Voo cada vez mais alto

Março de 2016 – destino: Maia, Portugal – passageiros: Lúdica Música!. Março de 2007- destino: Barcelona, Espanha – passageira: Nêga Lucas. Agosto de 2010 – destino: Los Angeles, Estados Unidos – passageira: Christine Uhebe. Maio de 2014 – destino: Cannes, França – passageiro: “2 segundos”, o filme. Maio de 2015 – destino: Cannes, França – passageiro: “Azul”, o filme. Maio de 2016 – destino: Cannes, França – passageiro: “1602”, o filme. Maio de 2016 – destino Cannes, França – passageiro: “Aqueles cinco segundos”, o filme. Em comum, todos saíram de Juiz de Fora com suas artes na bagagem. Alguns retornam, outros, no destino se estabelecem, aproveitando o presente fértil da terra. O movimento aponta para uma efervescência que parece querer crescer.
Com apoio do programa Música Minas do Governo do Estado de Minas Gerais, a missão de Isabella Ladeira, Gutti Mendes e Rosana Britto era representar a música mineira em Maia, desenvolvendo, durante três meses, o projeto “Maia abraça Minas Gerais”. A 127 alunos de escolas públicas, eles ministraram a “Oficina lúdica de ritmos”, que este ano comemora dez anos de realização. Não bastou muito para constatarem que a cultura que carregavam com eles não era estranha aos portugueses.
“Fomos levar a nossa tradição, nosso folclore, nossos compositores, mas nos surpreendemos ao ver que os meninos já tinham sido preparados para nos receber. Eles sabiam muitos detalhes sobre a História do Brasil, a Inconfidência Mineira, Tiradentes, Saci Pererê e já conheciam um pouco do nosso trabalho também”, conta Isabella, que, ao lado dos companheiros de palco, fazem o caminho inverso neste domingo, às 16h, no Museu Mariano Procópio, quando apresentam o show “Luso – Lúdica Música!”, com canções tradicionais nas vozes de Amália Rodrigues, Simone de Oliveira e Dulce Pontes, mas também o repertório contemporâneo de grupos de rock, como Clã, Deolinda e Azeitonas.
“Fizemos shows em tudo quanto é lugar, num teatro maior, como no Forum Maia, maior teatro da cidade, num parque, casas de shows e em espaços para pouquíssimas pessoas. Eles pagam pelos nossos shows e compram nossos discos. Já saímos daqui com alguns compromissos pré-agendados. Outras coisas foram pintando. Enquanto fazíamos canja num lugar, fazíamos um contato. Para outros lugares, mandávamos nosso material, e a agenda foi ficando recheada.”
Se em Portugal, como diz a vocalista do Lúdica, o “mercado está escancarado”, em Barcelona, o cenário demonstra também estar efervescente, conforme aponta Nêga Lucas. “A música brasileira é muito prestigiada fora do Brasil, isso nos ajuda a trabalhar por aqui. Já o tratamento, sempre depende de onde se trabalha. Ser músico independente é um desafio, um exercício diário de superação. A vida pergunta a cada manhã: “você tem certeza?”, comenta a cantora, comemorando a agenda sempre cheia desde que aportou por lá.
“Tenho vários projetos agora mesmo. Tenho o meu livro de poesias, o meu novo disco que acaba de sair, tenho uma performance audiovisual sobre a loucura, e por aí vai”, enumera Nêga, em plena divulgação do CD “Naif”, disponível na integra no Youtube.
Reflexo de uma cena efervescente
Chirstine Uhebe saiu de Juiz de Fora há 11 anos. A primeira parada, por cerca de seis anos, foi na Itália. Morando lá, resolveu fazer um curso de verão na Lee Strasberg Institute, em Los Angeles, onde reside desde janeiro de 2011. “Adoro a vida em Los Angeles e já me sinto totalmente em casa. É claro que existem diferenças: a mais difícil é viver longe da família por tanto tempo. Para compensar, só mesmo com muita dedicação ao trabalho. Mas as oportunidades aqui são imensas e sou muito grata a tudo que a cidade tem me proporcionado”, dispara a atriz, que já encontrou o caminho para agradar os americanos. “Eles apreciam e apoiam dedicação e trabalho duro.”
No início, segundo Christine, é preciso “correr atrás” para conseguir conquistar um espaço em Hollywood. Contudo, depois, as chances chegam naturalmente. “Porque um projeto leva a outro, um contato leva a outro. Eu não consigo ficar quieta, esperar nunca foi meu forte”, comenta ela, entregue às gravações de “Distant vision”, com direção de Francis Ford Coppola, e aguardando para entrar em cartaz, em setembro, com mais um espetáculo teatral.
