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Cantos do mundo


Por RENATA DELAGE

31/07/2012 às 07h00

São João del Rei – O grupo Mawaca encontrou uma fórmula para tornar melodias antigas atraentes aos ouvidos contemporâneos. Reunindo cantos de diversos povos, o grupo paulista mistura tradições em um verdadeiro caldeirão sonoro, repleto de mantras, cordéis e círculos. Baseado no repertório do último CD, o show Pra todo canto encerrou o 25° Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ). O frio não foi empecilho para o público, que compareceu em grande número ao palco Kairós na noite do último sábado.

Em seu nome, o Mawaca já traduz a essência de seu trabalho. Segundo a etnia hausa, do Norte da Nigéria, os mawaca são os cantores-xamãs, que recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair a força dos espíritos. Formado por sete cantoras, além de seis instrumentistas, o grupo pesquisa e recria músicas de diferentes etnias do globo, interpretando-as em mais de dez línguas e dialetos, como espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, grego, árabe, hebraico, entre muitos outros.

Não temos o compromisso em ser didáticos. Buscamos liberdade para promover um diálogo aberto entre as culturas e os ritmos, destaca a integrante e diretora musical Magda Pucci. Também responsável pelo trabalho de pesquisa, transcrição e montagem de arranjos dos temas ancestrais, Magda define como desafiadora a apropriação de melodias e letras pertencentes a outros povos. São canções desconhecidas para nós, mas muito emblemáticas aos seus povos de origem. É preciso ouvir muito, para tentar ser fiel às peculiaridades. É muito difícil chegar a um sotaque e a uma entonação exatamente igual à original, por isso sempre exploramos novas maneiras e possibilidades, argumenta.

O público jovem representa, segundo Magda, a grande maioria da plateia que acompanha os shows do Mawaca. Acredito que a nova roupagem dada às canções antigas – que compõem 70% do nosso repertório, também composto por músicas autorais – desperta a curiosidade e torna as músicas tradicionais mais alegres e atraentes, reflete a diretora. À diversidade das canções apresentadas, somam-se os figurinos intensamente coloridos, a iluminação diferenciada e as coreografias típicas.

Sempre em busca de conexões com a música brasileira, o Mawaca surpreende ao inserir samba e tons nordestinos em canções asiáticas ou africanas. As ideias surgem, em sua maioria, no momento do fazer musical. Raramente programamos, logo no início das pesquisas, misturar um ritmo com outro, esclarece Magda. Cada um acaba encontrando seu caminho e dá sua contribuição ao grupo, diz a diretora, citando como exemplo a coreografia indiana elaborada por uma das integrantes, Zuzu Abu.

A multiplicidade de timbres de acordeom, violoncelo, flauta, violino e sax soprano ganha diferentes contornos pela presença marcante de diversos instrumentos de percussão – tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone e tamborim. A percussão se espalhou pelo mundo. Há 16 anos – quando o grupo foi criado -, era difícil encontrar esses instrumentos. Hoje, o mundo é muito mais aberto a outras culturas, e encontramos de tudo por toda parte, diz.

Em agosto, o grupo entra em estúdio para gravação do sexto CD, Inquilinos do mundo. O novo trabalho será composto por canções vindas de povos nômades e ciganos. Cantos que vieram da Macedônia, Grécia, Turquia, entre tantos outros lugares distantes. Alguns desses lugares nem existem mais, mas suas tradições permanecem vivas.

A arte pelo olhar

A palestra Look at me! – Sobre o olhar, ministrada por Neville Rowley, professor e curador-pesquisador do Metropolitan Museum de Nova York e pensionário da Villa Medici (Academia de França em Roma), foi outro destaque do último fim de semana do Inverno Cultural da UFSJ. A partir da leitura do olhar, ele propõe uma análise sobre as artes no Ocidente. O encontro fez parte da I Mostra Ensaios de Arte e Cultura, coordenada pelo artista plástico e professor Ricardo Coelho. O evento contaria ainda com a presença do crítico de arte e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jorge Coli, que não pode comparecer ao festival por motivos de saúde.

Eu gostaria de uma História dos Olhares, afirmava Roland Barthes, em seu último livro publicado em 1980, La chambre claire. Barthes falava ali da fotografia e queria antes de tudo evitar que esta técnica se fechasse em categorias formais pré-definidas. Com uma fotografia publicitária da Copa do Mundo de 2014, na qual aparecem Ronaldo e Pelé sorridentes, Rowley inicia a série de slides da palestra baseada no curso ministrado na Unicamp.

Em pinturas, fotografias e desenhos, o professor explora as singularidades dos olhares pelos quais as diferentes épocas viram o mundo. Com o olhar direto de Ronaldo e Pelé para o observador seria quase impossível duvidar que o Brasil não vá ganhar a Copa de 2014, diz. Embora pareça, ele não está olhando diretamente para o observador. Ele olha para uma câmera, um mero instrumento tecnológico. Portanto, este olhar é um olhar falso, argumenta.

Momento histórico, estrutura do poder, idealização do divino. Inúmeras características impuseram mudanças nas representações do olhar nas obras de arte. Monalisa definitivamente não figura como uma das obras mais estéticas ou de técnica mais perfeita. O que chama atenção para o quadro é o poder mágico de seu olhar. Ela foi uma das primeiras mulheres a ser representadas olhando diretamente para o observador, em uma posição de três quartos – já que só as divindades eram representadas totalmente de frente. Esse olhar foi responsável pelo grande sucesso, argumenta.

Durante todo o período do Inverno Cultural foram promovidos 11 debates que abordaram diversos temas ligados à arte e que reuniram profissionais renomados como os artistas plásticos, Hilal Sami Hilal e João Quaglia, o mestre em comunicação midiática e design da Unesp, Alécio Rossi, o doutor em poéticas visuais da USP, Alfonso Nicolau, e a ceramista Norma Grimberg, membro da Academia Internacional de Cerâmica (IAC), com sede na Suíça.