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‘Cada um tem seu jeito de viver e amar’


Por MARISA LOURES

02/04/2016 às 07h00

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Milhares de acusações de um lado. Infinitas defesas de outro. Perdidos estão os brasileiros, mesmo os mais lúcidos. “Nunca fui ligada a partido algum. Sempre votei em pessoas, até porque não acho que os partidos diferem muito uns dos outros. Estou muito envergonhada com a nossa classe política. Também estou tonta com essa velha disputa entre petistas e coxinhas. Uns dizem umas coisas, outros dizem outras. Às vezes, me pego concordando com uns, me pego concordando com outros. Nem sei o que é melhor. O melhor para mim seria a gente devolver o Brasil para os índios e pedir desculpas, porque deu tudo errado”, desabafa a cronista Martha Medeiros em um bate-papo, por telefone, no último dia 30 de março, mesmo dia em que ela usou a coluna que assina no jornal “Zero Hora” para refletir sobre esse conturbado momento político do país.

“Não estou muito preocupada com o que vai acontecer amanhã com a presidente. Se fica, se sai. Estou vendo essa situação de uma forma um pouquinho mais abrangente. Acho que está claro que nós não temos uma sociedade ética e, por isso, não temos representantes éticos”, dispara a escritora, em entrevista transcrita na edição de hoje do Caderno Dois e que vai ao ar no “Sala de leitura” deste sábado, às 10h30 (com reprise na segunda, às 14h30), da Rádio CBN Juiz de Fora.

Dona de uma escrita que conquista pela simplicidade e pela leveza, a colunista do jornal “O Globo” é autora de mais de 20 livros, incluindo os best-sellers “Trem-Bala”, “Doidas e Santas”, “Feliz por nada” e “Divã”, e passa por Belo Horizonte no dia 23 de abril para participar da Bienal do Livro de Minas. “O amor em tempos apressados” é o assunto que ela e o também escritor Xico Sá levarão para o debate. “Sou meio romântica. Nunca vivi romances rápidos. Pelo contrário. Vivi poucos romances, fiquei casada durante 17 anos. Se contar o tempo de namoro, foram 21 anos com a mesma pessoa. Depois disso, tive um relacionamento de oito anos. Falo isso e fico me achando um dinossauro”, brinca a escritora de Porto Alegre, confessando certo espanto diante dos relacionamentos desses tempos modernos.

“As pessoas têm uma coleção de amores e, com isso, fica parecendo que a vida delas é muito mais interessante, muito mais vibrante. Mas eu fico pensando até que ponto elas se conheceram verdadeiramente, até que ponto passaram por todas as etapas do amor. O quanto isso foi realmente consistente para formar um currículo amoroso. Também não quero ficar criticando ninguém, porque cada pessoa tem seu jeito de viver e amar. Mas noto que há uma ansiedade muito forte hoje, e olha que era para eu estar ansiosa porque não sou menina. Já tenho uma certa idade, mas, mesmo assim, estou calma em relação a isso. O que vier que venha para somar e não só para mostrar para os outros.”

Tribuna – Suas crônicas estão refletindo sobre esse conturbado momento político brasileiro. Consegue ver um final feliz nessa história?

Martha Medeiros – Esses políticos que estão aí e que estão sendo acusados não vieram de Marte. Eles vieram da mesma sociedade que a gente pertence, e nós somos um povo que também não age eticamente nos pequenos atos do dia a dia. Isso, desde atravessar a rua fora da faixa de pedestres, comprar produtos piratas e passar trote para telefones de emergência. São tantas e tantas coisas que a gente faz no dia a dia achando que nunca vai dar em nada, que não tem importância. E tem uma importância enorme. Depois, a gente se sente no direito de cobrar dos políticos que eles tenham um posicionamento que nós mesmos, muitas vezes, não temos. Essa classe política que está aí, para mim, está completamente contaminada, não vejo futuro em qualquer partido. Acho que deu tudo errado. O que a gente pode fazer? Primeiramente, teria que moralizar a sociedade como um todo. Rever nosso comportamento, começar a educar nossos filhos com muita seriedade para que surja uma nova sociedade, e, a partir dessa nova sociedade, surjam novos políticos. É um trabalho de muitos anos. Não sei se um dia vai acontecer, mas minha visão política hoje está mais abrangente nesse sentido do que em me preocupar com A, B ou C.

