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Historiador do seu próprio tempo


Por AMANDA FERNANDES MÁRCIO CORINO

02/10/2012 às 07h00

Amante de jazz e marxista. Autor de livros como "A era das revoluções", "A era do capital", "A era dos impérios" e "A era dos extremos – O breve século XX", o historiador Eric Hobsbawm, 95 anos, morreu ontem, no hospital Royal Free, em Londres, Inglaterra, onde estava internado com pneumonia. Nascido em 1917, Hobsbawm era professor emérito da Universidade de Londres, e suas convicções marxistas fizeram dele uma figura polêmica, apesar de ter influenciado numerosos estudiosos na área da história ocidental.

Em sua página no Twitter, a filha do historiador, Julia, escreveu: "Ele fará falta não apenas para sua esposa há 50 anos, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também para seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo". Ela também escreveu que se sentia comovida pela "gentileza e pelas condolências de amigos e desconhecidos pelo amável e incomparável pai."

Hobsbawm foi considerado um dos maiores historiadores britânicos e da atualidade, mesmo com o apoio que manteve ao Partido Comunista e ao marxismo. "Ele lutou silenciosamente contra a leucemia durante anos", disse a filha. Segundo ela, mesmo doente e nos últimos dias, ele lia os jornais e se mostrava interessado com os fatos do mundo. Seu último livro, "Como mudar o mundo", é de 2011.

O pai do historiador era britânico, e a mãe, austríaca. Quando Hobsbawn tinha 2 anos, a família se mudou do Egito para Viena. Em 1931, após seus pais morrerem, Eric Hobsbawm se mudou para Berlim, onde leu Karl Marx. A época era a da ascensão do nazismo, e Hobsbawn, judeu, foi viver em Londres, onde ingressou no Partido Comunista Britânico em 1936. Ele continuou no partido mesmo após a União Soviética esmagar a rebelião húngara em 1956 e após as reformas liberais da Primavera de Praga em 1968, embora tenha se oposto publicamente à repressão militar de Moscou contra os levantes populares. O primeiro livro de Hobsbawm, "Bandidos", foi publicado em 1959. Na obra, ele abordou o banditismo e a rebelião social no México, Nordeste do Brasil, Sicília, Bálcãs e China, entre outros lugares. (Com AE)

 

 

Visão ampla do século XX

Para o professor de história do Colégio de Aplicação João XXIII, Sérgio Augusto Leal de Medeiros, Hobsbawm marcou a historiografia por construir uma visão ampla do ciclo da história. "É curioso que Hobsbawm, nascido em 1917, ano em que se deu a Revolução Russa, tenha sido um dos homens que mais compreendeu aquele movimento."

Sérgio destaca ainda a pluralidade do estudo de Hobsbawm. "Ele estudou de forma densa e ampla o século XX principalmente, mas desprovido de muita formalidade, publicando estudos sobre jazz e cinema. Está presente nas referências bibliográficas do vestibular para alunos mais jovens, além de ser objeto de pesquisa de estudos de graduação e pós-graduação, tendo em vista a amplitude de seu trabalho."

Com os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Hobsbawm foi um dos mais requisitados, tanto pela imprensa quanto pela academia, para falar sobre o futuro a partir daquele ano que foi pontuado por ele como o início efetivo do século XXI. "Hobsbawm olhava o passado como perspectiva para entender os acontecimentos do presente. Ainda no calor dos acontecimentos, ele analisou desde o imperialismo até os conflitos provenientes dos atentados e sua repercussão no mundo árabe", acrescenta Sérgio.

 

 

História redividida

Fugindo das demarcações tradicionais de historiografia, que divide o curso histórico em, por exemplo, Pré-história, Idade Antiga, Idade Média, Moderna e Contemporânea, Hobsbawm propôs que o tempo fosse dividido a partir de outros pontos importantes, como períodos de impérios, revoluções ou ciclos do capital. "Assim, o século XX, para Hobsbawn, começa com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e termina com a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991", explica o professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino de Sousa. Para ele, o diferencial na obra do pensador é o fato de ele ser um historiador do seu próprio tempo, não olhando somente para o passado.

Um dos mais importantes historiadores marxistas, Hobsbawm, segundo Sérgio, estudou a teoria de Karl Marx e Friedrich Engels sem reproduzir a ortodoxia marxista. "A partir da teoria, ele analisou o mundo, e não o contrário." A vitalidade do pensamento marxista, mantida por Hobsbawm mesmo depois da Queda do Muro de Berlim, em 1989, quando muitos dos pensadores e intelectuais já haviam abandonado esse projeto político, chama a atenção do professor do curso de Comunicação Social da UFJF, Paulo Roberto Fiqueira Leal. "Sua produção intelectual estava em concordância com os ideais marxistas na medida em que, para ele, não bastava apenas compreender a realidade, mas sim transformá-la. Seu pensamento era sofisticado, porém sem pedantismo, demonstrando a coerência entre seu trabalho acadêmico e o projeto político que seguia."