‘O amor é a moeda a ser investida em 2016’

Fernanda Abreu lança álbum que investe nas melodias dançantes e também nas baladas românticas
Poucos artistas representam tão bem a alma de uma cidade quanto a carioca Fernanda Abreu. Figura indissociável do imaginário coletivo musical quando se pensa no Rio de Janeiro, a cantora e compositora passou 12 anos sem gravar um álbum de canções inéditas. “Amor geral” chegou às lojas na última sexta-feira como sucessor de “Na paz” e traz uma Fernanda que canta não apenas questões de foro particular como também a artista preocupada com a falta do amor entre as pessoas, num mundo cada vez mais dividido entre “nós” (ou seria “eu”?) e “eles”.
Mantendo a sonoridade dançante e suingada que arregimenta fãs desde o início da década de 90, Fernanda Abreu escreveu nove das dez canções do álbum, apostando em novas parcerias e mantendo velhos parceiros ao seu lado, convocando um dream team de produtores da nova e antiga geração para mostrar que “o amor é a moeda a ser investida” – e que isso pode ser feito no balanço e no suingue, sem se esquecer das baladas.
Garota sangue bom simpática e articulada, Fernanda conversou com a Tribuna na última semana sobre o novo álbum, os desafios do mercado fonográfico e até mesmo das Olimpíadas que acontecem em agosto no seu amado Rio de Janeiro – cidade que, segundo ela, pode até sofrer com os políticos, mas sempre terá o seu povo para salvá-la.
Tribuna – O que levou a um intervalo tão grande entre o último álbum e ‘Amor geral’?
Fernanda Abreu – Em primeiro lugar, a indústria fonográfica passou por um período bem ruim. A gente que trabalha com música vê que a situação do mercado não atinge só as gravadoras, mas estúdios que são fechados, a questão da internet, de direitos autorais – que ainda são importantes pra gente… O mundo da música ficou muito instável, nunca se ouviu tanto mas se vendeu tão pouco. A gente ficou apreensivo, então privilegiei os shows, como o “Eletro-Acústico”, com versões de outros artistas e sucessos meus com arranjos diferentes. Fora isso, gravei dez ou 12 fonogramas em projetos diferentes, mais algumas inéditas. Eu não me sentia instigada nesse período a gravar um álbum de inéditas, e também passei por problemas pessoais que contribuíram para isso.
– Como surgiu o conceito do álbum, permeado por canções que falam de amor?
– Na verdade o conceito vem como uma prova de resistência, de que o amor é a moeda a ser investida em 2016. Como eu digo em inglês, “love is the new money” (“o amor é a nova moeda”). O capitalismo trouxe um cinismo, um sarcarsmo que não cabe mais nas pessoas. A primeira música é um manifesto em relação a isso, de ver o amor também como uma coisa mais coletiva, de poder ter harmonia entre os homens num momento em que a gente vê tantas vozes conservadoras gritando por aí, as pessoas explodindo na Europa. A sociedade brasileira tem que avançar em temas ligados à diversidade. Costumo dizer que esse disco chega como um antídoto, temos uma demanda da sociedade por respeito, liberdade individual e coletiva.
– Mesmo com um intervalo tão grande, dá para perceber que ‘Amor geral’ é familiar a quem conhece o seu trabalho nos álbuns anteriores. Para você, o que ele traz de familiar e de novidade?
– Eu tive uma vontade grande nesse disco de fazer novas parcerias com um pessoal novo do Rio e São Paulo que está fazendo música nova. Eu faço música pop, mas não posso ficar me repetindo, tenho que manter minha essência mas avançar em termos de linguagem, estética, e acho que esse álbum conseguiu ter esse equilíbrio em termos de arranjos, melodias a partir das minhas experiências e com a novidade que esse pessoal trouxe. Como eu estava ali controlando, consegui manter minha essência.
– O mercado fonográfico mudou drasticamente neste século, com diminuição na venda de CDs, download ilegal, YouTube, streaming… Como é para você encarar esse complicado mundo novo?
– Acho que estamos no meio da transição ainda. Está difícil estabelecer o mercado de música. Primeiro veio a pirataria, depois a diminuição na venda dos CDs, aí tentaram a ideia de compra música pela internet – e que não vingou no Brasil -, agora veio o streaming… Não sei onde vamos parar, como vai continuar esse mercado. O que lutamos hoje é por uma remuneração mais justa para o intérprete, pois recebemos muito pouco, quase nada ou nada mesmo. Quem é artista independente, então, tem muita dificuldade para ser remunerado. Precisamos organizar esse carnaval aí para termos um mercado musical digital que funcione.
– A direção musical e produção executiva foram suas, mas o álbum contou com a participação de seis produtores. Eles foram escolhidos de acordo com o que você queria para cada música? E como foi trabalhar com toda essa galera?
– É muito trabalhoso. É bem mais fácil lidar com um produtor e uma banda e gravar em poucos dias, mas eu gosto de estúdio, de ter desafios, então foi muito bom trabalhar com essa galera, ajudar a se conhecerem. E também tem a galera que eu conheço há tempos como o Fausto Fawcett, o Liminha, fomos trocando informações. Foi muito trabalhoso, mas foi muito rico também, aprendi muito sobre o estúdio, o processo de produção.