– Você já disse que está se dando o direito de não ter opinião sobre tudo, que não quer mais estar atualizada sobre tudo. A atividade de cronista não exige isso de você?

– Eu me dou o direito de não precisar expor o tempo inteiro a minha opinião e de ter opinião sobre tudo também. Comecei nessa profissão de uma maneira muito circunstancial, isso não era um objetivo de vida. Surgiu uma oportunidade de escrever colunas, eu a abracei, tudo foi dando muito certo, o que é muito gratificante, mas isso não quer dizer que eu agora tenha que virar uma porta-voz da sociedade ou das mulheres, como às vezes querem me etiquetar. Estamos vivendo também uma época muito patrulheira com as redes sociais. Todo mundo ofendendo todo mundo. As pessoas não querem nem discutir uma ideia que seja diferente da delas. Já partem logo para a agressão. Então me dou o direito, também, de me preservar. Não precisa dar a cara a tapa o tempo inteiro. O que eu quero é ficar em paz comigo mesma, escrever sobre as coisas que tenho vontade de escrever e que acho que podem, nesse sentido, ajudar a formar uma sociedade mais ética, falar sobre como a gente pode se relacionar com mais respeito, tirar um pouco essa onda agressiva que estamos vivendo.

– Você já disse também que está negando convites para viajar e participar de palestras. Por que você disse “sim” para a Bienal de Minas?

– Tenho dito muito não porque tenho recebido muitos convites e não tenho como atender todos. Não é porque não goste de algum lugar. Cada vez que saio, estou parando meu trabalho porque não consigo dar conta de tudo. Preciso ter meu tempo em Porto Alegre para realizar as crônicas e outros trabalhos. Vai parecer que estou puxando brasa e não é isso, mas eu, realmente, gosto muito e sempre fui muito bem recebida em Minas Gerais. Já estive em Belo Horizonte, Sete Lagoas e Juiz de Fora e volto sempre que posso. Sei da importância que essa bienal tem e tenho grandes amigas aí. Em Minas, eu me sinto em casa mesmo. Estou com muita vontade de estar aí perto de vocês.

– Seu último livro – “Simples assim” (L&PM Editores, 238 páginas) – é uma coletânea de crônicas escritas nos últimos dois anos. Aprova tudo o que está escrito ali?

– Se eu olhar os textos de ontem, já teria alguma coisinha que faria diferente, mudaria uma palavrinha aqui e ali. Acho que é o retrato de mim mesma. Às vezes, as pessoas me perguntam: “ah Martha, você não tem vontade de escrever uma biografia?” Acho que não preciso porque se pegar todos os livros que escrevi, de todas as crônicas que já foram reunidas, está ali escrita a minha vida, a minha evolução como pessoa, os meus acertos e os meus erros. Tudo isso faz parte de uma construção que nunca se encerra. Nós todos somos obras inacabadas.

– Seu texto é simples e leve. Como alcançar uma escrita assim?

– Nem eu sei. Acho que é reflexo de quem eu sou. Claro que não nasci assim com essa cabeça solta e leve. Pelo contrário. Até fui uma adolescente muito mais fechada. Acho que isso é um refinamento que acontece com a maturidade. E eu gosto de falar sobre as trivialidades que acontecem dentro das quatro paredes e de ter uma visão da vida que não seja dramática. Às vezes, as pessoas se apegam muito à dor, ao sofrimento, à reclamação, para potencializar a própria vida, dar uma impressão de que a vida delas é séria, é profunda, e a gente não precisa disso.