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Sonho de um homem felicíssimo


Por MARISA LOURES

08/05/2016 às 07h00

Conjunto, que inclui vasos pré-colombianos, lanças, flechas, crânios indígenas, cerâmicas e ferramentas, está à espera de ser revisto para entrar em exposição

Conjunto, que inclui vasos pré-colombianos, lanças, flechas, crânios indígenas, cerâmicas e ferramentas, está à espera de ser revisto para entrar em exposição

A pesquisadora Luciane mostra acervo em caixas armazenadas em uma sala do Arquivo Histórico da UFJF

A pesquisadora Luciane mostra acervo em caixas armazenadas em uma sala do Arquivo Histórico da UFJF

Professor Franz comemora seu centenário, orgulhoso de sua contribuição para a história

Professor Franz comemora seu centenário, orgulhoso de sua contribuição para a história

Naquela tarde de sexta-feira, dia 29 de abril, o professor Franz Joseph Hochleitner estava, especialmente, ansioso. Recebia a equipe de reportagem do jornal que lê, religiosamente, todas as manhãs e, à noite, comemoraria, com grande festa ao lado de amigos, seus cem anos de vida, completados no dia seguinte. Mesmo afastado de um de seus grandes projetos – o Museu de Arqueoastronomia e Etnologia Americana, o qual fundou em 1986 -, no aniversário tão aguardado, ele faz planos para a instituição. “Eu ajudei a sonhar o museu, sonho que ele tenha visibilidade. Eles (colaboradores do museu) me ajudaram a realizar meus projetos”, dispara o pesquisador austríaco radicado em Juiz de Fora desde 1948.

Aberta graças às doações de Franz, a instituição luta para ser reconhecida efetivamente como museu e nunca teve uma casa que pudesse chamar de sua. Depois que deixou um dos últimos endereços, uma sala no Museu de Arte Murilo Mendes, em 2010, a valiosa coleção foi definitivamente fechada ao público. Contudo, mesmo que seja cedo para fazer planos, dias melhores parecem se anunciar, já que um acordo entre a Universidade Federal de Juiz de Fora e o Ministério Público garantiu que o acervo, que recentemente estava trancado em uma sala do RU do Centro e em um imóvel da Av. Rio Branco, fosse transferido, em abril deste ano, para o terceiro andar do Arquivo Histórico da UFJF, na Av. Rio Branco.

“Mesmo não sendo o museu vinculado à Pró-Reitoria de Cultura (Procult), a pró-reitora Valéria Faria considera os acervos originais dos professores Franz Joseph Hochleitner e Nely Ferreira do Nascimento de extrema relevância, razão pela qual entende que o museu deve ser reaberto e disponibilizado para pesquisas. No entanto, não há ainda previsão de reabertura ou mesmo definição de um local certo para a sua instalação, uma vez que a atual gestão da UFJF ainda está fazendo um diagnóstico da situação dos acervos da universidade”, afirmou, por meio de nota, a assessoria de imprensa da Procult.

Laboratório pode ser reativado

Nas novas instalações, a coleção ainda está confinada em caixas e mais caixas. É difícil ter a real dimensão de todo o acervo, mas, com a ajuda da pesquisadora e colaboradora do museu, Luciane Monteiro Oliveira, a Tribuna conheceu peças curiosas. Lá, encontram-se vasos pré-colombianos, lanças, flechas, crânios indígenas, uma máscara ritual, confeccionada de fibra vegetal, cerâmicas e muitas ferramentas.

“Aqui não há peça preciosa, há informações preciosas. É um conjunto magnífico. Boa parte do acervo etnográfico é da etnia Maxacali. E, como toda sociedade é dinâmica, tem muito objeto que eles não fazem mais. Ainda tem todo o acervo da coleção do professor Franz, com peças do grupo Tiwanaku, da Bolívia, que tem sua relevância dentro do contexto da época”, afirma Luciane, encontrando coro nas palavras de César Henrique Barra Rocha, atual coordenador do museu.

“Temos um patrimônio arqueológico e etnográfico não disponível em qualquer outro lugar. Além da parte americana, que é mais ampla, tem a parte da Zona da Mata”, afirma o coordenador, apontando para uma necessidade que se faz urgente. “A cultura do museu precisa ser criada na universidade”, sentencia ele, que é professor do curso de engenharia da instituição de ensino.

Embora não haja muitas certezas quanto à reabertura, o sonho de voltar a receber visitantes começa a ser construído, e, com ele, alguns projetos já são pensados. “Temos ideia de realizar em parceria com o pessoal das artes uma exposição e de abrir para o público, principalmente, o escolar, porque existe demanda”, adianta Luciane, satisfeita com a nova casa. Cesar também faz planos, vê a reativação de toda a parte de pesquisa e reabertura do laboratório de arqueologia.

Acervo passa por nova avaliação

Ex-bolsista do projeto, de 1993 a 1995, quando cursava história, e mestre em arqueologia, Luciane conta que o levantamento de peças para a instituição é feito, basicamente, por meio de doações, como a realizada pela professora Nely Ferreira do Nascimento em 1993. Quanto ao material arqueológico, ele é fruto de escavações feitas pelos pesquisadores ligados ao museu. “Infelizmente, com as várias mudanças, muitas peças se perderam. Inclusive, com essa ação do Ministério Público, o juiz solicitou um arrolamento dos bens, e é isso o que vamos fazer agora. Temos tudo inventariado. Nosso processo é longo, vamos conferir as condições atuais de cada objeto e verificar o que é passível de restauração”, assevera ela.

