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Entrevista/Affonso Romano de Sant’Anna, escritor


Por MARISA LOURES

08/08/2012 às 07h00

Affonso Romano de Sant’Anna tinha 25 anos, em 1962, quando publicou ‘O desemprego do poeta’. Primeira produção literária do autor, o livro de ensaios, escrito pelo então estudante de letras da Universidade Federal de Minas Gerais, chega, em 2012, aos seus 50 anos, sem nem mesmo seu criador ter se dado conta desta comemoração. "É um susto. Ainda ontem eu estava em Juiz de Fora, com 18 anos, escrevendo em jornal, publicando poemas no ‘Diário Mercantil’ e discutindo cinema no Centro de Estudos Cinematográficos fundado por mim. De repente, vejo passar tanto tempo. Recebi a notícia por meio da imprensa."

A infância modesta do menino nascido em Belo Horizonte e criado em Juiz de Fora a partir dos 3 anos, a vida simples do adolescente que precisava trabalhar como carregador de marmitas e de trouxas de roupas para lavadeiras, além da influência dos pais protestantes, que o criavam para ser pastor, foram experiências decisivas para impregnar a prosa e a poesia de Affonso de forte conteúdo crítico e social. Se, há 50 anos, o discurso do jovem literato era de inconformismo e frustração pessoal, a tese defendida pelo agora doutor nas artes poéticas é a mesma. "A situação não mudou. Penso da mesma maneira. O que alterou foi a vida literária", diz o escritor.

Em entrevista à Tribuna, por telefone, o autor falou sobre as ideias contidas em sua obra e fez uma reflexão sobre as alterações no panorama da literatura brasileira nestes anos que se passaram, desde sua primeira publicação . "O livro tinha muito a ver com tudo o que eu acabei fazendo a minha vida inteira, que se resume em tentar achar o reemprego do poeta e da poesia, seja por meio da televisão, de jornais e até da internet." Adepto das redes sociais, Romano falou sobre a ampla disseminação de seus poemas na internet, mostrando-se otimista com sua apropriação pela cultura popular, e ainda discorreu sobre a delicada relação entre editora e autor, na contemporaneidade.

 

Tribuna – Seu primeiro livro retrata seu inconformismo com a situação do poeta e com a época. Se fosse escrevê-lo, hoje, seu discurso teria aquela mesma frustração?

Affonso Romano de Sant’Anna – As coisas não mudaram muito, o que eu dizia lá continua sendo verdade. A partir do século XIX, o poeta, antes uma pessoa que sintetizava uma figura pública e que tinha o prestígio de um grande historiador e de um grande jornalista, passou a concorrer com vários atores que foram surgindo, como relações públicas, artistas de rádio, televisão e cinema, e a poesia ficou um pouco mais restrita. Mas nem por isso deixou de ter a sua força.Tanto é que, espantosamente, está cheio de poetas na internet, e as editoras brasileiras, ainda hoje, estão pagando fortunas para publicar Drummond, Bandeira, Cecília Meireles e Mário Quintana.

 

– Nestes 50 anos de produção, o que mudou no panorama da literatura brasileira?

– A vida literária é que mudou muito. Antigamente, as pessoas se reuniam, no final da tarde, na porta das livrarias, como é o caso da São José e da José Olympio, no Rio de Janeiro, para conversar com diversas gerações, e isso acabou. As cidades ficaram grandes, e todos se veem pouco. Noite de autógrafo virou uma banalidade, e aumentou, incrivelmente, o número de autores.

 

– Como está o mercado editorial? Ele mudou muito desde sua primeira publicação?

– Hoje, quem manda é o mercado. Quando eu era jovem, a competência é que ditava as regras. Atualmente, as pessoas são produzidas por propagandas, pelo espetáculo e pela performance. O autor raramente aparece. Ele tem sempre um intermediário, um divulgador. A Flip, por exemplo, é um fenômeno que merece ser analisado. É um verdadeiro jogo editorial. Os autores são convidados em função do mercado. Quando eu lancei meu primeiro livro, em 1962, imprimi 500 exemplares e fiz, eu mesmo, a distribuição dele. Foi amplamente comentado pelos maiores críticos brasileiros, e, hoje, após 50 anos de estrada, pode ocorrer de eu escrever um texto e ninguém falar nada sobre ele. E isso tem uma explicação simples. O número de escritores aumentou, existem sérios problemas envolvendo autores e editoras, e os suplementos literários privilegiam certos grupos. Sem contar que quase não há espaço para a literatura, a música e o teatro nas revistas semanais.

 

– Certa vez, você disse que considerava os livros elitistas e sofisticados demais para o grande público. Você, como atuante das redes sociais, vê a internet como uma opção de aumentar o acesso à literatura?

– Estranhamente, com a poesia ocorre um mistério. Ela é considerada um gênero de primeira necessidade. As pessoas carecem dela como precisam da vitamina A. Então, procuram-na em toda parte, na música popular e na publicidade, que é mais fácil de entender e consumir. Mas também no próprio texto literário, porque tem certas palavras que só o poeta consegue dizer. Recentemente, aconteceu um fato muito curioso comigo no Facebook. Publiquei um poema pequeno, e os internautas começaram a ter várias reações positivas e bonitas sobre ele. Muitos dizendo que vão reproduzi-lo, e, de repente, é como se a moeda entrasse em circulação. As pessoas se apoderaram dele. Sou totalmente a favor da poesia na web, e, se Homero e Shakespeare fossem vivos, teriam a mesma opinião.

 

– Mas, será que esta disseminação em massa de poesia e livros inteiros na internet não geraria um problema de mercado?

– Acho que é indiferente, porque eu tenho percebido que o pessoal da web, na grande maioria, é consumidor de internet e não de livros. Claro que há exceções. Agora, para quem gosta de livros, pode interferir, mas é o mínimo. Acredito que tenha acrescentado uma variante que não tinha, que é o leitor eventual. Por exemplo, hoje, um leitor meu, no Acre, tem acesso direto a crônicas que eu escrevo no "Estado de Minas", no "Correio Braziliense", no meu blog e no meu Facebook, da mesma forma que o leitor que tenho na Grécia.

 

– "O poema ‘A implosão da mentira’ não me pertence mais. Toda vez que tem um rebu em Brasília alguém publica", disse você recentemente. Você não se incomoda com esta ‘perda’ de autoria?

– A glória de todo autor é virar folclore. Quando ninguém sabe qual é o autor e começa a reproduzir o texto é sinal de que a obra atingiu o seu objetivo, misturou-se com a cultura popular. Alguns poemas como este já foram usados por várias pessoas, vários partidos e, volta e meia, aparecem na internet. Um outro poema meu chamado "Que país é este" já foi utilizado em música, teatro e várias outras situações. Há algum tempo, ele apareceu na rede como autor desconhecido. De uma certa maneira, isso me deixa feliz, porque o autor quer é ser lido, quer passar o recado. Eu não vou ganhar dinheiro com poesia. Na Grécia antiga, o herói que recebia mais medalhas era presenteado com um poema. Píndaro, poeta importante desta época, teve seu texto gravado em ouro nas paredes do templo de Minerva, e eu gravo o meu na internet e na televisão. Ele vai para o ar e desaparece. É o emprego e o desemprego ao mesmo tempo.