Ouça agora

Como mostrar o Brasil nas Olimpíadas de 2016


Por AMANDA FERNANDES

05/08/2012 às 07h00

Dentro de dois e quatro anos, os olhos do mundo vão estar focados no Brasil. O país irá sediar tanto a Copa do Mundo (2014) quanto os Jogos Olímpicos (2016) e, por consequência, criar um "cartão postal" dele mesmo nas cerimônias que dão início às competições esportivas. A abertura das Olimpíadas deste ano, em Londres, levantou a questão e colocou o exercício de futurologia e questionamento na boca do povo, principalmente na internet e nas redes sociais, sobre como transcorreriam as performances brasileiras. Não foram poucas as críticas ao que muitos internautas chamaram de "carnavalização", que, teoricamente, ocorreria nos eventos. Um comentário da presidente Dilma Rousseff à imprensa na manhã seguinte à abertura londrina ajudou ainda mais a ampliar a polêmica. A chefe de Estado declarou que a abertura dos Jogos de 2016 será melhor que a deste ano e completou: "Vamos levar uma escola de samba e abafar." Críticas a este "carnaval" não faltaram.

Contrária ao movimento da internet, a antropóloga Tereza Bellosi pontua que um dos pontos fortes do Brasil está na capacidade de receber diferentes culturas e criar algo próprio. "Concordo com a presidente Dilma: faremos muito melhor aqui. E temos condições para tal." Segundo Tereza, as possíveis razões para críticas antecipadas aos eventos estão na dinâmica social do Brasil. "A ‘cultura do contra’ ainda sobrevive em alguns grupos sociais. Acho que é defesa. Existe uma turma pessimista, que nivela por baixo para não se decepcionar. Há também os que se consideram globalizados e pensam que o que se produz aqui não tem valor, têm medo de ser ridicularizados ao se mostrar esse lado peculiar de nossa cultura", justifica.

 

Depois de trabalhar cobrindo cinco Copas e três Olimpíadas, tendo assistido de perto às aberturas dos eventos, o cineasta e jornalista do "Lance!" João Carlos Assumpção destaca que é preciso ir além do carnaval. "Temos condições de fazer uma festa tão bonita quanto a de Londres – e bem diferente. O Brasil deveria tentar mostrar para o mundo outras faces que fogem dos estereótipos samba, futebol e mulher bonita. Não temos que esconder nossas mazelas, mas mostrar outros atrativos, entre eles as belezas naturais, a miscigenação, a convivência de diferentes culturas, a hospitalidade e um povo extremamente trabalhador, fugindo da imagem do Zé Carioca."

Esta também é a opinião de Tereza, que compara o potencial brasileiro com o mostrado pela Inglaterra no mês passado. "Os ingleses recriaram a história deles, incluindo os elementos da arte popular. Eles têm Beatles e Rolling Stones, nós, Cartola, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Villa-Lobos. Eles, Shakespeare, nós, Ariano Suassuna, Jorge Amado. O mais importante é que talento e criatividade não nos faltam."

 

Cultura popular pelos quatro cantos

O dramaturgo José Luiz Ribeiro afirma que, em ambos os eventos, o Brasil deve focar o olhar para todos os aspectos da cultura popular, mostrando o que é importante em cada uma das regiões. "Um país que consegue produzir espetáculos como o carnaval e o Festival de Parintins, por exemplo, consegue fazer uma abertura bonita."

A opinião é compartilhada pelo superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, que destaca a mistura cultural que formou o Brasil. Para ele, fugir da identidade brasileira pode ser catastrófico. "Com certeza uma viagem pela cultura popular brasileira oferecerá muita inspiração e beleza para encantar o mundo nesses momentos. Devemos mostrar o que temos de melhor sem fugir de nossas origens e tradições. Para que reinventar a roda? O carnaval nos traduz." Para as aberturas, Toninho pensa em uma ópera viva, embalada por bons sambas, com muitos colares, cocares, miçangas e tangas. "Traria mestres de Parintins, das escolas de samba do Rio de Janeiro, os tambores da Bahia, o frevo do Recife e tudo mais que é bonito e nos caracteriza."

 

Ainda conforme José Luiz, o humor e a alegria do brasileiro devem estar presentes. "Tem que ser um trabalho colorido e bem-humorado. Nosso humor é o que nos faz superar as adversidades e sobreviver aos escândalos que vemos todos os dias, como a corrupção." Tereza Bellosi completa. "Somos um país tropical, quente, diversificado, e precisamos mostrar esta nossa riqueza cultural, nossas belezas: carnaval, futebol, bossa-nova, bumba meu boi, saci e demais elementos de nosso folclore."

Para o cineasta João Carlos Assumpção, a história do Brasil também não deve ser escondida. "Não acho que devemos esquecer o lado obscuro de nossa história, como a escravidão, um dos maiores crimes contra a humanidade. Pelo contrário, é preciso mostrá-lo, até como catarse e tentativa de expiá-lo. Mas, também, podemos ressaltar o papel do Brasil no mundo atual. Um país mais forte e participativo, um ‘global trader’, as comunidades, as favelas e o trabalho que é feito nelas." Este fato é, justamente, a crítica do jornalista à abertura britânica. "As sujeiras, eles deixaram debaixo do tapete. O colonialismo predatório que arrasou a África, por exemplo, o racismo e a xenofobia, que a sociedade e o governo britânico (ou parte dele) tentam combater, ficaram de fora. E, queira ou não, fazem parte da história e da vida da Grã-Bretanha. Seria uma forma de admitir que a história não é feita só de coisas bonitas."