobrevive à própria morte", destaca a viúva do chargista, Eliana Bello. O superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, destaca que Juiz de Fora vai ver um trabalho desconhecido de um artista que marcou a cidade com suas charges.
Embora totalmente diferentes do trabalho que Bello realizou como chargista, os quadros trazem o traço forte e o humor característicos dos desenhos do artista. O Flamengo e a música ganham espaço entre os temas das cerca de 20 obras que serão expostas nas galerias Celina Bracher e Heitor de Alencar do CCMB. Sem pintar com frequência, o artista, segundo Eliana, via na pintura a realização de um trabalho feito por puro prazer. "Ele não tinha disciplina ou regras para pintar, o fazia quando tinha vontade. Era uma pessoa de múltiplos talentos, que sempre buscava novos caminhos. Além da pintura e do desenho, já conhecidos, ele tocava diversos instrumentos musicais, principalmente violão, cantava e até compunha. Era um verdadeiro mestre-cuca e também gostava de fazer pequenos vídeos de humor."
Um dos quadros de Bello, inacabado, ficará com sua filha Nicolle. Ele ainda trabalhava na obra no dia em que morreu e, pouco antes, mostrou para a filha. "Para alguns, o quadro está inacabado, mas para mim foi concluído de uma maneira similar à conclusão da vida de meu pai: linda, mas ainda cheia de projetos rabiscados", diz Nicolle, que, assim como Bello, dedica-se ao desenho.
Para ela, contemplar o quadro desperta, além de uma grande ternura, muitos questionamentos. "A atmosfera da cena, que retrata pipas ao vento, é leve e remete à inocência das brincadeiras de criança. Contudo, as notas antigas e encardidas que dão forma a algumas dessas pipas revelam que a mensagem ali embutida não corresponde totalmente a essa inocência, mas diz algo além. Às vezes penso que ele sabia o quão próximo estava o momento de sua despedida, pois suas pinceladas imprimem uma grande pressa."
Como Bello deixou outros trabalhos além destes quadros, para o futuro, a família não descarta outros projetos com sua obra. "A exposição que está sendo organizada será a primeira forma de dar continuidade ao trabalho dele. Ele deixou muito material bacana, que pode ser ainda transformado em livro, ou até mesmo em um site. Porém, como ele mesmo disse uma vez, o importante é que a memória dele sempre estará viva no coração das pessoas que ele tocou, e foram muitas", ressalta Nicolle.









