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Entrevista / Muniz Sodré, intelectual


Por MARISA LOURES

26/08/2012 às 07h00

Advogado, escritor, jornalista, sociólogo, tradutor, poliglota, Muniz Sodré é, acima de tudo, um pensador."O que a vida lhe dá de bom está muito comprometido com o olhar para frente", reflete Sodré sobre a extensa biografia, que inclui título ligado à hierarquia dos terreiros de candomblé da Bahia, cujo conterrâneo, Jorge Amado, também possuía. "Sou baiano, e Jorge Amado, também. Ele, inclusive, fez o prefácio do meu livro chamado ‘Um vento sagrado’. Nossa proximidade se deu via cultos afros, da casa Ilê Axé Opó Afonjá. Eu sou Obá Xangô."

Dono de uma extensa produção, que inclui mais de 30 livros publicados nas áreas de educação, literatura, filosofia e ficção, graduado em direito, mestre em sociologia da informação e comunicação e doutor em ciência da literatura, o intelectual ministrou palestra em Juiz de Fora, na última terça, sobre as ideias de povo e religião na obra de Jorge Amado. "O povo e a religião são os pontos centrais da obra amadiana. Neste momento em que o país se internacionaliza, reler este autor é revigorante para a ideia de que tipo de nação e gente nós somos. Ele cria um brasileiro ficcional de maneira que nenhum outro escritor retrata e também trabalha, como ninguém, a questão dos cultos afros, das classes subalternas da Bahia."

 

Tribuna de Minas – Qual a importância de se discutir Jorge Amado?

Muniz Sodré – Atualmente, depois de Paulo Coelho, Jorge Amado é, sem dúvida, o autor que mais vende livros no mundo. Por que lembrar dele? Primeiro, porque tinha características que são únicas na literatura brasileira e que foram mal compreendidas pela crítica, principalmente a paulista, que não o considera integrante do cânone da alta literatura, como o faz com Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Lima Barreto. Mas, para mim, ele está neste patamar. Ele não é posto lá porque é, acima de tudo, um narrador. Alguém que aposta mais no contar histórias do que no trabalhar estilisticamente a língua. Como a crítica paulista é muito elitista, ela põe Jorge Amado no patamar que, às vezes, confunde-se com a narrativa folclórica, muito mais próxima do povo.

 

– A religião na obra de Jorge Amado deve ser vista como formadora do conceito de nação?

– A ideia de religião é de um monopólio universal da fé. Quando se fala de religião, pensa-se nas crenças universalistas, que são o cristianismo, o islamismo e o budismo. Já os cultos afro-brasileiros são regionais e formadores de uma religiosidade aglutinadora. O que Jorge Amado faz é pegar os elementos de coesão que essas crenças têm – a alegria, a dança, a comida – e mostrar que são formadoras de comunidades, que se espraiaram da Bahia para o resto do país. A religião negra funciona como uma espécie de cimento, de mel para a gente miúda do Brasil até o aparecimento dos cultos das classes fundamentalistas, que veem nisso coisa do demônio, o que é vergonhoso.

 

– O povo baiano é o reflexo dos livros de Jorge Amado?

– Jorge Amado teve um papel na vida social além da literatura. Quando foi deputado pelo Partido Comunista, em 1946, foi responsável por introduzir na Constituição a emenda que garante liberdade religiosa. A pessoa é livre para acreditar no que quiser, não tem que ser necessariamente o Deus católico ou evangélico. Sem falar que ele inventa uma Bahia, este lugar que o turista vem ver. Esse povo criado, às vezes, redefine os baianos. No fundo, o baiano não sabe se ele se comporta assim porque é daquela maneira ou se foi inventado no livro de Jorge Amado. Há escritores, do ponto de vista estilístico, sem dúvida nenhuma, melhores, como é o caso de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, que trabalharam muito a língua, mas a ideia de povo como protagonista está na obra de Jorge Amado.

– Recentemente, o senhor lançou o livro "Reinventando a educação". Quais as principais falhas do sistema educacional brasileiro?

– Eu me preocupo com a visão eurocêntrica, que reproduz um discurso monológico, em que o homem que se reconhece como excelente é o que se parece com o europeu. Portanto são discursos colonialistas. Pedagogicamente, mostro a insuficiência da pedagogia anacrônica, que hoje ainda é praticada. A escola é baseada em uma instituição de forma prisional. Os alunos são encerrados e vigiados por um professor, que tem uma atitude confessional, quase um pregador religioso, que exige que os estudantes repitam o que ele fala. Este modelo pedagógico, para mim, está acabado.