– Como rolou a participação do Africa Bambaataa em ‘Tambor’?
– Foi muito inusitada, porque eu estava em São Paulo trabalhando no disco quando o Sérgio Santos, que estava no meu estúdio, disse que o Afrika Bambaata estava lá com uma galera. Falei na hora para esperarem que iria pegar um avião para voltar ao Rio (risos). Quando cheguei, conversei com ele, disse que “Planet Rock” foi o precursor do funk no Rio, e expliquei sobre a essência do tambor e como seria importante que ele, como pai do hip-hop, participasse dessa música, porque era a faixa mais ligada ao funk. Expliquei sobre o que tratava a letra, e ele foi colocando as pontuações de forma suingada.
– Poucos artistas representam tão bem o “jeito carioca de ser” como você, e a sua cidade recebe a partir de agosto os Jogos Olímpicos. Como se sente com um dos maiores eventos esportivos do mundo sendo realizado no Rio?
– Eu não sou do tipo de pessoa que diz que não pode gastar com tal coisa, como no caso das Olimpíadas, enquanto tem gente sem cama no hospital, sem escola etc. Coisas como serviço de água e esgoto, saúde, educação já são prioridades que o governo deve oferecer. A Olimpíada é muito importante para qualquer cidade, mas estamos numa situação em que o sentimento não está batendo, o carioca não está com orgulho de ter a Olimpíada, porque não temos segurança pública, sistema de transporte, saúde. Isso acaba comprometendo o envolvimento em relação a esse grande evento esportivo, sendo que não deveria ser, afinal é um evento fantástico para qualquer cidade do mundo. A verdade é que o Rio está falido, as últimas administrações foram muito ruins. Não sabemos para onde foi o dinheiro, temos uma Secretaria (Estadual) de Segurança que não tem dinheiro, e eu gosto muito do secretário (José Mariano) Beltrame. E não temos governador porque o (Luiz Fernando) Pezão está doente. O (prefeito) Eduardo Paes faz as políticas públicas dele sem consultar a população, não há participação popular.
– A organização dos Jogos tem passado por momentos de preocupação e crítica, como foi o caso recente do desabamento de parte da Ciclovia Tim Maia, mas também há a torcida para que tudo dê certo. O que você acha que o brasileiro em geral – e o carioca em particular – vai aprender com o evento? E o quanto o estrangeiro poderá conhecer a respeito do verdadeiro carioca?
– Ao contrário do que a direita diz, a cultura do carioca é que vai salvar o evento. É disso que o brasileiro se orgulha lá fora, e que nos salva. Depois da Copa, descobriu-se que o que o estrangeiro mais gostou foi do brasileiro, mais que serviços, transporte, hotéis. Os jogos ficaram em segundo plano, o estrangeiro se encantou mais com o povo. Acho que o que vai acontecer é o estrangeiro perceber os problemas, como a segurança, a história da ciclovia, a Baía de Guanabara poluída… Ficamos envergonhados com isso, mas o que a gente ainda tem é a nossa cultura, a nossa música, nossa geografia, a paisagem. O povo carioca, apresar de ser muito maltratado, recebe bem, tem tempo para o estrangeiro. O carioca é muito inclusivo, eu tenho um amigo que veio da França e chegou quando eu ainda não estava no Rio. Disse para ele esperar na praia, e quando cheguei ele disse que já tinha cinco programas diferentes e feito cinco amigos (risos).
– Você foi um dos nomes que ajudaram a fazer com que o funk chegasse até o asfalto e o grande público, mas é principalmente uma das precursoras da dance music no Brasil com “Sla Radical Dance Disco Club”. Você se encara dessa forma, como um nome fundamental para a popularização do gênero no Brasil?
– Acho que sim. Acho que o meu papel foi interessante no sentido de apontar que o preconceito contra o funk não era só musical, mas social também. Era difícil para a classe média, a academia, que o funk fosse integrante do panteão da música brasileira. Ajudei a mostrar nosso rosto no espelho, que era também do preto, pobre e favelado, ver esse lado mais popular do povo brasileiro. Creio que nunca vai se conseguir matar o funk porque ele é feito da verdade, é uma expressão musical cultural autêntica e verdadeira, criada nos morros do Rio, não é coisa de empresário, produtor, tanto que está aí há quase 40 anos. Quanto à dance music, quando saí da Blitz e fiz meu primeiro disco solo, ele foi muito verdadeiro. Eu fazia dança desde os 9 anos, então não tinha como não fazer um disco dançante. Eu sempre gostei de funk, hip-hop, minhas referências eram James Brown, Michael Jackson, Prince, então não tinha como fazer um disco apontado para a dance music. Mas quis fazer com uma cara brasileira, e com o tempo fui misturando elementos brasileiros. Acho que consegui criar uma linguagem própria dentro da música dançante brasileira.









