Outras ideias: com Vinícius Faza Paiva

“Nunca se vence uma guerra lutando sozinho.” Um barbudo canta (“Cê sabe que a gente precisa entrar em contato”, continuaria Raul). Outro barbudo confirma. Vinícius Faza Paiva com sua longa barba vermelha vibra como as cordas de seu violino. Fala de sua rotina, dos passos já dados e dos que ainda virão, com o entusiasmo da realização. Sabe que a vida é feita do contágio. E a música… “Música é vibração, é energia”, pontua o músico de 28 anos.
Aos 7, fez o avô vibrar junto. “Ele, o pai do meu pai, sempre me incentivou. Desde molequinho ia lá em casa, pegava minha mão e colocava no teclado”, recorda-se sobre o homem que foi embora justamente no ano em que Vinícius começava a estudar música. Mais velho, aos 16, fez Marco e Maria Aparecida, seus pais, vibrarem juntos.
Tocava acordeom numa banda de nome Espirro de Bode. “Era moleque, e o pessoal todo mais velho. Tocávamos nos cantões da cidade. Meu pai tinha um Chevette velho, a gente colocava o acordeom no carro, pegava minha mãe no serviço, e íamos para as roças”, lembra ele, que hoje faz dezenas de crianças vibrarem pelo que fez de sua vida uma caminhada diferente. “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho.”
Acordou
Ano a ano, Vinícius lê cartas de crianças, estudantes de escolas públicas da cidade, relatando o desejo de estudar música e explicitando o merecimento que possuem. Coordenador regional, produtor cultural e professor de teoria e de violino do Acordes, projeto social iniciado em 2010, inspirado numa proposta semelhante do maestro João Carlos Martins, Vinícius conhece um mundo que poderia ter sido o seu, não fossem os acordes que aprendeu quando pequeno. “Passamos nas salas, avisando do projeto e mostrando os instrumentos (violino e flauta). Os interessados escrevem uma carta falando porque querem participar e porque merecem. É cada história que a gente vê…”, diz. É o caso da criança que o pai manda cedo porque não tem o que comer em casa. Ou do filho de pais viciados em crack que se dividem entre a aula e os cuidados com um irmão menor. É a história do garoto que carrega consigo os mosquitos da falta de banhos. “Tem um caso que me marcou muito, logo no início do Acordes. A menina foi na primeira semana e faltou na segunda, terceira e quarta. Fui perguntar o que aconteceu. ‘Você não sabe não professor?! Ela brigou com uma outra menina dentro da escola. A outra menina ligou para o pai, que era bandido, e ele foi na porta da escola e ficou na porta. Quando a menina saiu, o pai enfiou a faca na barriga dela’. Ela ficou meses na UTI, quase morreu”, conta. “É pesado. Foi um choque de realidade para mim. A gente vive no nosso mundinho e não percebe. Quando a gente quer ir ao cinema, pega o carro e paga 20 contos. Tem aluno meu que, com 16 anos, não sabe o que é pisar num cinema. Está aqui do nosso lado, e a gente não vê. É muita gente se lixando para esses meninos.”
Acordando
O projeto patrocinado pela ArcelorMittal via lei de incentivo atua nas escolas Estadual Clorindo Burnier e Municipal Amélia Mascarenhas. Cem crianças ganham a oportunidade que Vinícius, filho de um aposentado e de uma manicure, teve. “Sou fruto de um projeto social como o Acordes”, emociona-se. “Vim do projeto Ação Social pela Música, do Pró-Música. Foi o que me guiou.” Hoje toca viola de arco, piano, teclado, violão, “arranha na guitarra”, bateria, baixo, flauta doce e transversa, saxofone e o acordeom. No corpo, o jovem marcou a gratidão. Tem uma guitarra tatuada no braço direito, um violino no esquerdo, no pé, uma homenagem à turma de engenharia de som e produção musical da Bituca, universidade livre onde se formou no ano passado, e uma fênix nas costas. “É para simbolizar a mudança da minha vida, de quando falei: Quero ser músico!”
Acorda
Aluno da Escola Normal do primeiro período ao terceiro ano do ensino médio, Vinícius formou-se no curso de violino do Bacharelado em Música da UFJF, onde agora trabalha, aprovado em concurso, como técnico em audiovisual. “Não tenho ambições de ser famoso ou podre de rico. Sou plenamente realizado como músico”, diz ele, que montou ao lado da noiva o Quarteto Scherzo, para tocar em festas. Atleta de judô desde a infância e amante do rock, ele também sobe ao palco para acompanhar bandas locais. “Comprei dois violinos elétricos, coloco a distorção e fica maneiraço”, conta, vibrando como faz diante dos atendidos no projeto social, crianças que passados três meses de aula ganham a permissão para levar os instrumentos para casa. Com os olhos brilhando, ele me diz: “A música está em todo lugar.”
Concordo, esquecendo-me de dizer que sua trajetória, vibrante, também, é música.