Por um longo tempo, os trabalhos no museu continuaram em “silêncio”, segundo Luciane. “Fizemos pesquisa e extroversão. O museu foi às escolas, e continuamos com o projeto de extensão com bolsas financiadas pela UFJF. Tivemos quatro bolsas durante todo esse período”, diz a colaboradora. Problema já relatado em reportagem da Tribuna de 8 de abril de 2001, intitulada “Um quase-museu de arqueoastronomia”, a falta de recursos se mantém. “Sempre nos mantivemos com projetos que enviávamos para as agências de fomento, como CNPQ e Fapemig.”

 

Perspectiva de ampliação

Foi na década de 1980 que a história do museu começou a ser escrita. Na época, começou-se a discutir a reunião de todos os “museus” da Universidade no Museu Escola, projeto tocado sob a coordenação da então responsável pela administração e gerência de Cultura da Pró-Reitoria de Ensino e Pesquisa da UFJF, professora Marisa Timponi. Nesse contexto, Franz Joseph Hochleitner doou toda sua coleção, na perspectiva de ampliação das atividades culturais, bem como de pesquisa e extensão. “Descobrimos que a UFJF tinha uma série de embriões de museus que poderiam ser reunidos num só lugar. Foi feito até um projeto arquitetônico de um prédio inteligente, que ficaria ao lado da Biblioteca Central. O professor Franz tinha uma salinha ao lado do local onde eu ficava, e começamos a trabalhar a ideia de investigar aquele acervo pela sua importância”, recorda-se Marisa.

Como cada uma das “instituições” tinha uma intenção museológica diferente, o Museu Escola não foi para frente, conforme aponta a professora. “Percebeu-se a dificuldade de se reunir todos em um só espaço. Depois, o Museu do Franz cresceu, com a presença de pesquisadores de renome”, comenta Marisa, defendendo a ideia de que essas instituições precisam ter seus próprios espaços. “Sou da cultura dos museus. A história precisa ser registrada, e essas instituições precisam ter sua existência, principalmente as que se dedicam à pesquisa. Dentro da universidade, isso precisa acontecer mais do que nunca, porque lá é um fórum de discussão e deve preservar a cultura.”

‘Eu me sinto bem brasileiro’

Em sua casa no Bairro São Pedro, o professor Franz Joseph Hochleitner arrancou aplausos de quem o rodeava, ao dizer o que sentia por chegar aos 100 anos, idade que sempre almejou celebrar. “Felicíssimo. Me tratam muito bem”, comemora o austríaco, repetindo palavras muitas vezes ditas ao longo da vida em nossas terras. “Eu me sinto bem brasileiro”, declara o homem que deixou a Europa e aportou em Juiz de Fora, em 1948, acompanhado da esposa Eva Hochleitner e da filha Regina, de apenas 1 ano.

Assentado na sala de sua casa, foi com orgulho que apontou para o livro “Memórias autobiográficas de Franz Joseph Hochleitner”, lançado pela Editar em 2005, onde está narrada toda sua história. Aqui na “terra prometida”, como ele se refere ao país que o acolheu, ele encontrou refúgio depois de escapar dos sombrios tempos do pós-guerra. Franz “lutou bravamente, servindo em importantes frentes de combate, inclusive da Rússia, onde foi gravemente ferido”, conta, na obra, o tradutor Celso Rodrigues Filho.

Na publicação, são apresentadas sua infância e juventude, além de todos os seus grandes feitos, como a decifragem do calendário lunossolar da Porta do Sol, de Tiwanaku, próxima ao Lago Titicaca, na Bolívia. O trabalho ainda hoje o deixa com brilho nos olhos, sendo lembrado durante o bate-papo com o jornal, e foi o que, primeiro, o fez se projetar internacionalmente.

Além de se destacar no campo das ciências, Franz escreveu seu nome nas artes juiz-foranas, passando a frequentar a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, onde travou amizade com Silvio Aragão e Clério Pereira de Souza. Pintou e esculpiu. “Nosso professor possui a sensibilidade comum aos cientistas e aos artistas, mas tal sensibilidade se manifesta em sua obra de arte no terreno que lhe é próprio, que é o da expressão”, confidencia, no livro, o presidente da Abaap, Lucas Amaral.

Luciane conta que, até bem pouco tempo, Franz Joseph Hochleitner se mantinha ativo nas pesquisas e se inteirava das publicações realizadas pelo Museu de Arqueoastronomia, mesmo após uma isquemia cerebral, sofrida em novembro de 1999. Ao final da entrevista, uma de suas acompanhantes diz, orgulhosa, que ele não toma qualquer remédio e que sua alegria, diária, é acordar, tomar café da manhã, pegar a Tribuna, assistir a filmes e escutar música. Ele acompanhou todo o diálogo atento e voltou a repetir. “Estou muito feliz por ser lembrado.”