‘A perda é muito importante para o crescimento’

Além de ser responsável pela escrita, a psicóloga assina os bordados que ilustram a obra “A árvore da vida”
Sem rodeios, a psicóloga Fernanda Pedroso reflete, em “A árvore da vida”, sobre o nascimento e a morte. “Mas nada que esteja na terra dura para sempre. Isso acontece com as plantas, com os animais e com as pessoas”, escreve a mineira de Dores de Campos no livro que trata com a criança sobre a delicada questão a partir de elementos da natureza. “Primeiro, um passarinho constrói, cuidadosamente, um ninho. Quando o filhote nasce, ele cuida muito bem dele. Depois, falo que, na vida, existem fins e começos que estão acontecendo o tempo todo, e esse início e fim tem um meio, que é a própria vida. Mostro esse meio através da maçã, esperando alguém para pegá-la, do coelhinho que está na relva fresca e do peixinho na água”, conta a psicóloga, que participa do próximo “Sala de leitura”, quadro transmitido aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora.
“Depois, introduzo que as pessoas queridas também morrem, e a gente deve lembrar delas não com tristeza, mas com alegria de elas terem estado com a gente tão perto. Ainda falo que devemos cuidar da terra, fazer com que ela fique mais bonita e que, mesmo que gostemos de morar aqui, um dia teremos que fazer a passagem para a dimensão celeste do céu e das estrelas.”
Além de assinar o texto, Fernanda exercita o bordado nas ilustrações da obra. Ela conta que foi com a mãe, falecida há cerca de três anos, que aprendeu a arte. “Quando ela morreu, pensei em construir o bordado de forma que eu pudesse transformá-lo em livro. O assunto que eu estava vivendo é a perda dela. Nesse momento, associei minha vivência pessoal com a profissional”, explica a autora, destacando que a publicação, embora apresente linguagem voltada ao público infantil, também pode ser consumida pelos adultos devido à complexidade da temática.
Formada em 1979, com atuação em psicologia clínica e educacional, Fernanda exerce a profissão há mais de 20 anos no Colégio Santa Catarina. Ela também faz trabalhos com seminaristas na área de dimensão espiritual e orientação vocacional e profissional. A obra “A árvore da vida” deve ganhar lançamento oficial em abril, mas já pode ser adquirida na livraria Cad’Ori.
Tribuna – Você diz que trabalhar no livro te ajudou na elaboração do luto. O que mudou na sua forma de enxergar a morte depois que sua mãe se foi?
Fernanda Pedroso – Eu nunca tinha vivido de tão perto a experiência de alguém tão próximo e querido morrer. Como minha mãe já estava numa idade mais avançada, foi difícil, mas foi mais fácil aceitar esse processo. A experiência da perda está me dando condições de pensar a própria vida, de se recordar dela, dos dons que ela me passou, de seus ideais. Isso é importante ficar. Isso é o que tem que ficar, porque não temos como segurar a matéria. Essa possibilidade do desapego, de permitir que a pessoa possa fazer a passagem, possa descansar, é muito importante. São elaborações que estou tentando fazer com o livro. Ele me permite compartilhar isso com outras pessoas e trazer a beleza do processo do ciclo da vida. Ele faz a gente crescer espiritualmente.
– A perda pode deixar danos na criança?
– A perda em si não traz danos. Ela traz dano quando a criança não tem um amparo, quando a pessoa não tem a ressignificação simbólica, quando a pessoa não lida com isso como algo natural. É claro que, diante de uma perda drástica, de uma perda violenta, de uma perda inesperada, a pessoa fica em choque, atordoada, sem estabilidade, mas a perda, em si, é um elemento extremamente importante para o processo de crescimento. Estamos numa cultura em que nos apegamos muito pouco ao que é essencial. Com isso, a criança está descartando tudo, as famílias estão descartando tudo. Isso é o processo do momento atual. Precisamos resgatar a relação com as coisas importantes para que, quando elas se forem, a gente possa ficar com o que foi essencial. Tenho percebido questões assustadoras, por exemplo, às vezes, entes queridos morrem, e as pessoas não podem chorar, não podem fazer o luto, não podem sofrer.
– Mas é importante passar pelo sofrimento?
– Não é importante que a pessoa sofra. É importante que a pessoa elabore o sofrimento, que ela possa atravessá-lo e tirar algo dele. Não sou da tese de que a gente precisa sofrer para aprender. Acho que o sofrimento é inerente ao processo da vida.









