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O fim de Carminha


Por MARISA LOURES

19/10/2012 às 07h00

Em 1988, o "quem matou Odete Roitman" fez com que "Vale tudo" – telenovela exibida no horário das 20h pela Globo – alterasse a rotina de nove em cada dez brasileiros, que paravam para discutir os rumos da trama. Em pleno sábado de Natal, dia em que foi ao ar a cena da morte da vilã, o folhetim registrou 81 pontos no Ibope, com picos de 92. Vinte e quatro anos depois, João Emanuel Carneiro parece ter bebido da mesma fonte que Gilberto Braga. A reta final de "Avenida Brasil" comandou as rodas de discussões e modificou o hábito de muitos brasileiros.

Até mesmo Dilma Rousseff se rendeu aos embates entre Nina, de Débora Falabella, e a vilã Carminha, ou Carmen Lúcia, de Adriana Esteves, adiando sua agenda política de hoje à noite. O jogo do Corinthians, que normalmente garante os melhores índices de audiência da TV aberta, também não resistiu ao poder da megera. O capítulo em que Carminha foi totalmente desmascarada pela família de Tufão, de Murilo Benício, alcançou a marca de 49 pontos de audiência e 73% de share – participação no total de televisores ligados em São Paulo – conforme dados divulgados pela emissora. Não só é um recorde de audiência em toda a novela, mas também o maior ibope registrado pela TV brasileira em 2012. "Afeta o público feminino, mas também o masculino. Os rapazes estão indo para as mesas de bar discutir uma cena. Li pelos jornais que houve casos de pilotos se apressando para chegar a tempo de ver um capítulo ou conseguindo que ele fosse transmitido no avião, para alegria dos passageiros", observa José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação.

 

A chef de cozinha juiz-forana Ingrid Borges, 32, nunca foi noveleira, mas confessa que, de uns tempos para cá, não é mais dona de sua agenda. Quem comanda seus horários é o folhetim de Carneiro. Morando há quatro anos no Rio de Janeiro, ela conta que deixou de participar de parte da programação de um festival internacional de cinema realizado na cidade carioca, durante um mês, por conta de "Avenida Brasil". "No início só via a novela quando dava e se não tivesse nada melhor na TV fechada. Com o tempo, isso mudou. Só saio antes das 21h ou depois das 22h30. Os programas dos canais a cabo ficaram para os horários alternativos", conta. "Na semana em que a Nina trocou de papel com a patroa, mais ou menos no capítulo 100, eu e alguns amigos nos reunimos para debater a novela. Foi uma mobilização que nunca tinha acontecido. A partir de então, na hora em que "Avenida Brasil" entra no ar, meu celular começa a tocar sem parar, e comentamos em tempo real pelo aplicativo Whatsapp. É uma loucura", acrescenta.

Mesmo assumindo-se admiradora das tramas televisivas, a publicitária Talita Scoton, 28, amiga de Ingrid e integrante das discussões virtuais, está surpresa consigo mesma. Nunca havia se envolvido tanto com uma obra. Acompanha a vida dos moradores do "Divino" diariamente. "Vai ser difícil ver a última parte sabendo que, na semana seguinte, vou ter que abrir mão de conversar com as amigas durante e depois dos capítulos, dar boas risadas e bancar a detetive. Perder um passatempo tão gostoso como o ringue do subúrbio carioca vai ser duro."

Quem só tem o que agradecer a esse sucesso é Ercília Damelon, 55, proprietária do Bar da Loira – reduto de universitários e amantes do futebol. "Eu já tenho um bom movimento, mas a mulherada está enlouquecida. Todo mundo quer saber quem matou o Max (Marcello Novaes). Vai se aproximando o horário da novela, e as pessoas vão chegando", afirma. Já José Luiz Ribeiro não vê a hora de a trama chegar ao fim. "Alguns amigos dizem que só vão assistir a ‘Sob nova direção’ (espetáculo em cartaz no Forum da Cultura) depois que a novela acabar. Estou ansioso para que o público aumente."

 

Identificação com o público

Não precisa ser feita qualquer pesquisa para saber que Adriana Esteves, definitivamente, roubou a cena em "Avenida Brasil", contrariando o politicamente correto. A novela poderia ter como subtítulo "Carminha". Exagerada para uns, "no ponto" para outros, a personagem chamou atenção com suas caretas e interpretação forte. Há quem torça para que ela escape ilesa e fuja do país, como aconteceu com o mau-caráter Marco Aurélio, de Reginaldo Faria, em "Vale tudo". "Vou sistematizar a Adriana Esteves e fazer um altar na minha casa para ela. Ela foi a alma dessa novela. É um animal da atuação", disse João Emanuel Carneiro ao "Globo". "Ela é caricata, engraçada, tem as melhores falas. É carismática", ressalta Nilson Xavier, autor do "Almanaque da telenovela brasileira".

Contudo, esse fenômeno não é recente. Renata Sorrah está aí para confirmar. Em "Senhora do destino", de Aguinaldo Silva, sua personagem Nazaré Tedesco acabou se transformando na principal figura da história. O povo só queria saber qual seria a próxima perversidade da megera. Caso se pergunte hoje, ninguém lembra quem era a protagonista da trama.

"O universo cheio de maldades está causando identificação violenta no público, no sentido da desilusão das pessoas. As religiões, por exemplo, brigam entre si e acabam sendo uma síntese disso tudo. Estamos numa sociedade bandida, temos dirigentes desonestos. De repente, estamos passando por um grande julgamento, e a sociedade começa a defender criminosos", ressalta José Luiz Ribeiro. "Os vilões são idolatrados. Existe uma clara identificação aí. Entretanto, acho que não pelo viés negativo, como se o público quisesse fazer aquilo que ele faz. Acredito que seja mais pela curiosidade de ver até onde um ser humano, mesmo de mentira, é capaz de ir para alcançar seus objetivos", salienta Arthur Ovídio Daniel, mestrando em comunicação social e pesquisador de telenovelas e revistas especializadas.

 

O apelo das redes sociais

De sua estreia até o último sábado, "Avenida Brasil" registrou 38,6 pontos de média. Índice considerado alto para os tempos atuais. Se antes os telespectadores só contavam com os aparelhos de televisão, hoje a web oferece a possibilidade de se assistir aos capítulos no dia seguinte e também abre espaço para palpites do público, por meio de enquetes. Várias foram as cenas comentadas na internet. O não armazenamento das fotos tiradas por Nina, do flagra de Carminha e Max, encabeça a lista de chacotas no ambiente virtual. "Os números não servem mais para comparação. A medição de audiência mudou muito de 1988 para cá. Fatores importantes são a concorrência que a TV aberta enfrenta hoje e que não existia na época de ‘Vale tudo’, como a TV a cabo e a internet. Essa é a prova de que a TV pode-se aliar à internet, tirar proveito dela, e não encará-la como uma concorrente", observa Nilson Xavier.