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Outras ideias: com Max Alexandre Tibúrcio


Por MAURO MORAIS

27/03/2016 às 07h00

Max tem fé em Deus para viver bem

Max tem fé em Deus para viver bem

Faltando menos de uma semana para o parto, a fêmea do coelho inicia um ritual de feitura do ninho, retirando os próprios pelos que recobrem as áreas do pescoço, barriga e coxas e amontoando-os para que o filhote, pelado em seus primeiros dias, se aqueça. Em 2002, Max Alexandre Tibúrcio se encantou com a história. “Um colega da minha esposa fazia um curso sobre criação de coelho lá em cima no Linhares e falava que a fêmea soltava os pelos para fazer o ninho. Me interessou e comprei de curiosidade. Eram duas fêmeas que já estavam com cria. Como estava dando filhotinho demais, ofereci em loja e levei para a feira. O pessoal começou a comprar, e eu gostei do negócio”, recorda-se o morador de uma casa pequena, com o acabamento no reboco, no final da rua, no alto do Bairro Três Moinhos.

Enquanto Max fala, dois pintinhos não se cansam de piar na palma de suas mãos, e um de seus três cachorros late sem cessar no quintal onde também vivem 23 coelhos, quatro porquinhos-da-índia, 25 galinhas e 15 patos. Casado desde 1995 com Luciene, com quem teve quatro filhos (Dara, 20 anos, Josué, 18, Lucas, 15 e Yuri, 14), o homem de 50 anos percebeu, há três anos, que ainda havia espaço para mais amor na casa. Acolheu os sobrinhos-netos Ana Lívia, 7, Diego, 6 e Kamile, 4, que hoje o chamam de pai. Num gesto generoso próprio dos pais, fez como fazem os coelhos que admira. “Não aceitei deixar eles irem para o Conselho Tutelar. Não sabemos o que vai acontecer lá, num abrigo. Aqui, a gente, com toda a dificuldade, vai crescendo. Não deixa faltar, não. Aqui tem condição de educar. Hoje a gente vê muita criança que deixa a gente até triste, porque cresce revoltada. Aqui a gente dá muito carinho”, diz ele, à espera da guarda das crianças que aninhou.

O gosto do pai

O lote de Max é bem grande. Tem o mato que dá para os coelhos, que também se alimentam de ração. Tem os mamoeiros e os pés de mandioca – “A mandioca é de qualidade, não é dura não, em cinco minutos, se bobear, ela já derrete”, assegura. Tem, também, lá no fundo, uma banheira de mil litros, que colocou para os patos tomarem banho. Tem lugar para as galinhas correrem. Tem o que vai à mesa e o que vira moeda. “Se você for levar uma vida que você desanima fácil, larga para lá. Mas quando você olha para Deus, Deus sempre dá força. Para a gente não falta nem a ração para os bichos. Quando aperta, pega uma caixa de banana e vende”, fala, com as mãos calejadas, o criador que já chegou a ter 50 coelhos e hoje conta, apenas, 19 fêmeas e 4 machos, das raças Lion e Lop, além dos sem raça definida. “Meu pai gostava de criação, tinha mais era galinha, e eu apanhei o gosto. Ele até tinha umas vaquinhas quando morava em Santa Cecília.”

A força da mãe

A garra de Max é antiga. “Quando eu tinha 13 anos, meu pai, que era militar, separou da minha mãe. Meu irmão foi morar com a minha avó, e eu fiquei com a mãe. Desde pequeno trabalhei. Comecei com uns 11 anos. Engraxava sapatos lá no Centro… Nunca morei com meu pai, mas sempre ia lá ver ele”, lembra-se, com os olhos rasos d’água. Há pouco mais de um ano, o pai regressou, viúvo, de Oliveira Fortes, onde morava há alguns anos. Trazia consigo uma falta de ar e um problema de coração, reflexos de uma vida fumando. Era tempo de reatar os laços, e Max cuidou do homem até os últimos dias. “Estava com meu pai no hospital. Até perdi meu emprego à noite. Não tinha escolha, tinha que ficar com ele no hospital. Acabou que descontrolei aqui. Agora que estou voltando com a criação”, explica-se ele, que mexe “com um pouquinho de cada coisa, com eletricidade, mas trabalhava à noite com faxina”, como a esposa. “Os meninos me ajudam. Quando a gente precisa de um dinheiro a mais, vou até a Praça do Manoel Honório e levo os coelhos para vender.”

A fé do criador

A sabedoria de Max é certeira. Percebo entre os muitos silêncios que surgem quando paramos para contemplar as criações no quintal. Percebo no fôlego que Max pega para falar de uma vida que é feita para os valentes, cuja fé não apaga sonhos. “Tenho o sonho de dar a volta por cima, tirar carteira e tudo. Meus sonhos são sonhos, mas não desisto jamais. Se você para, fica sem viver. Tem muitos amigos mais novos que já morreram. Acabam por causa de mulher, de situações que passam porque não tem como ficar bem em tudo. Mesmo na época ruim, no deserto ali, tem que crer que Deus está contigo. Tem que estar sempre sonhando, sempre perseverando. Essa semana mesmo, algumas pessoas já me ligaram. Tenho uns 13 coelhos ainda, então, dá para ganhar um dinheiro nessa Páscoa.”