 

– Como a tecnologia se dá neste contexto?

– Penso que a tecnologia da comunicação cria uma outra realidade, que está sendo perseguida mais pelos jovens que pelos velhos. Mas a educação ainda não soube se afinar nisso. O Ministério da Educação deu 600 mil tablets para distribuir às escolas. Isso não quer dizer nada, não é modernização. Para mim, esta atitude está mascarando o anacronismo da educação. Acredito que hoje o ensino de qualidade tem que passar pelo virtual. Mas, uma educação que se afine, pedagogicamente, com o virtual e não o use apenas como um instrumento, como era feito com o quadro negro. Claro que a tecnologia é uma enorme facilidade, mas isso não significa aperfeiçoamento profissional de forma ativa, isso é aumento de informação. Informação demais perturba a pessoa, que tende a fazer inferências e juízos errados e desvirtuados sobre o mundo.

 

– Em 1973, o senhor escreveu sobre o sensacionalismo e a vulgaridade da televisão no livro "A comunicação do grotesco". Em 2002, a noção de grotesco se ampliou com a publicação de "O império do grotesco". Passados dez anos da última publicação, como o senhor avalia o grotesco na televisão brasileira?

– O grotesco continua, vide programas como o do Ratinho, e a maior parte do que é exibido na TV é lixo reciclado. Mas, mesmo neste lixo reciclado, se o foco e a forma de leitura forem alterados, é possível aprender algo, pois, hoje, tem muita coisa boa na televisão. Em meio a novelas muito banais, por exemplo, encontramos "Avenida Brasil", que, a meu ver, vai superar a "Escrava Isaura", no plano internacional. É um folhetim com carga dramática, com personagens interessantes e inteligentes e atores com uma grande interpretação. Aos poucos, a televisão aberta foi encontrando sua linguagem, que não é a do cinema, mas que também não é porcaria.

– Certa vez, o senhor disse que o grotesco tem uma função alienante, mas também altamente crítica. Então ele é um mal necessário? Como é isso?

– Não é mal. Esta é uma palavra ética. Temos que levar em conta que o mal é criado no mesmo momento em que o bem. Portanto, o que seria de Cristo sem o demônio? O que seria de um certo fundamentalismo judaico sem o nazismo? O palhaço pertence ao grotesco, mas tem uma altíssima qualidade artística. O personagem Carlitos, de Charles Chaplin, por exemplo, é extremamente revelador. Podemos pegar um de seus filmes e mostrar o quanto ele ilumina a consciência do sujeito dominado, mais do que um filme do realismo socialista, onde já está tudo pronto: diz ao operário porque ele está sendo dominado e submetido pelo capital. Chaplin mostra a mesma coisa de maneira atraente. Ele diz sem falar.

 

– Como o senhor avalia a nova safra de escritores?

– As novas gerações de escritores foram caminhando muito ensimesmadas, voltaram-se para dentro. Por isso, a literatura se entristeceu, perdeu um pouco daquela alegria. Mesmo os textos de Graciliano – que falava do sujeito trabalhando na caatinga – possuía uma fonte de esperança. A literatura perdeu esta carga dramática, deixou de ser comunitária por causa desse individualismo. Ela ficou restrita a poucos. Eu acredito que, quanto mais coletiva for a literatura, mais ela ganha em narratividade. E é justamente essa narratividade que perdeu força em função de uma certa experimentação. A literatura contemporânea ficou chata. Se há um crime que não se pode perdoar a quem escreve é o da chatura.

 

– O senhor tem uma biografia muito vasta: mulato, capoeirista, advogado, escritor, jornalista, poliglota, tradutor, professor e, acima de tudo, intelectual. É difícil ser Muniz Sodré?

– Nos cultos afro-brasileiros, a identidade é um enredo, o que significa que temos mais de uma entidade na cabeça. Eu diria que tenho várias delas. Todo mundo tem, mas não sabe. Sempre gostei de línguas, falo várias línguas, fui tradutor, fui professor de latim, gosto de escrever teoria e ficção e de dançar. As coisas essenciais da vida estão na horizontal. Você nasce nessa posição, é no chão que a queda se dá, e você gera vida também na horizontal. Então, o que a vida lhe dá de bom está muito comprometida com o olhar para frente. Não só intelectualmente, mas emocionalmente, eu valorizo o horizonte, com suas esperanças e ilusões.