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‘Falar de amor e de alteridade é urgente’


Por MAURO MORAIS

13/05/2016 às 07h00- Atualizada 13/05/2016 às 08h37

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Em “Afrofuturista”, a cantora defende a força expressa em seus cabelos, em sua pele, em sua história (Foto: Diego Bresani/Divulgação)

“Agora, sim!” Há uma urgência no que sai da boca de Ellen Oléria. Aos 33 anos, a cantora tem a exata noção de que o tempo constrói, mas também silencia. Ellen, então, grita: “Eu também quero agora, não só pra futuras gerações. Agora, sim! Temos opções quebrando os padrões, saindo dos porões”. Na canção que abre o novo disco, “Afrofuturista” (independente), a cantora defende a força expressa em seus cabelos, em sua pele, em sua história. Diz de uma ancestralidade que também é porvir, fala das raízes e do cosmos. Num retrospecto, aborda o que já era corrente em sua vida artística. Ellen, em suas urgências, nunca deixou de hastear a bandeira, da raça, da sexualidade, da classe e outras mais. E faz em canto, como uma oração.

“Nesse disco, a gente quer falar de solidariedade, de afeto. É uma marca do meu som falar de uma maneira aguerrida, mas, nesse momento, falar de amor e de alteridade é urgente. Vivemos um momento de violência gratuita e precisamos retomar a dimensão humana dos compartilhamentos. Somos sociedade. Estamos juntos”, conta, como a sorrir, em entrevista, por telefone, à Tribuna, direto de sua Brasília natal, onde cantou trilhas de novelas em show para a passagem da tocha olímpica.

Aos 33 anos, mostra ter conseguido fazer das palmas recebidas no reality show “The voice Brasil”, do qual venceu a primeira edição, em 2012, um impulso para não sair do percurso iniciado antes de chegar à TV. Morando em São Paulo, à frente do “Estação plural”, da TV Brasil, talk show que tem rendido bons índices de audiência falando de assuntos variados sem perder atenção para as questões da sexualidade, com uma apresentação que reúne membros da comunidade LGBT (além dela, Fefito e Mel Gonçalves), Ellen escreve seu futuro jogando luz na verdade na qual acredita.

De volta à cena independente, após sair da Universal, que lançou seu segundo disco, como prêmio da atração global, a multiinstrumentista e atriz por formação apresenta uma produção (assinada em parceria com o tecladista Felipe Viegas) cheia de faces, de percussão e batidas eletrônicas, do samba ao carimbó, com um pé no romântico e outro no pop. Já aprovado pela crítica especializada, o álbum reafirma a força de uma artista que não se permitiu fugaz como as instantâneas celebridades dos realities. Agora, sim! Ellen, confirmando Tolstoi, fala da sua aldeia e fala do mundo.

Tribuna – Seu “Afrofuturista” parece flertar com o primeiro, “Peça”. Há um retorno à origem?

Ellen Oléria – No primeiro momento, meu som era muito orgânico. Gravamos ao vivo o primeiro disco. Eram cinco músicos em cena, com algumas participações especiais. O som acabou saindo mais experimental. A diferença entre os dois primeiros trabalhos e o “Afrofuturista” é que nesse momento consigo aproximar essa organicidade de uma plasticidade maior. O disco tem sintetizadores, guitarras e o eletrônico.

– De onde parte seu afrofuturo?

– Comecei minhas pesquisas há quatro anos. Minha parceira na vida, que assina o poema que recito no disco, “Eu posso ser mais”, a Poliana Martins, foi fazer um curso na Universidade Federal Fluminense e voltou muito mexida e começou a compartilhar temas comigo. Uma das coisas que ela disse é que a mestiçagem é um dos ciborgues mais poderosos de nosso tempo. Como assim? Comecei a ler textos. Esse mergulho passou por Zora Neale Hurston, Toni Morrison e me trouxe de volta para Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo. Entrei na filmografia, caí na discografia e de Grace Jones cheguei até Carlinhos Brown, Nação Zumbi, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. O disco é nossa tentativa de fazer o encontro da ancestralidade com a nossa tecnologia.

– Esse terceiro álbum confirma que não se rendeu ao mainstream. Isso foi o que aprendeu estando num reality show?

– A superexposição da participação em um reality show, o que é muito surreal, não garante para mim uma passagem vitoriosa dentro da área de atuação que escolhi estar. Os fãs do programa não necessariamente se tornam público da cantora. São fãs do programa. Minha passagem pelo “The voice Brasil” foi muito legal para a formação de público, mas entendo que meu desejo é que minha canção fale muito mais alto que a minha imagem.

– Esse seu desejo resultou, de alguma forma, no rompimento, na saída de uma grande gravadora (que foi o prêmio do programa). A produção independente é o seu lugar?

– Apesar de eu nunca ter sonhado em fazer parte do casting de uma grande gravadora, isso aconteceu, e foi um momento muito luminoso para minha trajetória. Tenho uma amiga que diz que autonomia é depender do máximo de pessoas possível, porque nunca estaremos sós e perdidas. Experienciei a cena independente, fui abraçada por amigas e amigos talentosíssimos e foi um presente.

– O ser negro perpassa toda a sua produção.

– Não tem como me distanciar dessa que tenho sido. Minha música passa pelas minhas identidades. É o meu modo de olhar para o mundo e me apresentar, como entrego as referências que recebo. Meu discurso está ligado ao meu lugar de fala. Apesar de saber que através da internet a gente se conecta e derruba fronteiras, continuo voltando ao meu lugar, ao meu pertencimento. O disco é um olhar para o “afrofuturismo” e não uma versão. O disco é um registro, uma forma de representatividade, uma foto musical do tempo que tenho vivido.

– Essa sua procura por espaço reflete, de alguma forma, a busca por um lugar de artistas negros que lhe inspiraram na feitura do novo disco…

– Os cânones, durante muito tempo, reafirmaram um projeto de nação brasileira que é invisibilizante de algumas camadas da sociedade. Temos um país fundamentalmente racista, misógino sexista e classista. Algumas políticas públicas e os movimentos sociais sempre batalharam muito para que tivéssemos expressão dentro da academia também. A Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”, diz que gostaria de recortar um pedaço do céu estrelado e fazer um vestido. Isso é afrofuturista! Imagina um vestido de noite. A imagem é muito poderosa.

– Apresentando o “Estação Plural” você coloca em foco um discurso do qual nunca se esquivou, sobre sexualidade. A Ellen afrofuturista é a das bandeiras?

– Vivemos num país que é um dos que mais consomem pornografia trans e é um dos que mais matam mulheres trans. Estranho como existe tanto amor e ódio, tanto desejo e tanto repúdio. A TV Brasil teve uma iniciativa audaciosa, quando discutimos a importância de não retrocedermos em nossos direitos civis, resultados de uma luta histórica. Reunir três pessoas LGBT para falar das coisas da vida num momento como esse é muito simbólico. Sempre pensei que o amor nunca seria um problema, mas, de fato, ser quem a gente é ainda incomoda. Esse mundão é muito grande e cabemos todos, com todas as nossas divergências e diferenças. O “Estação Plural” é legal por não termos um programa “guetificado”. Falamos de temas de interesse global e, assim, mostramos nossa dimensão humana para quem nos olha à distância e distorce nossa imagem.