Mesmo não tendo ido para Cannes, na França, em carne e osso, Mia Mozart, Shayra Monteiro, Anna O. e Fernanda Rebelato, da Submerso Produções, viram o mais disputado festival de cinema do mundo se abrir para três de suas obras. Primeiro, foi “2 segundos”, em 2014, seguido de “Azul”, em 2015, e “1602”, em 2016. Os curtas estiveram entre as obras da mostra não competitiva Short Film Corner. “Juiz de Fora sempre teve muita gente interessada na arte, tenho a impressão de que eu é que estava por fora do que estava acontecendo. Tem muito curta sendo feito, tem o Festival Primeiro Plano, que é muito bacana e incentiva a produção, principalmente, de universitários. O movimento é grande.”, ressalta Mia Mozart.
Ela não sabe dizer o que agradou a curadoria francesa. Acredita que sejam o “carinho” com que os filmes foram produzidos e o empenho da equipe envolvida. “Algumas questões ficaram mais fáceis. Hoje é mais fácil conseguir gente para trabalhar. No primeiro filme, não sabíamos direito nem como operar a câmera. Fomos na cara e na coragem. O nosso crescimento foi mais pessoal do que de um olhar da indústria frente à gente. Ter passado faz a gente perceber que o esforço não foi em vão, mas ainda não somos notados. Temos que colocar a cabecinha no lugar.”
Outro recém-chegado de Cannes, “Aqueles cinco segundos”, dirigido por Felipe Saleme e roteirizado por Tairone Vale, já tem passagem comprada para o Festival de Gramado (26 de agosto a 3 de setembro), onde concorre a um Kikito com outros 13 filmes da mostra competitiva. “Cannes abre muitas portas. Costumo brincar que, em Juiz de Fora, todo mundo ou toca, ou compõe ou é fotógrafo. Juiz de Fora tem muita arte, vive uma efervescência cultural. Acho bacana nosso cinema estar disputando muito lá fora, principalmente porque ele não tem muito estímulo financeiro. Esse movimento não é surpresa para nós”, assevera Saleme.
“Um dia, sentado com o Tairone, decidimos fazer o filme. Ele escreveu de um dia para o outro, colocamos na Lei Murilo Mendes e passou. A gente não quer mudar o mundo, a gente quer falar. Tentamos caprichar, colocamos bons atores, e fizemos uma parceria com a Impulso Hub (produtora). Essa turma é muito boa , é a maior responsável por esse movimento que está crescendo. Neste instante, a terra está mais fértil do que em São Paulo. Queremos fazer o povo voltar os olhos para o interior”, completa Saleme.
Alguns voltam, outros, não
Nêga Lucas chegou a Barcelona sabendo que “queria ficar”. “Não sou eu que pretendo algo da arte, é ela quem pretende de mim. Portanto, a arte me guia, e só ela sabe aonde quer me levar, por mais que eu planeje. Devo senti-la para entender qual será o próximo passo”, dispara a cantora. “Gosto de deixar-me inundar da cultura alheia, depois, voltando para ‘casa’, entendo o que dessa cultura ficou dentro de mim, e daí em diante não há escapatória, as culturas começam a dançar no salão da minha arte.”
Christine Uhebe quer alcançar o ponto em que ela pode “escolher os papeis” que vai viver, ser dirigida por nomes consagrados e seguir “mais fundo em direção ao personagem” e a ela mesma. Voltar ao Brasil? “Para visitar e passar férias. Ou quem sabe gravar algum projeto. Sendo atriz, na minha opinião, não existe melhor lugar que Los Angeles para se viver.”
Já o Lúdica Música!, que completa 25 anos de carreira em 2016, cada vez mais tem a certeza de que é no berço que esta história deve continuar a ser escrita. “Tem um grupo de pessoas que esperam um estouro nosso, mas eu sinto que nosso trabalho é aqui. Não nos preocupamos em colocar música na novela, concorrer no ‘The Voice’ ou no ‘Superstar’. Nossa pegada é mais orgânica, mais natural. Prezamos muito pela qualidade, e isso já dificulta um pouco”, acredita.
“Também tem essa loucura de cidade grande. Aqui, temos estabilidade para calcular os passos da nossa trajetória. O que adianta ficar no ‘oba, oba’ de Rio e São Paulo? Para entrar no mainstream, tem que ficar paparicando as pessoas com as quais não nos interessam conviver. Dizer que a gente não quer fazer sucesso é mentira. Almejamos trabalhar em condições cada vez melhores, aumentar nosso público e gravar mais discos e ter uma vida com mais estabilidade que, talvez, só os artistas mais famosos podem ter. Quando olhamos para trás, vemos 25 anos, com participação de dois monstros, como Ivan Lins e Milton Nascimento, e isso tem muito mais sabor.”









