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Por Tribuna

27/04/2016 às 07h00- Atualizada 27/04/2016 às 08h25

rania por todos nos reflete sobre a violencia contra a mulher

“Rania por todos nós” reflete sobre a violência contra a mulher

Em

Em “Bunker play”, dez indivíduos são postos em confinamento para um estudo psicológico

Marisa Loures

Qualquer semelhança com o aqui e agora não é mera coincidência. “Rania por todos nós” e “Bunker play”, espetáculos que a Oficina Social de Teatro (OST), de Niterói, traz para o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas nesta quarta e quinta-feira, nos fazem refletir sobre o presente. “Estamos vivendo um momento em que é essencial o indivíduo se posicionar, ter uma opinião a respeito do que ele vivencia. Por isso, é natural que o público se identifique com a peça”, dispara o diretor do grupo, José Geraldo Demezio, referindo-se à “Bunker play”. Entre uma apresentação e outra – 19h e 20h – só haverá o tempo de “arrastar a cadeira”.

Numa espécie de gaiola localizada nas entranhas de uma clínica psiquiátrica, dez indivíduos são postos em confinamento para um estudo psicológico. Contrariando o que é considerado ético, eles são submetidos a condições extremas de sobrevivência. Essa é a história de “Bunker play”. “O abandono, o silêncio e a alucinação os transformam pouco a pouco, e cada um deles se vê com um par de objetivos que, analisados de perto, se configuram em um só: a liberdade do corpo como a sanidade da mente”. Responsável pela direção da montagem, Demezio aponta que a proposta é fundir público e personagens, o que contribui para inserir a montagem na contemporaneidade.

“Na área que normalmente é ocupada pela plateia, formamos uma grande arena. Quando o público chega, os atores já estão em cena e não saem de modo algum. A proximidade entre plateia e elenco é o elemento gerador da catarse que vai se constituindo durante o trabalho”, afirma. Demezio destaca que o público torna-se um co-ator da obra, ao se sentir intimado a reagir mais ativamente em relação ao que ele observa.

“O ator imprime uma informação, e, quando a cena se dá, o espectador já está se relacionando com o elenco. Digo isso baseado em impressões provenientes de outras apresentações. Frequentemente, encontro pessoas dizendo ‘puxa, parece que isso era comigo.’ Quando concebi o espetáculo, idealizava essa reação, mas não imaginava que seria nessa proporção”, observa o diretor. Para o ambiente em que se desenrola a trama, somente o vazio. “Não tem cenário. É um trabalho de ator. Essa é a minha formação.”

Colocando-se no lugar do outro

Em “Rania – Por todos nós”, há uma inversão de papeis. Homens vivendo personagens femininos, e mulheres, os masculinos. “Para nós, era importante falar sobre a história da mulher e fazer com que os homens pudessem entender todo o universo feminino”, conta diretora Erika Ferreira, que ainda assina a dramaturgia. Filha caçula do casal Omar e Nerida, Rania nasce num dia de lua sangrenta. O fato é escondido pela mãe, já que todas as crianças que nascem nesse dia levam “sangue” para os parentes. Para tentar esconder o segredo, a matriarca mente. Contudo, a menina sente-se desprezada, e ao fazer 16 anos, é obrigada a se casar com um escolhido da família. Apesar de questionar a decisão, acaba aceitando o destino desenhado por todos. Um grupo de ciganos chega à cidade, e Rania se apaixona por um deles, vivendo várias peripécias até o final que ela escolhe.

“Lemos muito sobre a violência da mulher para que os atores pudessem entender essa questão. Ao mesmo tempo, as atrizes são colocadas do outro lado da questão. Elas tiveram que sentir, por exemplo, como é pegar uma mulher à força. Em vários momentos, todo o elenco ficou muito desconfortável”, comenta Erika, trazendo razões que apontam para a necessidade de se discutir o assunto. “Em uma pesquisa recente, as pessoas diziam que era culpa das mulheres o fato de elas serem difamadas nas ruas. A vítima é sempre a culpada e não quem está vitimando. Era preciso mergulhar nesse universo”, reforça.

Segundo a diretora, os personagens não são caricatos. “São homens com força masculina, mas com energia feminina. Alguns têm até barba, inclusive o que vive a Rania. A questão é incomodar mesmo”, ressalta ela, que idealizou a montagem para o palco italiano, onde uma cortina, tapetes e almofadas formam o espaço em que se desenrola a peça. “São elementos que cabem em qualquer lugar, até dentro de uma sala pequena. O figurino busca referências não ocidentais, desde indianas até africanas. Fazemos essa mistura, também, na trilha sonora”, diz ela, explicando sua ideia. “Para que pudéssemos entender que essa história pode acontecer do meu lado e em outro lugar, dentro e fora de casa.”

Sem leis de incentivo

Fundada em 2000, a Oficina Social de Teatro (OST) tem um repertório com mais de 50 trabalhos. Nesses 15 anos, de acordo com o diretor, o objetivo da companhia tem sido se apresentar nos palcos, mas também formar alunos. Por isso, oferece cursos, como o de iniciação ao teatro, formação de atores e teatro para adolescentes. O sustento vem da própria escola. “Nós, professores, e os alunos nos empenhamos num processo de arrecadação de verbas. Eles, de uma forma mais livre. Para custearmos essa vinda a Juiz de Fora, por exemplo, fizemos saraus e rifas. O que não deixa de ser uma verdade que se instala no teatro do país”, ressalta o diretor, para quem é impossível ficar “à mercê das leis de incentivo.”

“Com esse quadro crítico que estamos vivendo, a tendência natural tem sido a restrição de oportunidades. Ao mesmo tempo, quando as leis aparecem, surgem para beneficiar as mesmas pessoas, os mesmos grupos. Para ficarmos firmes no nosso propósito, nossa alternativa é seguir com os próprios recursos.”

“Rania por Todos Nós”

27 e 28 de abril, às 19h

“Bunker Play”

27 e 28 de abril, às 21h

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro). 3690-7052