Arte para refletir
Arte que expõe questionamentos pessoais. Arte que que encontra o seu norte estilístico. Arte que que busca inspiração naquilo que se vê. Com estilos, motivações e trajetórias diferentes, Raphaela Lustosa, Adriana Alhadas e Bellei podem ter seus trabalhos conferidos até 3 de julho no CCBM, em três exposições que podem ser conferidas nas galerias do centro cultural. Cada um a seu modo, as três gerações apresentam trabalhos que explicitam a pluralidade da arte.
Em sua primeira exposição, Raphaela Lustosa expõe seus questionamentos e os compartilha com o público em “Das coisas de dentro. O que me move?”. Fugindo à regra, a artista fez uso do papelão como superfície e do giz pastel para criar suas obras, em que os órgãos humanos são acompanhados por questões filosóficas/pessoais que devem ser as mesmas de tantos por aí. São cérebros, pulmões, olhos, fígados acompanhados por dúvidas como “será que quando (ins)expiro eu vou mais longe?”, “por quanto mais eu vou alimentar aquilo/aquele que não me faz bem?”, “um coração inquebrável me faria mais forte?” e “o que me faz ser eu?”, entre outras. As obras são ligadas por fios de lã nas cores azul e vermelha, representando veias e artérias que ligam todas as partes de um corpo artístico em eterna construção.
Nascida em Santos Dumont, Raphaela é estudante do curso de artes visuais da UFJF e conta que começou a desenvolver a série em meados do ano passado. “Essa exposição é toda reciclada, inclusive no banner com o texto inicial, que é de lona e será reciclado para serem feitas bolsas”, destaca. “Escolhi o papelão porque gostei muito do toque, da textura. É como se fosse um afago, e também é efêmero. Serve, ainda, para reciclar as perguntas e ressignificar muitas coisas, as certezas, e colocar num outro espaço. Nada daquilo ali vai durar muito tempo. Quis reciclar sentimentos, coisas, valores.”
Raphaela conta ainda que o suporte de sua obra estava praticamente à mão, com as caixas de papelão sendo recolhidas, em bom estado, perto de sua casa. No início, essa “relação” foi complicada, mas à medida em que foi se entendendo com o papelão, o sentimento mudou – e o trabalho deslanchou. “Foi do ódio ao afeto (risos). O primeiro trabalho foi um coração, desses anatômicos mesmo. Na família, quando você faz arte, sempre perguntam se quer usar algo quando jogam fora (risos), e me ofereceram essa caixa de papelão enorme que iriam descartar. Vi que ela era resistente e guardei por alguns meses. Fiz então um curso de giz pastel na faculdade e resolvi testar no papelão e vi que dava um resultado muito bom.”
A artista foi criando suas obras a partir dos questionamentos que guardava para si, além dos que surgiam durante a jornada criativa. “Ficava tentando colocar o que estava dentro para fora, de forma quase que literal. Os órgãos que estão na exposição tiveram algum tipo de relação comigo. Alguns (questionamentos) são antigos, outros mais novos. O cérebro, por exemplo, tem a ver com a lucidez.
O público que comparecer ao CCBM pode interagir de forma mais direta com a artista, que deixou uma caixa com vários papéis para que o visitante responda a uma pergunta em particular (“O que te move?”) ou, se preferir, deixar sua própria pergunta para Raphaela – o que, segundo ela, pode servir de inspiração para futuros trabalhos. “Fiquei impressionada com a quantidade de perguntas e respostas. Algumas são muito emocionantes, até mesmo confessionais. Como são perguntas que eu me faço, imaginei que jamais iria chegar no outro, aí vejo como somos parecidos.”
Cores e personalidade

Tendo como superfície o papelão, Raphaela Lustosa expões suas dúvidas a respeito de si
“Cores e formas”, de Adriana Alhadas, pode ser conferida no CCBM até o próximo domingo e mostra, de acordo com a artista, o amadurecimento de um estilo que ela pode chamar de seu. São 27 trabalhos, entre pinturas e gravuras, em que Adriana se vale de suas inspirações em Kandinsky e Miró para dar vazão a seu trabalho com múltiplas interpretações e inspirações, em que se poderia até arriscar uma discreta mas vigorosa incursão pelo grafismo. Nas obras, a subjetividade é desafiada pela aposta no uso de cores primárias como vermelho, amarelo e azul.
Adriana diz que as obras são resultado de dois anos de criação. “Aprimorei meu trabalho, as telas já vêm com a minha marca. É muito estudo, muita dedicação, são muitas horas de trabalho para encontrar o caminho”, afirma.
Outro fator importante para a artista é não forçar a mão para encontrar o que está dentro de si. “Eu vejo qualquer coisa e vou desenhar, mas de uma forma mais inconsciente, vendo o que está atrás do real. Acontece de ficar semanas sem fazer nada. É preciso que a inspiração venha, é algo muito livre e solto.”
O passado e as paisagens como inspiração
Em atividade desde 1980, o artista plástico Bellei também está presente no CCBM até domingo, com a mostra “Expressão e cor”. Os trabalhos foram feitos entre maio e junho a partir de fotos, desenhos e anotações de viagens, além de lembranças de locais importantes em seus primeiros anos de vida, caso da fazenda Passo da Pátria, onde nasceu e foi criado. Além das paisagens rurais e casarios, é possível encontrar o olhar do artista sobre Ouro Preto e as montanhas que ajudam a formar os contornos do litoral de Búzios, no Estado do Rio.
“Meu trabalho é inspirado no expressionismo, e hoje estou na fase em que acredito ser uma das melhores da minha vida”, diz ele. “Quando viajo, a qualquer lugar que seja, aprecio as paisagens, lembrando da época da roça. Registro uma foto, faço um desenho rápido no papel. O que está lá não é um retrato fiel, mas minhas impressões”, define. “Gosto de pintar marinhas também. Em Ouro Preto, tenho a inspiração de Carlos Bracher. Ali você respira arte, e há muitas montanhas, com os casarios históricos e as igrejas.”
RAPHAELA LUSTOSA, ‘DAS COISAS DE DENTRO. O QUE
ME MOVE?’
Até 3 de julho
ADRIANA ALHADAS, ‘CORES E FORMAS
Até 26 de junho
BELLEI,
‘EXPRESSÃO E COR’
Até 26 de junho
De terça a sexta-feira, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 18h
CCBM
(Avenida Getúlio Vargas 200)











